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Em 1 ano de Temer, economia melhora, mas é cedo para festa, dizem analistas

Téo Takar

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Getty Images/iStockphoto/tzahiV

O presidente Michel Temer (PMDB) completa um ano no cargo nesta sexta-feira (12). Ele assumiu interinamente em 12 de maio de 2016, com a abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Em seu discurso de posse, Temer defendeu o Estado mínimo e disse que a prioridade seria cortar gastos e recuperar as finanças do governo. Prometeu, ainda, levar adiante reformas impopulares, como a da Previdência, que está em discussão na Câmara, e a trabalhista, que agora tramita no Senado.

Algumas promessas, como a revisão do Pacto Federativo, que estabelece a divisão de recursos entre governo federal, Estados e municípios, e o fim do fundo soberano, ainda não saíram do papel.

Em 12 meses, Temer conseguiu vitórias importantes no Congresso, como a proposta que limita os gastos do governo por 20 anos, a chamada "PEC do teto dos gastos", que busca conter o avanço do rombo do governo, estimado em R$ 139 bilhões neste ano.

Mas as conquistas mais relevantes do novo governo, segundo analistas, foram na área econômica, com o controle da inflação, a queda dos juros e a volta da confiança dos investidores estrangeiros. Os próximos passos esperados, segundo eles, são a retomada do crescimento e a redução do desemprego.

Não há dúvida de que o país está muito melhor do ponto de vista econômico.

Alexandre Espírito Santo, professor do Ibmec-RJ e economista da Órama Investimentos

Inflação foi o que mais melhorou, diz economista

Temer começou seu governo com uma nova equipe econômica, buscando recuperar a confiança dos investidores."O Henrique Meirelles [ministro da Fazenda] e o Ilan Goldfajn [presidente do Banco Central] estão tentando resgatar tudo aquilo que foi erodido nos últimos cinco anos", afirma Alexandre Espírito Santo, professor do Ibmec-RJ e economista da Órama Investimentos.

Ele diz que a economia é movida, basicamente, por expectativas, sejam elas de inflação, de juros ou de crescimento. "O que o governo fez nos últimos meses foi justamente ancorar as expectativas. Se antes a inflação caminhava para dois dígitos e não havia qualquer previsão para conter seu avanço, agora o mercado espera uma inflação sob controle, próxima e talvez até abaixo do centro da meta, de 4,5% ao ano", explica Espírito Santo.

Segundo Marcel Balassiano, pesquisador de Economia Aplicada do IBRE/FGV, a queda da inflação foi resultado da combinação entre a mudança na condução da política monetária pelo Banco Central, o recuo dos preços dos alimentos após o fim da seca que afetou o centro-sul do país e, ainda, consequência do intenso processo de recessão, que elevou o desemprego e reduziu o consumo.

A média da inflação durante o governo Dilma foi de 7,1% ao ano. Agora, a expectativa é que ela se mantenha na meta ou abaixo dela. Sem dúvida, foi a variável econômica que melhorou mais no governo Temer.

Marcel Balassiano, pesquisador de Economia Aplicada do IBRE/FGV

Empresários e investidores voltam a confiar

A mudança de postura do novo governo na condução da política econômica e a volta da previsibilidade para os principais números da economia se traduziram em retomada da confiança por parte de empresários e investidores, especialmente os estrangeiros, segundo os especialistas.

Essa melhora pode ser vista no Risco Brasil, que saiu da casa dos 500 pontos, no fim de 2015, para pouco mais de 260 pontos atualmente. Quanto maior o número, maiores são as chances de o país não honrar seus compromissos financeiros.

A retomada da confiança também se traduziu em queda nas taxas de câmbio e de juros. O dólar, que chegou a valer mais de R$ 4 no fim de 2015, agora é negociado em torno dos R$ 3,20. E a taxa básica de juros (Selic), que estava em 14,25% até outubro, entrou em trajetória de baixa e deve encerrar o ano na faixa de 8,5%.

Desemprego ainda deve resistir

Se investidores e economistas já comemoram os avanços econômicos, ainda vai levar um tempo para a população sentir plenamente a melhora. Os economistas explicam que a taxa de desemprego é a última variável a refletir a crise, e também a última a acompanhar a recuperação.

Eu acredito que ainda vai levar pelo menos um ano para reverter esse quadro de desemprego, mesmo com a economia voltando a crescer a partir de agora.

Alexandre Espírito Santo, professor do Ibmec-RJ e economista da Órama Investimentos

"A economia parou de encolher. Esse é primeiro passo para o país voltar a crescer", diz o pesquisador Marcel Balassiano. Depois de oito trimestres seguidos de economia encolhendo, ele estima um crescimento modesto do PIB, de 0,6% no primeiro trimestre deste ano. "No entanto, o emprego tem um efeito defasado em relação ao comportamento da economia. A melhora ainda vai acontecer."

Ele prevê que o Brasil encerrará 2017 com uma taxa de desemprego de 12,4%, abaixo dos atuais 13,7%, mas ainda bem superior aos 9% registrados em 2015.

Recuperação ou voo de galinha?

Alguns economistas temem que a recuperação possa não acontecer tão rapidamente e que o país esteja caminhando para um período de estagnação ou um "voo de galinha" [recuperação por pouco tempo], e não para uma fase de crescimento consistente.

O professor Pedro Rossi, diretor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon) da Unicamp, avalia que a estratégia adotada pelo governo Temer limita a capacidade do Estado de atuar como indutor do crescimento econômico. "A PEC 55, que limitou o gasto público, vai acabar restringindo a capacidade de o governo aplicar recursos em diversos setores, o que vai se traduzir em uma demora para sair da crise atual e um crescimento bem menor da economia", afirma.

Rossi diz que o governo Dilma provocou um choque na economia em 2015, ao cortar drasticamente o gasto público, levando o país à pior recessão da história. "O resultado foi uma queda abrupta na arrecadação e a piora do deficit fiscal. Portanto, cortar gasto não significa necessariamente reduzir deficit. O que faz o deficit diminuir é o crescimento da economia."

Para ele, em algum momento o governo terá que voltar atrás na lei que limita o gasto público, revogando-a ou alterando seu formato drasticamente, para evitar que o Estado fique engessado e não consiga investir sequer em serviços básicos, como educação, segurança e saúde.

É preciso também retomar o papel do BNDES, dos outros bancos públicos e também da Petrobras como indutores de crescimento. Infelizmente, o atual governo provocou um desmonte nessas instituições.

Pedro Rossi, diretor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp

Eleição de 2018 é fonte de incerteza

A dúvida, segundo os especialistas, é como ficará a economia a partir de 2019, quando um novo presidente assumir o país. Os possíveis impactos da operação Lava Jato sobre a classe política, incluindo nomes de possíveis candidatos à sucessão, como os tucanos Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin, além do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tornam o cenário eleitoral imprevisível.

"Vivemos um otimismo moderado neste momento, mas, sem dúvida, teremos alguma turbulência à frente. Ainda aguardamos confirmações para poder traçar um cenário", afirma Gustavo Cruz, economista da XP Investimentos. "O quadro hoje é totalmente imprevisível. Não sabemos nem quem vai disputar a eleição presidencial em 2018."

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