Bolsas

Câmbio

Uber, Netflix, WhatsApp: por que fazem sucesso, mas têm perdas e dívidas?

Mariana Bomfim

Do UOL, em São Paulo

Andar de Uber, assistir a um filme pela Netflix ou mandar uma mensagem pelo WhatsApp. Esses serviços adentraram as casas e dominaram os smartphones de tal forma que hoje fazem parte do dia a dia dos consumidores. Com tantos usuários, essas empresas devem ganhar rios de dinheiro, certo?

Não é bem assim. Na verdade, elas registram prejuízos frequentes e acumulam dívidas. O Uber, por exemplo, já perdeu mais de US$ 1,3 bilhão só neste ano. Ainda assim, seu valor de mercado é estimado em US$ 69 bilhões --como a empresa é privada e não tem ações na Bolsa, não é possível saber exatamente quanto ela vale.

Como é possível empresas gigantes e valorizadas no mercado operarem no vermelho? E o que faz um investidor colocar dinheiro nelas?

Aposta em ganhos futuros

Esses investidores estão apostando em ganhos futuros, diz o jornalista norte-americano Brad Stone, autor de "As Upstarts" (Editora Íntrínseca), livro que analisa a maneira como Uber e outras empresas estão mudando o mundo. "Na visão otimista, essas perdas seriam investimentos, e não sinais de um modelo de negócio falido", diz.

Segundo ele, o Uber investe no recrutamento de motoristas pelo mundo para tentar ter o monopólio do transporte privado; a Netflix investe bilhões em séries e filmes próprios para atrair assinantes; e o Snap [dono do aplicativo Snapchat] é uma empresa relativamente nova e investe no crescimento da base de usuários.

Mesmo o YouTube, que já tem mais de um bilhão de usuários, não mostra resultados financeiros positivos. A presidente-executiva da empresa, Susan Wojcicki, disse que a empresa ainda está em "modo de investimento", aproveitando a oportunidade criada pela queda na audiência da televisão tradicional. Em entrevista à revista "Fortune" no final do ano passado, ela afirmou que não há prazo para o YouTube começar a dar lucro.

Todos querem ser a nova Amazon

A fórmula de investir pesado na expansão para ganhar mercado e lucrar no futuro é comum na indústria de tecnologia.

Um exemplo clássico é o da Amazon, de acordo com Roy Martelanc, professor de administração na USP (Universidade de São Paulo). A empresa de comércio eletrônico passou anos recebendo investimentos e registrando prejuízos. "Em 2000, com o estouro da bolha pontocom, o mercado deu um ultimato: ou a Amazon gerava caixa ou pararia de receber dinheiro", diz. "Em um ano, a empresa começou a dar lucro."

O estouro da bolha da internet aconteceu quando as ações de empresas de tecnologia, que haviam disparado, despencaram nos Estados Unidos e provocaram um efeito dominó nas Bolsas do mundo todo.

No final, quem investiu na Amazon se deu bem. A empresa, que começou vendendo apenas livros, hoje é a maior varejista online do mundo e resolveu partir também para o mercado tradicional ao comprar a rede de supermercados norte-americana Whole Foods Market. Seu fundador, o bilionário Jeff Bezos, chegou a ultrapassar Bill Gates e ocupar o posto de pessoa mais rica do planeta.

Quem investe no Uber, na Netflix, no Snap e em outras empresas do tipo aposta que uma delas pode ser a nova Amazon. "A Netflix ganha telespectadores da TV convencional; a Tesla [fabricante de carros elétricos] 'rouba' clientes das grandes fabricantes de automóveis; as crianças passam tempo no Snap, não vendo TV", afirma Stone.

Por outro lado, quando a estratégia de ganhar mercado dá sinais de esgotamento, as empresas podem passar por problemas. É o caso do Twitter, que sofre para conseguir mais usuários e vê suas ações caírem na Bolsa. O próprio Snap tem mostrado dificuldade para enfrentar a concorrência de aplicativos do Facebook, como o Instagram, com a ferramenta Stories.

E os consumidores?

Se o cenário desejado pelos investidores se concretizar, com poucas empresas dominando o mercado e ditando regras e preços, o consumidor não será prejudicado?

Roy Martelanc, da USP, diz que existe, sim, o risco de surgirem monopólios, como aconteceu com os mercados dominados por Microsoft, Google e Facebook, por exemplo. Mas, ainda que esse seja o desejo dos investidores, é improvável que as novas gigantes da tecnologia consigam monopolizar o mercado, segundo ele.

"O Uber, por exemplo, já tem meia dúzia de concorrentes. Se ele escorregar, perde lugar", diz.

Para o autor Brad Stone, o consumidor deve sair ganhando. "A competição vai pressionar as margens de lucro do Uber e criar uma batalha constante pela lealdade dos motoristas", diz. "Existe um longo caminho a ser percorrido pela empresa antes de se falar em dominação do mercado."

Quem são elas

Saiba mais sobre algumas gigantes de tecnologia que dão prejuízo ou têm alto endividamento.

  • Uber

Getty Images

No segundo trimestre deste ano, o Uber perdeu US$ 645 milhões. Desde 2010, a empresa já recebeu mais de R$ 15 bilhões em investimentos e hoje é avaliada em US$ 69 bilhões. O Uber gasta muito dinheiro com batalhas judiciais para entrar em novos mercados no mundo todo. Por não ser regulamentado na maioria dos locais e não pagar impostos, enfrenta forte resistência, principalmente de associações de taxistas. 

  • Netflix

Getty Images

A Netflix até dá lucro --no segundo trimestre, os ganhos foram de US$ 65,6 milhões--, mas suas despesas estão disparando. A expectativa do mercado é que a empresa gaste US$ 2,5 bilhões neste ano, um aumento de 47% em relação ao US$ 1,7 bilhão gasto no ano passado. Os gastos mais pesados são com a produção de novos filmes e séries e com o pagamento de direitos para poder exibir filmes e séries de outros estúdios. Segundo a agência de notícias Bloomberg, a Netflix precisará ganhar milhões de assinantes por trimestre para pagar esses gastos. Uma investigação do jornal "Los Angeles Times" diz que a dívida da empresa já estaria em cerca de US$ 20 bilhões. A companhia contesta a informação e diz que sua dívida total é de US$ 4,8 bilhões. No Brasil, há um novo desafio. O prefeito de São Paulo, João Doria, anunciou que vai começar a cobrar imposto de serviços de streaming (transmissão de vídeo o música online), incluindo a Netflix.

  • Snap

iStock

Os resultados da Snap, dona do aplicativo Snapchat, assustam. A companhia arrecadou US$ 3,4 bilhões ao lançar ações na Bolsa de Nova York em março. Quem comprou os papéis, porém, pode ter se decepcionado com o primeiro balanço divulgado após a estreia na Bolsa. A Snap teve prejuízo de US$ 443 milhões no segundo trimestre, quase quatro vezes a perda registrada um ano antes. Mas o investidor não pode dizer que não conhecia o risco. Estudos sobre a empresa, divulgados antes da venda das ações, já alertavam que a empresa poderia nunca dar lucro. De fato, a Snap tem tido dificuldade para enfrentar a concorrência do Instagram, do Facebook, com a ferramenta Stories.

  • WhatsApp

Pixabay

Ninguém sabe exatamente qual a situação do aplicativo porque seu dono, o Facebook, não divulga resultados separados para cada uma de suas empresas. A avaliação do mercado, porém, é de que o WhatsApp tem dificuldade para gerar receita e dá prejuízo. Em 2013, antes de ser comprado pelo Facebook por US$ 22 bilhões, o WhatsApp perdeu US$ 138 milhões. Sem anúncios publicitários, responsáveis pelo lucro do Facebook, o WhatsApp tinha como fonte de receita a cobrança de anuidade de US$ 1, mas essa taxa foi extinta no ano passado. Recentemente, o aplicativo começou a testar uma nova forma de gerar receita: como ferramenta oficial de comunicação entre empresas e clientes.

  • Tesla

Divulgação

Pouco conhecida no Brasil, a Tesla chegou a superar as tradicionais GM e Ford em abril como montadora de maior valor de mercado nos Estados Unidos, valendo US$ 51,6 bilhões. Em julho, voltou a ser ultrapassada pela GM. A Tesla, porém, é muito menor que a GM e outras montadoras tradicionais. Em 2016, por exemplo, a Tesla produziu 83.922 veículos, e a GM, cerca de 10 milhões. A produção ainda em pequena escala e os altos gastos com o desenvolvimento de tecnologias para carros elétricos e autônomos são os principais fatores para que a Tesla siga tendo perdas. No segundo trimestre, o prejuízo foi de US$ 336,4 milhões. Mas a empresa aposta que os gastos de agora vão garantir o domínio da tecnologia que deverá ser substituir os carros movidos a combustíveis fósseis no futuro. Cada vez mais países manifestam planos de proibir a venda de carros a diesel ou gasolina nos próximos anos. No Brasil, um projeto de lei propõe essa proibição a partir de 2040

  • Netshoes

Reprodução/YouTube

Dona de sites de comércio eletrônico, a brasileira Netshoes nunca deu lucro. Em abril, a companhia lançou ações na Bolsa de Nova York e, no primeiro balanço divulgado, informou perdas de R$ 35,2 milhões. Apesar disso, a base de usuários cadastrados nos sites da empresa subiu 20,8% em um ano. A Netshoes diz que gasta para conquistar novos mercados, como Argentina e México, e ganhar escala. Uma das estratégias para atingir essa meta são os investimentos em publicidade e a adoção de uma política de descontos em produtos.

  • YouTube

Lucy Nicholson/Reuters

O YouTube pertence à Alphabet, dona do Google, que, assim como o Facebook, não divulga resultados separados por empresa. O mercado estima que a plataforma dá prejuízo, mesmo gerando bilhões com anúncios inseridos no início dos vídeos. A presidente-executiva da empresa, Susan Wojcicki confirma essa estimativa ao dizer que lucro não é o foco do YouTube e que não há prazo para a empresa começar a dar dinheiro. No caso da publicidade, um desafio para a empresa é convencer os usuários a assistirem aos anúncios até o final. Outra questão surgida recentemente é o boicote de anunciantes após críticas de que o Google permite discursos de ódio, racistas e homofóbicos, por exemplo, no YouTube. Os anunciantes declararam que não desejam ver suas marcas associadas a esse tipo de discurso.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos