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Por ecologia e falta de cemitério, empresa acelera decomposição de corpos

A tecnologia do cemitério ecológico está sendo usada no Cemitério da Comunidade Franciscana da Bahia - Divulgação/Villarce
A tecnologia do cemitério ecológico está sendo usada no Cemitério da Comunidade Franciscana da Bahia Imagem: Divulgação/Villarce

Natalia Gómez

Colaboração para o UOL, em Maringá (PR)

03/08/2018 04h00

Escolher entre um sepultamento tradicional e a cremação do corpo é um dilema comum para muitas pessoas, tanto na hora da morte de entes queridos, quanto no planejamento da sua própria partida. Embora essas duas alternativas sejam as mais conhecidas, existe uma outra destinação para corpos humanos, com a possibilidade de decomposição do corpo na metade do tempo. O serviço surgiu, entre outras razões, por falta de espaço e para proteger o ambiente.

Conhecida como cemitério ecológico, a tecnologia é usada por uma empresa de Jundiaí (58 km a noroeste de São Paulo) e foi adotada por três cemitérios, em Santo André (região metropolitana de São Paulo), Santa Cruz do Sul (RS) e Salvador (BA). Todos são cemitérios verticais, em que os corpos são colocados em lóculos (túmulos) organizados em andares de estruturas que se assemelham a prédios.

Diferença é o oxigênio

A principal inovação deste modelo de sepultamento é que o caixão é colocado dentro de um ambiente fechado com um sistema de ventilação que troca o ar quatro a cinco vezes por hora.

Desta forma, o processo de decomposição ocorre na presença de oxigênio, diferente do sepultamento subterrâneo. Junto com uma pressão negativa criada dentro dos lóculos, a presença do oxigênio permite uma evaporação mais rápida do líquido conhecido como necrochorume que é gerado com o passar da decomposição.

Os gases formados são tratados e soltos na atmosfera sem risco à saúde humana, afirmou o engenheiro criador da tecnologia, Péricles Valdir Ferrão. Enquanto a decomposição tradicional leva até dois anos, o cemitério ecológico permite a decomposição em um tempo de seis meses a oito meses.

No sepultamento tradicional, a ausência de oxigênio faz com que o necrochorume não evapore, enquanto os microorganismos que vivem no corpo humano encontram um ambiente ideal para crescer. “A decomposição tradicional não é natural, mas biológica, e no mínimo desumana”, afirmou.

Outro problema do método tradicional é o risco de contaminação dos lençóis freáticos em possíveis vazamentos, além da emissão de gases tóxicos para a atmosfera.

Resistência cultural

Cada unidade (chamada de lóculo) de um cemitério vertical pode custar de R$ 5.000 a R$ 10 mil, dependendo da sua localização. Depois de três anos, os restos mortais são exumados (retirados), liberando o lóculo para outra pessoa.

Apesar das vantagens, existe uma resistência cultural à nova tecnologia, segundo o empresário. “É uma alternativa pouco conhecida dos brasileiros, que aos poucos vai conquistando mercado”, afirmou. Segundo ele, o apelo ecológico e o ganho de espaço são as principais vantagens em relação ao sepultamento tradicional.

A empresa de Ferrão tem atualmente 20 projetos de cemitérios ecológicos em negociação, e esse setor ainda representa menos de 20% dos seus negócios. O mais importante é a sua atuação no ramo de gases refrigerantes para a indústria automotiva. “O negócio do cemitério está crescendo, mas é devagar porque o assunto é um tabu”, declarou.

Falta de espaço nos cemitérios

A tecnologia está sendo utilizada na revitalização de um cemitério de mais de 150 anos de idade em Salvador, pertencente à Comunidade Franciscana da Bahia.

Segundo Ricardo Rodrigues Vila-flor, sócio da Villarce, empresa responsável pelo projeto, as obras começaram há um ano e meio, substituindo os antigos jazigos por lóculos em estruturas de oito andares. Até o momento, já foram construídas 650 gavetas, e o objetivo é chegar a 1.800 gavetas até meados de 2019, após investimentos de R$ 5 milhões.

A falta de espaço em cemitérios de Salvador tem sido o grande atrativo do modelo vertical, além da ausência do risco de vazamentos para o solo. “Em Salvador, há pouca vaga, então acaba quebrando esse preconceito, principalmente para pessoas menos favorecidas e de classe média”, disse.

Segundo ele, quem pode gastar mais continua preferindo o sepultamento no solo, que tem um custo mais alto. No cemitério da Comunidade Franciscana, cada lóculo é alugado por R$ 2.600, e o contrato tem a duração de três anos.

Os próximos cemitérios ecológicos devem ser inaugurados em Conchas (179 km a noroeste de São Paulo) e Santarém (PA) ainda neste ano. Em Conchas, a prefeitura divulgou que o cemitério vertical foi uma alternativa encontrada para solucionar o problema de falta de espaço para a construção de túmulos no cemitério municipal.

Espaço para pet

Para 2020, está prevista a inauguração de um cemitério ecológico em Campina Grande do Sul, região metropolitana de Curitiba. A empresária Kasuco Akamine, vizinha da necrópole local, disse que doou uma área para a prefeitura expandir o cemitério há mais de uma década e depois recebeu uma proposta para vender outra parte da sua propriedade.

Na ocasião, ela optou por assumir os investimentos e construir seu próprio cemitério. “Gosto de desafios e decidi construir um cemitério que não tenha cara de cemitério, mas que seja como uma última morada”, declarou.

Segundo ela, a opção pela tecnologia de decomposição acelerada foi feita porque evita a contaminação dos lençóis freáticos. “Todos os cemitérios tradicionais estão condenados, é uma coisa inadmissível contaminar o subsolo”, afirmou.

A arquitetura do projeto vai acompanhar a topografia do local, que é marcada pela presença de um morro, e contará com uma centena de cerejeiras. Depois de sete anos lidando com a parte burocrática, a empresária disse acreditar que está perto de começar a construir.

Seu cemitério contará também com espaço para animais de estimação. Segundo ela, os pets foram incluídos no projeto porque muitas pessoas consideram os animais como parte da família.