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Empresa dos EUA avalia mercado gay no Brasil e poder do 'pink real'

Sophia Camargo

Do UOL, em São Paulo

01/06/2013 06h00

A parada gay neste domingo (2), em São Paulo, mostra a força de um evento que atrai paulistanos, visitantes de outros Estados e turistas internacionais, e, segundo a Secretaria de Turismo, é o segundo evento mais lucrativo para a cidade, perdendo apenas para a Fórmula 1.

Por conta disso, cada vez mais São Paulo se prepara para receber bem esse público, que tem sempre muita disposição para gastar o chamado “pink money” (ou o "pink real"). Só nos Estados Unidos, esse é um mercado estimado em US$ 835 bilhões, segundo a Abrat GLS (Associação Brasileira de Turismo para Gays, Lésbicas e Simpatizantes).

Marta Dalla Chiesa, presidente da Abrat GLS, diz que a  a associação está fazendo uma parceria com a empresa norte-americana especializada no mercado LGBT Community Marketing Inc. para quantificar, pela primeira vez, o mercado GLS no Brasil.

Chiesa afirma que os DINKs (Double Income No Kids – dupla renda sem filhos, numa tradução livre), como são chamados os casais gays nos Estados Unidos, têm mesmo mais renda do que a média da população. “Normalmente esses casais não têm filhos, e por isso têm mais disponibilidade de investir em educação e lazer”.

Segundo a executiva, estudos mostram que gays e lésbicas consomem mais bens de luxo, design e moda, além de viajar quatro vezes mais que a média e gastar 30% mais que o turista tradicional.

Esses dados têm sido comprovados também no Brasil. A pesquisa feita pelo Observatório do Turismo na Parada LGTB de 2012 mostra que cerca de metade das pessoas que compareceram ao evento eram visitantes de fora da cidade.

Essas pessoas ficaram em média 3,6 dias na cidade e gastaram, individualmente, R$ 1.272,45 no período. Os gastos com as saídas noturnas, como ida a bares, boates ou festas ficaram em R$ 226,80 por visitante.

Criador de fundo internacional aposta na força do "pink real"

Paul Thompson, fundador da LGBT Capital (com sedes em Londres e Hong Kong), especializada em consultoria de investimentos para o mercado gay, diz que o Brasil tem muito potencial na área.

Para ele, o país é um mercado em franco desenvolvimento com potencial de R$ 300 bilhões. "Acredito no poder do 'pink real'".

DADOS DO MERCADO GLS

NO EXTERIOR
O poder de compra do público LGBT americano foi de US$ 835 bilhões em 2011
O mercado de viagens LGBT nos EUA representa US$ 70 bilhões anuais
O poder de compra da comunidade LGBT inglesa é de US$ 135 bilhões
NO BRASIL
25% dos 3 milhões de turistas internacionais que visitam o Rio anualmente pertencem ao segmento GLS
Eles ficam, em média, 5 dias na cidade e gastam US$ 140 por dia, ou seja, o dobro de um turista convencional
80% se hospedam em hotéis 4ou 5 estrelas
65% tem curso superior
NA PARADA LGBT 2012
56% ficaram hospedados em hotéis
Gasto médio diário foi de R$ 353
2,6% dos participantes vieram do exterior.
  • Fonte: Abrat GLS (dados Exterior e Brasil) e Observatório do Turismo (dados Parada 2012)

A Parada atrai turistas de todo o país e também do exterior. Segundo a mesma pesquisa, mais da metade dos participantes vêm de fora da capital, sendo 2,6% do exterior.

Os visitantes internacionais vieram principalmente de Estados Unidos, Holanda, Peru e Argentina. Dentre os participantes de outros Estados, a maioria veio de Minas, Rio de Janeiro, Paraná e Bahia.

Mercado é difícil porque nem todos se declaram gays

Segundo Franco Reinaudo, diretor do Museu da Diversidade em São Paulo e co-autor do livro "O Mercado GLS", estima-se que cerca de 10% da população mundial sejam lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros.

Ele também chama a atenção para o poder aquisitivo desse segmento, que dá preferência a gastos com viagens, cultura e educação. “O que iria para as fraldas vai para o lazer”, brinca.

Mas Reinaudo enfatiza que é difícil trabalhar com o mercado LGTB porque não é um segmento de fácil identificação como idosos ou mulheres, por exemplo.

“Nem todos se identificam como tendo uma orientação sexual diferente da heterossexual, porque ainda há muito preconceito. E as empresas ainda não querem vincular seus produtos ao mercado gay.”

Julian Vicente Rodrigues, coordenador de Assuntos da Diversidade Sexual da Prefeitura de São Paulo, concorda. “Orientação sexual não é uma característica como renda ou cor”, diz. “Como muita gente ainda tem receio de se declarar homossexual, fica difícil inclusive fazer políticas públicas.”'

As empresas que querem entender o mercado GLS e começar a atuar no segmento costumam procurar Laura Bacellar, editora de livros, co-autora do livro "O Mercado GLS" e uma das sócias da Editora Breijeira Malagueta, com foco na literatura lésbica.

Ela é uma das pessoas que atuam como consultora num grupo informal chamado Bureau de Negócios GLS.

Mais jovens recusam discriminação, diz consultora

Laura Bacellar explica que este ainda é um mercado difícil no Brasil por conta da “invisibilidade” do seu público-alvo, mas que começa a ter um desdobramento surpreendente.

“Descobrimos que nosso mercado está mais para simpatizante. Ou seja, eu não sou gay, mas simpatizo com a causa.”

Ela afirma que esses simpatizantes são pessoas que frequentam lugares gays sem serem gays e apoiam iniciativas ligadas ao setor.

Para eles, incomoda ver uma propaganda como a de uma empresa que recentemente fez uma discriminação com um homossexual. Isso não é mais bem aceito por esse público, que é constituído principalmente pelos mais novos.

“Quanto mais jovem, menos preconceito. Isso indica que no futuro teremos uma abertura maior para lidar com o assunto.”

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