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Martin Wolf: austeridade e responsabilidade fiscal são necessárias, mas não no momento

Martin Wolf, Financial Times

Crises financeiras têm efeitos devastadores sobre as finanças públicas. O impacto também é mais severo onde os excessos pré-crise foram maiores. Entre os membros do Grupo dos Sete países mais ricos, isso significa os infectados pela bolha Estados Unidos e Reino Unido. A pergunta que ambos os países enfrentam agora é quanto e quão cedo endurecer. O arrocho terá que ser substancial. Mas uma ação prematura poderia ser um erro devastador.

Em seu trabalho sobre a história das crises financeiras, Carmen Reinhart, da Universidade de Maryland, e Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, notam que "a dívida real quase dobra" nos países atingidos pela crise ("Desta Vez é Diferente", Princeton). Será assim nos casos dos Estados Unidos e do Reino Unido. Isso se deve apenas em pequena parte aos resgates no setor financeiro ou aos programas de estímulo.

Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), no Reino Unido nada do aumento de 10,6 pontos percentuais na relação entre déficit fiscal e produto interno bruto entre 2007 e 2010 será devido a medidas arbitrárias relacionadas à crise ("O Estado das Finanças Públicas", novembro de 2009, www.imf.org). Nos caso dos Estados Unidos, uma deterioração de 1,8 ponto percentual a 6,5 pontos percentuais ocorrerá em consequência dessas medidas. Grande parte da mudança é estrutural: os níveis do PIB e da receita fiscal não retornarão ao patamar anterior.

Então como avaliar esta queda fiscal? Uma forma é histórica. No caso do Reino Unido, a previsão do FMI é de que a crise elevará a relação entre dívida pública líquida e PIB para próximo de 50 pontos percentuais entre 2007 e 2014. Os únicos episódios anteriores comparáveis são as guerras. O aumento desta vez é menor do que nas guerras contra os revolucionários, contra a França napoleônica ou as guerras mundiais do século 20. Mas é tão grande ou maior do que em outras guerras do século 18.

Trata-se, então, de um episódio único na história fiscal britânica. Isso é menos verdadeiro no caso dos Estados Unidos. De novo, o aumento da relação da dívida é comparável ao das grandes guerras -menor do que na Segunda Guerra Mundial, mas maior do que na Guerra Civil ou na Primeira Guerra Mundial. Mas esta não é a primeira vez que os Estados Unidos enfrentam um aumento imenso na relação de sua dívida em tempos de paz. A primeira ocasião foi sob os republicanos, entre 1981 e 1992. Foi quando eles descobriram a economia do lado da oferta.

Apesar do aumento na relação da dívida ser muito grande em ambos os países, os níveis esperados para 2014 não são historicamente excepcionais, particularmente para o Reino Unido, onde a relação entre dívida líquida do setor público e PIB já chegou próxima de 250% duas vezes. Para os Estados Unidos, os níveis da dívida provavelmente se igualarão ao recorde anterior. Mas esses recordes antigos não criaram problemas insuperáveis. No século 19, ambos os países cresceram e saíram da dívida de forma satisfatória, com estabilidade nos preços. Na segunda metade do século 20, eles o fizeram de novo, apesar da inflação ter ajudado na época.

Isso não é surpreendente. Presuma que a taxa real de juros seja de 2,5%. Então os custos do serviço, em termos reais, de uma dívida de 100% do PIB seriam de apenas 2,5% do PIB - quase uma bagatela. Presuma, também, que a tendência da taxa de crescimento seja igual à da taxa de juro real (uma suposição razoável). Então a exigência para a estabilidade da dívida é um orçamento primário equilibrado (isto, antes do pagamento de juros). De novo, isso está longe de debilitante.

Então qual é o problema? É o fato das pessoas poderem perder a confiança de que os governos conseguirão colocar os déficits sob controle. Há pelo menos dois motivos para essa dúvida. Primeiro, as guerras têm um fim natural, enquanto os déficits em tempos de paz não. Segundo, a redução dos déficits ao final das guerras é fácil, enquanto a redução dos déficits em tempos de paz é difícil: cada libra ou dólar vem com um grupo de lobby anexado.

Apenas prometer reduzir os déficits carece de plausibilidade. Agravando isso está a escala dos ajustes. O FMI argumenta que em 2010, o déficit fiscal estrutural primário dos Estados Unidos será de 3,7% do PIB e o do Reino Unido de 7,8%. Este último é o maior entre todos os membros do G7, com o Japão chegando mais perto, com 6,9%.

O FMI também presume que será necessário reduzir a razão da dívida para 60% do PIB até 2030, para criação de espaço para resposta a novos choques. Ele conclui que o arrocho fiscal americano necessário seria de 8,8% do PIB, enquanto o do Reino Unido seria de imensos 12,8%. Outros países avançados enfrentaram essas mudanças, notadamente a Irlanda nos anos 80 e a Dinamarca, Finlândia e Suécia nos anos 90. Mas será um desafio imenso, a menos que alguém possa contar com um crescimento rápido puxado pelas exportações. Esses números transformam em tolice as alegações de Gordon Brown, o primeiro-ministro britânico, de uma estabilidade entrincheirada. Isso dificilmente é o que aguarda o Reino Unido.



A propósito, credibilidade não é algo aceito como certo. É o que mostra o mercado de swap de crédito: os spreads sobre os títulos do governo britânico aumentaram de novo, para 70 pontos-base. Eu suspeito que o motivo para as agências de classificação de crédito não terem rebaixado o Reino Unido pode ser porque se o fizessem, eles teriam, pela lógica, que também rebaixar os Estados Unidos. Que agência então desejaria aparecer perante o Congresso?



Mas mesmo que a corda fiscal não seja infinitamente longa, cortar os déficits agora seria errado. É extremamente provável que isso devolveria as economias à recessão, como aconteceu no Japão nos anos 90. Além disso, os resultados também provavelmente incluiriam a expansão da quantidade e facilitação do crédito por parte dos bancos centrais. Mas essas políticas também correm o risco de minar a credibilidade, particularmente das moedas, já que muitos investidores acreditam (equivocadamente) que são prenúncios de aumento da inflação.



Então o que deve ser feito? Eu concordo plenamente com o comentário de Dominique Strauss-Khan, o diretor-gerente do FMI, em Londres nesta semana, de que "ainda é cedo demais para uma saída geral" das políticas de emergência. Isso também se aplica ao Reino Unido e aos Estados Unidos. Em vez disso, são necessárias instituições fiscais críveis e um roteiro para o arrocho, que será implantado automaticamente se e quando os gastos do setor privado se recuperarem. Entre as coisas que devem ser feitas direito agora é colocar futuros gastos em direitos adquiridos - nas aposentadorias do setor público, por exemplo - em um caminho sustentável. Resumindo, trata-se de implantar um arrocho de longo prazo crível, que responda automaticamente à recuperação.



Mas também não podemos escapar da "verdade inconveniente". Nem o Reino Unido e nem os Estados Unidos são tão ricos quanto antes se acreditava. Há prejuízos para serem compartilhados, sendo que grande parte deles recairá sobre os gastos públicos, tributação ou ambos. Assim que se tornar evidente que nenhum desses países será capaz de se erguer à altura do desafio, crises fiscais serão inevitáveis. Será apenas uma questão de quando.



Tradução: George El Khouri Andolfato

 

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