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Teorias políticas e econômicas da UE contrastam com a dura realidade na Grécia

Quentin Peel e Gerrit Wiesmann

Financial Times

Desde que a crise financeira da Grécia entrou em ebulição no ano passado, a União Europeia vem lutando com sua própria crise na zona do euro, inteiramente previsível e prevista, e sem uma série de instrumentos financeiros e econômicos para lidar com ela.

A Europa também tentou reconciliar profundas diferenças, acima de tudo entre a Alemanha e a França, na necessidade de maior intervenção nas políticas fiscais nacionais, maior fiscalização na administração e nos relatórios econômicos nacionais e alguma espécie de garantia de assistência financeira para membros da zona do euro que estiverem em dificuldade.

"Por 10 anos vivemos sob a premissa obviamente errada que a dívida soberana dominada pelo euro era intercambiável, e assumimos que não havia risco de default por um membro soberano da zona do euro. Foi provado que estávamos completamente errados", disse uma alta autoridade financeira europeia nesta semana. 

Antes mesmo da crise da Grécia, os ministros das finanças estavam conversando sobre como adotar medidas preventivas. "Há uma discussão muito ativa que começou há algum tempo, não como uma discussão da Grécia, mas como precaução caso algo comece a ficar meio incerto", disse ele. 

Paris e Berlim também discutiram planos para que a UE tivesse um governo mais envolvido na economia –mas ainda em nível teórico, e foram rapidamente superados pela crise grega.

Na reunião franco-germânica do início de fevereiro, a pressão especulativa nos mercados financeiros havia já estava pressionando os juros dos bônus do governo grego, mas as autoridades alemãs negaram a necessidade de falar sobre a crise. Era uma questão nacional para a Grécia resolver, de acordo com um assessor próximo à chanceler alemã Angela Merkel. 

Na realidade, altas autoridades financeiras já estavam discutindo como poderia ser possível organizar um plano de resgate para a Grécia sem ofender a proibição formal da UE de qualquer "resgate" para membros individuais da zona do euro. 

As diferenças foram tanto táticas quanto estratégicas. A Alemanha, como guardiã suprema da retidão fiscal em defesa de um euro estável, insistiu que não houvesse assistência financeira até que a Grécia tivesse "feito o dever de casa" com um programa drástico de austeridade para domar os gastos públicos. A França e outros membros como a Itália ficaram mais inclinados a oferecer um pacote mais imediato para aliviar o sacrifício político em Atenas. 

"Como pedir ao contribuinte alemão que subsidie a Grécia enquanto seus servidores civis se aposentam aos 53 anos de idade e os nossos devem trabalhar até os 67?", questionou ontem um parlamentar do partido de Merkel, Cristão Democrata.

O dilema alemão tem sido reconciliar uma determinação em não colocar dinheiro na mesa e ao mesmo tempo impedir que especuladores nos mercados financeiros lucrem com um calote grego. A resposta, proposta por Merkel de forma muito forte para o primeiro-ministro grego Andreas Papandreou na reunião de cúpula da UE em Bruxelas em meados de fevereiro, foi exigir muito mais austeridade de Atenas. 

Em Berlim, parece que o governo mudou de marcha ao se preparar para uma possível assistência financeira, após Merkel explicar ao seu "gabinete econômico" na terça-feira à noite sobre os instrumentos à disposição do governo. 

Altas autoridades alemãs expressaram preferência por um esforço conjunto da UE, que envolveria empréstimos diretos e a compra de bônus gregos, com cada nação encontrando sua própria forma de gerar fundos. 

Pessoas informadas sobre a questão disseram que empréstimos ou a compra de bônus pelo KfW, o banco de desenvolvimento estatal, eram as opções mais prováveis, um sinal claro que o governo se distanciou de uma ideia alternativa de deixar que os bancos comerciais comprassem os bônus gregos com a garantia do governo. 

"O Deutsche Bank estava pedindo aos governos que assumissem o risco, enquanto os bancos privatizariam os lucros", disse uma autoridade. "Nós dissemos: 'Não obrigado, podemos fazer isso sem vocês'." 

A linha oficial continua que a Grécia pode reconquistar sua credibilidade nos mercados sem precisar de empréstimos, mas a maior parte das autoridades e políticos, apesar de se opor à idéia, está convencida que ainda será necessário algum tipo de pacote de resgate.

Tradução: Deborah Weinberg

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