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Ir a cinema em SP pesa mais no bolso do que em Londres e NY

Cena do filme O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, usado na comparação de ingressos - Reprodução
Cena do filme O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, usado na comparação de ingressos Imagem: Reprodução

Aiana Freitas

Do UOL, em São Paulo

13/02/2013 06h00Atualizada em 13/03/2013 15h00

O preço do ingresso de cinema na cidade de São Paulo está entre os que mais pesam no bolso do consumidor, considerando a relação entre o tíquete e a renda da população. É isso o que mostra um levantamento feito com base na comparação entre os valores cobrados em 19 grandes cidades do mundo.

Em São Paulo, o ingresso corresponde ao valor recebido por 2,23 horas de trabalho de um espectador. Esse número é o quarto mais alto apurado no levantamento, feito pelo economista e professor da FGV Samy Dana em parceria com o graduando em Economia pela UFV-MG (Universidade Federal de Viçosa) Victor Candido.

Significa que o peso do ingresso em São Paulo é mais alto do que em Londres (9º lugar, com 0,85 hora de trabalho) ou Nova York (15º lugar e 0,53 hora de trabalho). A cidade mais cara é Lagos (Nigéria, 8,05 horas) e a mais barata, Cingapura (Cingapura, 0,25 hora).

Horas de trabalho para comprar um ingresso de cinema

POSIÇÃOCIDADEPREÇO DO INGRESSO
(EM US$)
RENDA PER CAPITA POR
HORA (EM US$)
HORAS PARA
COMPRAR INGRESSO
Lagos (Nigéria)9,591,198,05
Xangai (China)16,064,363,68
Mumbai (Índia)6,371,863,42
São Paulo (Brasil)13,255,942,23
Durban (África do Sul)7,565,571,35
Cidade do México (México)10,448,011,30
Buenos Aires (Argentina)9,748,921,09
Moscou (Rússia)9,8810,700,92
Londres (Reino Unido)1618,750,85
10ºCopenhague (Dinamarca)17,5221,820,80
11ºGenebra (Suíça)20,5227,380,74
12ºParis (França)13,218,70,70
 Madri (Espanha)11,516,350,70
13ºBerlim (Alemanha)13,9820,950,66
14ºDubai (Emirados Árabes)14,9824,940,60
 Sydney (Austrália)12,1019,840,60
15ºNova York (Estados Unidos)13,5025,420,53
16ºSantiago (Chile)4,228,50,49
17ºCingapura (Cingapura)7,7330,920,25

A pesquisa usou como base os preços cobrados pelos ingressos para assistir ao filme "O Hobbit" em janeiro. Foram consideradas sessões às sextas e aos sábados em cinemas de bairros nobres de cada cidade. Em São Paulo, o preço considerado foi R$ 27, ou US$ 13,25 (considerando-se o câmbio da data da pesquisa).

Esse preço foi comparado com a renda per capita média recebida nessas cidades por hora trabalhada.  A partir desses dados, calculou-se a quantidade de horas que o consumidor precisa trabalhar para comprar um bilhete de cinema.

Foram selecionadas grandes cidades de todos os continentes. Estão na lista cidades de países desenvolvidos e emergentes, além daquelas conhecidas por estarem entre as que têm custo de vida mais alto, como Dubai (Emirados Árabes) e Lagos (Nigéria).

São Paulo é a pior da América Latina

São Paulo aparece na pior colocação entre as cidades pesquisadas da América Latina, como Cidade do México (6º lugar no ranking), Buenos Aires (7º) e Santiago (16º). Está, por outro lado, em melhor posição do que cidades de países emergentes como Xangai (China, 2º) e Mumbai (Índia, 3º).

Em valor absoluto, o preço do ingresso de cinema na capital paulista não está entre os mais caros dentre as cidades analisadas. Em Genebra, na Suíça, por exemplo, o valor do ingresso apurado foi de US$ 20,52. Como a renda per capita no país é bem mais alta, porém, lá o consumidor precisa trabalhar apenas 0,74 hora para comprar seu ingresso.

Em Dubai, nos Emirados Árabes, o preço do ingresso também é maior: US$ 14,98. Com apenas 0,6 hora de trabalho, porém, já é possível adquirir uma entrada para o cinema.

Para economista, preço alto tem relação com meia-entrada

Para o economista Samy Dana, a explicação para o alto preço cobrado no Brasil está no uso excessivo da meia-entrada, que acaba pressionando o valor total do ingresso.

"O dono de cinema precisa arcar com custos como conta de luz e água, além de funcionários. Como entre 70% e 90% dos ingressos são vendidos com meia-entrada, ele incorpora no valor do ingresso os custos que tem."

O economista afirma que o preço só cairia se houvesse uma limitação do uso da meia-entrada, além do fim das fraudes, que fazem com que muita gente use o benefício sem ter direito a ele. "O benefício poderia ser dado por idade, por exemplo, para menores de 15 anos e maiores de 65", diz.

Empresas dizem que valor está associado ao "custo-Brasil"

A Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas (Feneec) disse, por meio de nota, que os dados da pesquisa não refletem a realidade. A federação usa como referência dados da Agência Nacional de Cinema (Ancine), segundo os quais o preço médio do ingresso de cinema no Brasil foi de R$ 11,01 em 2012.

A federação diz que o preço do ingresso é determinado por diversos fatores e influenciado pelo chamado "custo-Brasil".

"Os altos impostos, custos de manutenção e operacionalização, além da meia-entrada, fazem com que haja a percepção de que o ingresso de cinema é caro. Mas, se analisarmos os preços de outros tipos de entretenimento no país, o cinema é uma das opções mais baratas que a população tem", diz a nota.

Segundo a Feneec, 65% dos ingressos de cinema são vendidos com meia entrada.

A União Nacional dos Estudantes (UNE), responsável pela emissão de carteirinhas, também foi contatada pela reportagem, mas não houve resposta.

Metodologia

Foram consultados os preços de grandes redes –Cinemark, UCI, Hoyts, UGC--, com salas nos cinco continentes. Os cinemas utilizados na pesquisa estão localizados em regiões nobres, de acordo com sites e guias de viagens. Foram considerados ingressos para as sessões de sexta e sábado à noite por serem dias de alta demanda.