Bolsas

Câmbio

O que separa o Brasil de uma crise cambial?

Jean-Philip Struck

Da Deutsche Welle

A disparada da moeda americana e o exemplo do vizinho argentino --e também de países como a Turquia-- levaram o presidente Michel Temer no dia 7 de junho a assegurar que "não há risco de crise cambial" no Brasil.

No dia anterior, o economista e guru de mercados internacionais Mohamed A. el-Erian havia alertado sobre a possibilidade de o Brasil ser o próximo país emergente a entrar em crise financeira.

"Depois de Argentina e Turquia, o Brasil será o próximo a enfrentar um distúrbio no mercado de câmbio?", publicou ele no Twitter.

Na última quinta-feira (08), o dólar chegou a atingir a máxima de R$ 3,9674. Após atuação do Banco Central para segurar a moeda por meio de leilões de swap cambial – equivalentes à venda futura de dólares – a cotação fechou em cerca de R$ 3,90.

Nesta segunda-feira (11/06), a moeda fechou em R$ 3,72 após forte atuação do BC, que ofertou R$ 2,5 bilhões em swaps cambiais. A expectativa é que entre os dias 8 e 15 de junho as ofertas de swap alcancem mais de R$ 24 bilhões.

Na Argentina, a desvalorização do peso levou o país a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para pedir um empréstimo de US$ 50 bilhões. Tanto a Argentina como a Turquia – que passa por uma turbulência similar – vêm sendo afetadas especialmente pelo aumento da taxa de juros nos EUA, que levou investidores a retirar valores de países emergentes em busca dos rendimentos mais seguros na economia americana. É comum que o dólar ganhe força quando o Fed (o banco central americano) aumenta os juros.

Em 2001, os dois países já haviam passado por graves crises financeiras, que derreteram suas moedas. A Argentina chegou a declarar a maior moratória da história.

Apesar das altas do dólar e do nervosismo observado no mercado na semana passada, o cenário brasileiro é diferente da Argentina e da Turquia.

"Não há nenhum sentido em comparar o Brasil a esses países. O que ocorreu foi um momento de pânico disfuncional", garante Lívio Ribeiro, pesquisador da Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-IBRE).

Ribeiro lembra que a Argentina e a Turquia são países com déficit em conta corrente elevado e têm uma parcelada considerável da dívida em dólar e euro - no caso da Argentina, o percentual passa de 50%.

A situação do Brasil é diferente. A parcela em dólar da dívida é extremamente baixa, não chega a 3% – o país é até mesmo credor líquido em dólar, ou seja, quando a moeda americana sobe, a dívida do país cai. Além disso, o déficit em transações – as trocas com outros países –do Brasil é baixo.

"A situação brasileira tem uma dualidade relevante neste momento. O país não tem risco de crise cambial, já que tem mecanismos para gerar liquidez na busca de proteção e no mercado a vista, face a expressividade de suas reservas cambiais, mas ao mesmo tempo tem um contexto econômico e político amplamente deteriorado que faz com que ocorra forte aversão ao seu risco, o que desvaloriza de forma consistente sua moeda", afirmou Sidnei Moura Nehme, economista e diretor-executivo da corretora NGO.

O país ainda possui reservas cambiais que chegam a 380 bilhões de dólares. Até o momento, nem recorreu a elas. Apenas as operações anunciadas de swap já alcançam metade do valor envolvido no acordo da Argentina e o FMI, o que dá uma dimensão da diferença das ferramentas à disposição de cada país. Antes do acordo com o FMI, os argentinos viram suas reservas caírem para menos de US$ 50 bilhões.

"A mera ameaça do Banco Central em agir já levou a moeda a cair", explicou Ribeiro, citando os leilões de swap cambial realizados pelo BC na semana passada, que provocaram queda de US$ em apenas um dia, a maior queda em um período tão curto desde 2008.

Segundo Ribeiro, é possível que o Brasil experimente mais altas da moeda até o fim do ano por causa de "eventos disfuncionais", ou pânicos que podem ter como gatilho o cenário eleitoral ou novos episódios da crise política.

Ainda assim, nenhum desses episódios deve resultar em uma crise cambial como as que ocorreram no Brasil em 1999 e 2002. "O cenário hoje é totalmente diferente. O país conta com amplas reservas internacionais e não tem déficit elevado em transações. Não se pode comparar os fundamentos brasileiros com os da Argentina e da Turquia", diz.

Ainda segundo Ribeiro, apesar de cenário tranquilizador no curto prazo, o país continua com problemas estruturais que podem favorecer cenários adversos no futuro. "A questão fiscal e a necessidade de reformas são um consenso entre economistas, mas não entre a sociedade. E também persiste a incapacidade crescimento sustentável da economia", concluiu.

Furar fila e comprar pirata são as corrupções do dia a dia do brasileiro

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Newsletter UOL

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos