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Empresa que dizia investir em bitcoins quebra; MP diz que pode ser fraude

Leonardo Araújo, fundador da DD Corporation - Reprodução
Leonardo Araújo, fundador da DD Corporation Imagem: Reprodução

Lucas Gabriel Marins

Colaboração para o UOL, em Curitiba

03/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Empresa prometia lucro de 11% por meio de suposto investimento em bitcoin
  • Desde dezembro, a DD Corporation não paga os investidores
  • MP abriu ação civil pública e pede R$ 5 milhões
  • Dono do negócio diz que empresa quebrou e culpa terceirizada
  • Especialista desaconselha investimentos em empresas que prometem lucro alto e fixo

Até novembro, o centro de convenções do Salvador Trade Center, um complexo empresarial da capital baiana, recebia pouco mais de 100 pessoas às terças-feiras à noite. Lá, havia palestras dos líderes da DD Corporation (antiga Dreams Digger), empresa que em seu antigo site afirmava vender cursos sobre o mercado financeiro

Nessas reuniões, o fundador do negócio, Leonardo Araújo, e seus colaboradores deixavam de lado a venda dos supostos ensinamentos sobre finanças e convenciam as pessoas a investir em bitcoins. A promessa era de lucro médio de 11% ao mês, segundo denúncia feita ao Ministério Público do Estado da Bahia.

Desde o final do ano, a DD Corporation não paga os investidores. Em janeiro, o MP ajuizou uma ação civil pública contra Araújo e a empresa. O órgão pede a suspensão do negócio, com o argumento de que "comprovadamente é insustentável, pois concede aos consumidores expectativas irreais de ganhos fáceis" e "assegura ganhos fraudulentos e inalcançáveis, gerando falsas expectativas e ocultando os riscos do empreendimento ilícito".

Não há estimativa de vítimas, mas o valor da causa é de R$ 5 milhões. A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) também investiga a DD, que nunca teve autorização da autarquia para ofertar contratos de investimento coletivo.

A reportagem não localizou nenhum advogado ou representante da empresa.

Como a empresa prometia lucros altos?

A empresa foi fundada por Araújo em janeiro de 2018. Os rendimentos altos, de acordo com os autos do processo aberto pelo MP, eram supostamente obtidos por meio de arbitragem, que é a compra e venda de criptomoedas em diferentes corretoras com o objetivo de fazer lucro.

Além de fazer investimentos, os clientes tinham que pagar uma taxa de adesão de US$ 10 (R$ 44,65) ao ano. A empresa também oferecia uma quantidade excessiva de bônus e gratificações por meio de marketing de rede, com comissões que poderiam chegar a 10%.

Essa prática de prometer uma "abundância de remunerações", segundo a ação do MP, "geralmente torna o esquema insustentável em longo prazo, similar às pirâmides financeiras".

Dono culpa empresa de tecnologia por quebra

No final do ano passado, Araújo disse que a empresa passaria por uma auditoria e retirou o site do ar. Depois, ele afirmou que a DD quebrou. "Não temos mais possibilidade financeira alguma, caixa algum, para poder devolver imediatamente todo aquele capital que você colocou no nosso negócio", falou, em um vídeo publicado no YouTube.

De acordo com o empresário, a empresa não teria mais capital por causa de supostos problemas na plataforma do negócio, que foi desenvolvida pela Graff Tecnologia, uma empresa com sede em Curitiba (PR).

"Eu errei sim, mas em acreditar e terceirizar nosso sistema de multinível. Errei em apostar a vida de diversas famílias na empresa Graff, mas eles erraram muito mais em falhar conosco", disse o empresário. Segundo ele, a suposta falha permitiu que saques, rendimentos e depósitos pudessem ser duplicados e até triplicados.

Terceirizada nega problemas

Em nota, a Graff informou que a acusação de Araújo mancha a "índole, imagem e trabalho sério" da empresa e "tem por objetivo apenas projetar sobre a Graff todo e qualquer tipo de culpa" da DD Corporation. A empresa disse também que ações judiciais cabíveis estão sendo tomadas no âmbito cível e criminal.

A Graff informou ainda que tem provas que mostram o real motivo da saída da DD Corporation do mercado, mas não pode enviar para terceiros "sem uma autorização judicial para a quebra deste sigilo contratual".

Meu dinheiro vem da roça, diz um dos investidores

O advogado Victor Silva Menezes, 29, conheceu a DD Corporation no início do ano passado por intermédio de um amigo. "No início não investi, pois sabia que havia um processo aberto na CVM, mas esse meu amigo me enviou um comprovante dizendo que a investigação havia sido finalizada, então resolvi colocar R$ 2.200", disse ao UOL.

Menezes nunca conseguiu reaver o dinheiro. Assim como ele, outros investidores também perderam recursos, conforme mostram os quase 200 relatos feitos na plataforma Reclame Aqui contra a empresa.

"Confiei no Leonardo Araújo, pois em seus vídeos parecia ser algo muito correto e seguro. Resolvi investir mais de R$ 50 mil e agora nem se quer resposta da auditoria recebi. Meu dinheiro é suado e vem da roça e da agricultura. Trabalho dia a dia no sol quente e sem conforto. Você tem ideia de o que é isso?", disse uma das vítimas.

MP diz que associação deu selo à empresa

A ação do MP levanta suspeitas sobre a Abranetwork, uma associação de empresas de marketing multinível, que teria dado selo de garantia para a empresa.

Segundo o MP, isso ajudou a "propagar graves mentiras que impactam indiretamente na falsa legitimidade criada em favor da parte ré".

No site da Abranetwork, além da empresa de Araújo, há nomes de outras companhias que supostamente trabalhavam com criptomoedas e estão com problemas na Justiça, como a 18k Ronaldinho e a Binary Bit. Essas duas últimas, segundo o site da associação, tiveram as "adesões suspensas" depois dos problemas enfrentados.

Associação nega irregularidades

Em nota, a associação informou que "não concedeu qualquer selo de qualidade a nenhuma empresa até o momento" e que a DD era apenas filiada à Abranetwork. Informou ainda que MP da Bahia, por não ter o certificado em mãos, teria feito uma afirmação equivocada.

A Abranetwork disse ainda que não é órgão público e não tem atribuições legais nem poder fiscal. Informou ainda que ajuda a combater pirâmides e mantém uma lista com os nomes das existentes no Brasil. A própria associação, no entanto, já foi denunciada para a CVM justamente por supostamente recomendar empresas fraudulentas.

Não invista em promessas de lucros altos e fixos

O especialista Fabrizio Gueratto, dono de um canal sobre educação financeira no YouTube, disse que a pessoa que quer investir em bitcoins deve fugir de qualquer negócio que prometa lucros fixos, como é o caso da DD. "É matematicamente impossível garantir rendimento em um mercado de ganhos variáveis".

Gueratto ainda que a melhor forma de investir no segmento é estudar bastante o mercado e entender os riscos, que são altos. Além disso, é preciso buscar grandes corretoras de criptomoedas e, depois de fazer qualquer tipo de compra de criptoativos, o ideal é guardá-los em carteiras digitais próprias (wallets).

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