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Ação do governo e 2009 pífio explicam crescimento econômico de 2010

Carlos Iavelberg

Do UOL Economia, em São Paulo

2011-03-03T09:25:09

03/03/2011 09h25

O forte crescimento de 7,5% da economia brasileira registrado em 2010 tem dois motivos principais: o fraco desempenho registrado um ano antes e os estímulos dados pelo governo. Essas são as opiniões de dois economistas ouvidos pelo UOL Economia.

“A economia cresceu tanto porque a base de comparação é muito baixa”, afirma o economista Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP.

Como o crescimento de 2010 foi calculado com base em 2009, ano em que o PIB (Produto Interno Bruto) recuou 0,6% em meio à crise financeira internacional, seu desempenho acabou sendo superior ao observado em anos anteriores.

Além disso, o governo adotou diversas medidas para impulsionar o consumo e reaquecer a economia, como as reduções dos juros e do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados).

“O crescimento de 2010 se deu, primeiro, porque o governo tomou medidas para acelerar os gastos públicos. Segundo, porque ele usou os bancos públicos para suprir a escassez de crédito nos bancos privados, decorrente da crise de 2008 e 2009. E terceiro, porque ele baixou impostos de vários produtos como automóveis e material de construção”, diz Lacerda.


Para José Ricardo da Costa e Silva, economista e professor do Ibmec-DF, o governo pode ter exagerado a mão ao estimular a economia.

 “As medidas do governo fizeram não só com que a economia saísse da crise, mas também estimularam um crescimento acima do que a gente deveria ver”, afirma.

Desacelerando

O próprio ministro da Fazendo, Guido Mantega, declarou nesta semana que o crescimento de 2010 não é sustentável e que o país deveria crescer 5%.

Para reduzir esse ritmo, o governo federal anunciou um corte estimado em R$ 50 bilhões em seu Orçamento para este ano. A intenção é retirar esse montante da economia nacional e, com isso, reduzir seu crescimento.

Outra medida adotada tem sido subir os juros. Nesta quarta-feira (2), o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, decidiu elevar a taxa básica de juros (a Selic) para 11,75% ao ano.

Juros mais altos ajudam a controlar o consumo e, consequentemente, também seguram a inflação. Os juros fazem as prestações das compras a prazo subirem (uma geladeira, por exemplo, fica mais cara). Isso faz as pessoas comprarem menos, em tese.

“Se você combina corte de gastos com aumento de juros, com restrição da demanda e com o cenário internacional turbulento, você pode jogar a economia no chão”, afirma Lacerda, em referência à atual crise no Oriente Médio.

“O desafio do Brasil é diminuir um pouco o ritmo de crescimento da economia, porém manter acelerado o ritmo de investimentos. É isso que vai garantir a sustentabilidade no futuro.”

Para o economista, o governo corre o risco de desacelerar demais a economia com as atuais medidas.


“Isso [o crescimento de 2010] é o passado, a realidade atual já é bem diferente porque está havendo um desaquecimento muito forte da economia”, diz.

Segundo o professor, há a possibilidade de o governo cair numa armadilha ao tentar segurar o consumo da população.

“O que move o investimento é a expectativa de demanda. Se eu gerar uma expectativa de que a demanda vai cair, os investimentos serão bloqueados e aí você não consegue sustentar esse crescimento”, afirma.

Para Costa e Silva, do Ibmec, não existe um “valor certo” para o crescimento de um país. Segundo ele, embora haja diversos modelos estatísticos para tentar fazer esse cálculo, ao fim e ao cabo, os economistas olham para a inflação.

“Não sei exatamente qual é a velocidade que uma economia pode crescer, mas sei que, se ela vem crescendo há alguns anos a uma velocidade de 6% ou 7% ao ano sem gerar desequilíbrio nos preços, é sinal de que ela pode crescer nesse ritmo sem problemas”, diz.

Para o economista, porém, este não é o caso do Brasil. O mercado prevê que a inflação em 2011 será de 5,8%. No ano passado, a inflação foi de 5,91%, a maior registrada no país desde 2004. Em janeiro deste ano, o índice subiu 0,83%, a maior alta desde abril de 2005.

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