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Lobistas de Londres se preparam para abrir fogo contra a regulamentação do setor financeiro europeu

Carsten Volkery e Michael Kröger

Der Spiegel

Regulamentação dos fundos hegde, um imposto sobre os mercados financeiros, a proibição da venda a descoberto. A tentativa dos EUA de controlar os especuladores deixou o setor financeiro indignado. Lobistas já estão se preparando sistematicamente para atacar as novas propostas.

Um dia depois que a União Europeia delineou propostas para aumentar a regulamentação sobre os mercados financeiros, profissionais financeiros de Londres estão se preparando para um contra-ataque. Alguns receberam as regulamentações com desprezo, outros falaram em cenários de horror para fazer campanha contra as regulamentações.

"Estamos muito desapontados com as propostas de Bruxelas", diz Andrew Shrimpton, parceiro da líder em consultoria de fundos hedge em Londres, Kinetic Partners. Se as regras forem de fato implementadas o setor encolherá demais, diz ele.

Ele reagiu ao anúncio de várias notícias ruins para o setor financeiro esta semana. Na terça-feira, os reguladores do banco alemão BaFin anunciou que proibiria a venda a descoberto de títulos do governo emitidos por países da UE e transferência de dívidas de crédito descobertas. O governo de centro-direita da chanceler Angela Merkel em Berlim disse que quer ver a introdução de um imposto europeu sobre os mercados financeiros. E os ministros das finanças da UE, junto com o Comitê Econômico e Financeiro do Parlamento Europeu, votaram a favor de uma regulamentação mais rígida dos fundos hedge e das companhias de ativos privados, apesar das objeções do governo britânico.

Os limites previstos para os fundos hedge provocaram críticas especialmente em Londres, a meca financeira da Europa. O setor local sente-se particularmente injustiçado uma vez que 80% dos fundos hedge da Europa estão na Inglaterra – e muitos que trabalham em Londres dizem que a Alemanha não toleraria se Bruxelas tentasse, por exemplo, restringir sua indústria automobilística.

"A Suíça está esperando de braços abertos"

A proibição das vendas a descoberto nuas também geraram reclamações. Foi uma reação instintiva do governo alemão, diz Monoj Ladwa do site de negociações ETX Capital. "Os comentários de Angela Merkel acrescentaram lenha à fogueira. Eles exacerbaram os temores em relação ao euro", diz ele.

O setor financeiro está ameaçando a Europa com as possíveis consequências dessas regulamentações. Metade de todos os fundos hedge na Inglaterra são braços de companhias norte-americanas, diz Shrimpton. "Trata-se na verdade de um setor anglo-americano". Os gerentes dos EUA considerarão se vale a pena manter um escritório em Londres.

Ladwa também alega que as instituições financeiras de Frankfurt e Londres podem estar em perigo se os EUA lançar regulamentações unilaterais. "A Suíça está esperando de braços abertos", diz ele. O perigo é real, ele insiste, e acrescenta que conhece pessoas que já mudaram os escritórios de suas companhias.

A ameaça é antiga. Ela pertence ao repertório padrão dos negociadores e gerentes de fundos e é reiterado sempre que se discute impostos mais altos ou regulamentações mais rígidas. A última vez que os profissionais financeiros de Londres ameaçaram um êxodo em massa foi em dezembro de 2009 depois que o governo de Gordon Brown decidiu impor um imposto único de 50% sobre os bônus dos banqueiros.

Entretanto, o grande êxodo não aconteceu. A maioria deles ficou por lá.

Isso pode ter acontecido porque há outros fatores muito mais importantes ao escolher onde montar os escritórios de uma companhia. Uma pesquisa feita pela imobiliária Cushman e Wakefield mostrou que os gerentes de fundos consideram a proximidade com aeroportos internacionais, a infraestrutura empresarial local e o acesso à profissionais qualificados como suas principais prioridades. A metrópole financeira de Londres ultrapassa Genebra com facilidade em todos esses pontos.

Trocando golpes

Sim, algumas companhias estão montando escritórios na Suíça e em outros países, mas muitas estão seguindo o exemplo da Blue Crest Capital. Ela recentemente abriu uma filial em Genebra com uma equipe de 50 pessoas, mas ainda mantém seu escritório em Londres com 300 funcionários.

É pouco provável que muitas companhias se mudem desta vez. O que é provável é uma troca de golpes ainda mais dura entre os lobistas do setor financeiro e a UE. Os dois projetos do Parlamento Europeu e dos ministros das finanças da UE quanto às regulamentações dos fundos hedge estão longe da versão final. Nas próximas semanas, os dois projetos precisam se tornar um só, e os ingleses, por meio de representantes em Bruxelas e de lobistas do setor – tentarão abolir o máximo de medidas que puderem.

O projeto do Parlamento Europeu, que é bem mais rígido do que o dos ministros das finanças, recebeu críticas muito mais duras. Fontes de Londres dizem que está claro que as propostas dos ministros das finanças tiveram a colaboração de profissionais do setor, enquanto o Parlamento Europeu não entendeu o material.

Ambos os projetos contêm sugestões que são "impraticáveis e inexequíveis", diz Andrew Baker, que lidera a Associação de Gerenciamento de Investimento Alternativo (AIMA). Entre elas, a ideia de um passaporte de fundos da UE. A proposta estabeleceria regras mais rígidas da UE sobre gerentes de fundos não europeus, mas deixaria a fiscalização dessas novas regras aos reguladores estrangeiros como a Comissão de Câmbio e Valores Mobiliários dos EUA (SEC). O grupo lobista teme que, como essas agências provavelmente recusarão trabalhar de acordo com a lei da UE, os fundos norte-americanos poderiam ser excluídos do mercado europeu.

O setor também é contra os limites sobre os investimentos que os gerentes de fundos europeus podem executar no futuro. Isso poderia reduzir os lucros e no final os investidores europeus arcariam com os custos, alerta a AIMA.

Dúvidas quanto à abordagem

O grupo lobista espera que as negociações entre a Comissão Europeia, o Conselho de Ministros e o Parlamento Europeu sobre o texto final da diretiva possam abolir as medidas. A AIMA está confiando que os Estados-membro prevaleçam sobre o parlamento. O projeto do Parlamento Europeu é "desproporcional ao ponto de ser punitivo", e discrimina os fundos hedge e as companhias de ativos privados, que passam a ter tratamento especial dentro do setor financeiro. As propostas dos ministros das finanças são "muito mais práticas e realistas", argumenta a AIMA.

Na verdade não foram somente os lobistas que massacraram as novas regulamentações financeiras. Especialistas independentes também foram bastante críticos. "Faz sentido dar um passo para regulamentar os fundos hedge", diz Hans-Peter Burghof, professor de finanças na Universidade de Hohenheim. A falha decisiva das novas regras, entretanto, é que os gerentes de fundos hedge terão que revelar suas estratégias de investimento. "Isso é como obrigar que a Coca-Cola revele sua receita secreta". A inovação seria sufocada, argumenta.

Thomas Heidorn da Escola de Finanças e Administração de Frankfurt tem dúvidas em relação à abordagem. Na verdade, ninguém sabe de fato quantas vendas a descoberto e a transferência de dívidas de crédito sobre os títulos do governo europeus de fato existem, diz ele. De acordo com dados disponíveis, não tem havido muitas, diz ele.

E o Comissário para Mercado Interno e Serviços Financeiros da UE, Michel Barnier, acha que as regulamentações poderiam até mesmo ser perigosas. "O assunto é extremamente complexo", disse ele ao jornal financeiro "Handelsblatt". Os erros políticos poderão ter "consequências extremamente graves".

Tradução: Eloise De Vylder

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