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Crise da Venezuela se aprofunda com aparição do fantasma do calote

Sebastián Boyd e Ye Xie

Da Bloomberg

9 de setembro (Bloomberg) – Os operadores de dívida venezuelana estão começando a considerar a possibilidade de o país ficar sem dinheiro.

O custo de assegurar os bonds do país em moeda estrangeira contra a inadimplência teve seu maior crescimento ontem desde o desmoronamento da Lehman Brothers Holdings Inc. em 2008, subindo para 14,25 pontos porcentuais, o mais caro do mundo.

Os investidores também estão exigindo o maior prêmio em seis meses por assegurar as notas do país sul-americano em vez daquelas da Ucrânia, devastada pela guerra.

Embora a maioria dos analistas e investidores espere que a Venezuela e sua empresa estatal de petróleo realizem pagamentos de US$ 5,3 bilhões por bonds com vencimento no mês que vem, está aumentando a preocupação de que o país possa acabar sem dinheiro suficiente para pagar dívidas já no ano que vem. As reservas afundaram para seu mínimo em 11 anos e os preços do petróleo estão caindo.

Ontem, as notas do país despencaram depois que Ricardo Hausmann, economista da Universidade Harvard nascido na Venezuela, questionou a decisão do governo de continuar pagando aos detentores de bonds diante da insuficiência de todo tipo de bens, de remédios básicos a papel higiênico.

"O mercado de bons finalmente está começando a acordar" para a possibilidade de que a Venezuela dê o calote, disse David Rees, economista da Capital Economics em Londres, em entrevista por telefone. Ele antevê que o país poderia dar o calote ainda neste ano.

Uma porta-voz do Ministério das Finanças da Venezuela não quis fazer comentários sobre as observações de Hausmann.

'Razão moral'

Os swaps de crédito a cinco anos do país subiram 1,76 ponto porcentual ontem depois que Hausmann, ex-ministro de Planejamento da Venezuela e atualmente diretor do Centro de Desenvolvimento Internacional de Harvard em Cambridge, Massachusetts, disse em entrevista com a Bloomberg News que não havia "razão moral" para que o governo realizasse seus pagamentos de dívida no mês que vem.

O comentário surgiu depois que ele escreveu junto com Miguel Ángel Santos, seu companheiro de pesquisa em Harvard, um artigo chamado "Should Venezuela Default?" ("A Venezuela deveria dar o calote?", em tradução livre), publicado no dia 5 de setembro, no Project Syndicate. No artigo, destacaram como as dívidas com os importadores e a escassez de bens estão dificultando a vida dos venezuelanos.

"O fato de que esta administração tenha escolhido dar o calote em 30 milhões de venezuelanos ao invés de Wall Street não é um indício de retidão moral", escreveram. "É um indício de falência moral".

A Venezuela gerou prejuízos de 8,5% aos investidores em bonds desde a posse do presidente Nicolás Maduro, em 19 de abril de 2013, frente a um ganho médio de 3,6% para os bonds soberanos de mercados emergentes. Durante os 14 anos de governo do predecessor de Maduro, Hugo Chávez, as notas venezuelanas retornaram 677%, superando o avanço médio de 387% para a dívida de países em desenvolvimento, mostram dados compilados pelo JPMorgan Chase Co.

Preços do petróleo

Os bonds dos membros da OPEP também foram prejudicados pela queda de 10% nos preços de referência do petróleo durante os últimos 12 meses, segundo Michael Ganske, que detém bonds do país na dívida de US$ 8 bilhões dos mercados emergentes que ele supervisiona na Rogge Global Partners Plc em Londres. Atualmente, o petróleo bruto opera a cerca de US$ 94 por barril, em comparação com um pico de US$ 145 em julho de 2008.

A crescente dificuldade para ter acesso a dólares está obrigando os venezuelanos a recorrerem aos depósitos de distribuição oficiais do governo, onde, para obter bens subsidiados, fazem fila com tíquetes numerados que lhes dão direito a comprar determinados itens, como frango congelado, arroz e óleo de cozinha.

"A razão pela qual há um problema tão sério na Venezuela são as horríveis políticas macroeconômicas, e isso pode ser consertado", disse Lars Christensen, economista-chefe para mercados emergentes do Danske Bank A/S em Copenhague. "Porém, se a Venezuela der o calote hoje, nada terá mudado quanto às horríveis políticas do governo venezuelano".

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