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Pior da crise passou, mas desindustrialização não, diz economista da CNI

Renato da Fonseca, superintendente de economia e economista-chefe da CNI (Confederação Nacional da Indústria) - Iano Andrade/CNI
Renato da Fonseca, superintendente de economia e economista-chefe da CNI (Confederação Nacional da Indústria) Imagem: Iano Andrade/CNI

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

20/06/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Superintendente de economia da CNI diz que setor continua perdendo espaço no PIB do país
  • Oferta de mão de obra qualificada para indústria 4.0 é maior desafio do setor, diz Renato da Fonseca
  • Educação, reforma tributária e concessões de infraestrutura são prioritários para indústria recuperar competitividade, diz economista da CNI

A produção e o emprego na indústria estão melhorando, mas o setor ainda sofre. Quem faz esse diagnóstico é o superintendente de economia e economista-chefe da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Renato da Fonseca, responsável pela avaliação e formulação de propostas de políticas econômicas da principal entidade industrial do país. Segundo ele, a indústria continua enfrentando problemas que vêm reduzindo o tamanho da atividade no PIB (Produto Interno Bruto) há mais de uma década.

Segundo a Sondagem Industrial realizada pela CNI com 1.951 empresas, o índice de produção na primeira quinzena de junho ficou em 52,8 pontos. Qualquer número acima de 50 pontos representa crescimento. Esse índice agora está 9,7 pontos acima de maio de 2020. Segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), no ano, até abril, a indústria acumula abertura de 247 mil vagas de emprego.

Uma coisa é superar o pior momento da crise e podermos voltar à situação do pré-crise O problema é que no pré-crise, a indústria brasileira já não conseguia competir com o restante do mundo. A indústria brasileira de transformação, que já foi uma das dez maiores do mundo, é hoje a 16ª. E a crise pode ter acelerado algumas decisões, como a de algumas indústrias que deixaram o Brasil.
Renato da Fonseca

Em entrevista ao UOL, Fonseca afirma que o Brasil segue sofrendo pela desindustrialização. Segundo ele, enquanto a economia medida pelo PIB cresceu de 0,1% a 0,3% ao ano ao longo da última década, a indústria caiu anualmente 1,6%.

Fonseca diz que a falta de profissionais qualificados para a chamada indústria 4.0, a indústria digital, é um dos principais obstáculos do setor e que isso passa por mais investimento do país em educação.

Ele rebate a tese de que o emprego do futuro na indústria será majoritariamente de contratos intermitentes ou de terceirizados.

A flexibilidade dos contratos de trabalho pode até ganhar espaço, mas algumas condições não devem mudar. Isso porque a capacitação do trabalhador também depende do interesse dele em se capacitar. E isso passa por uma relação de longo prazo entre o profissional e a empresa.
Renato da Fonseca

Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

UOL: Alguns setores estão crescendo mesmo em meio à pandemia -como embalagens, logística, tecnologia. Esse movimento pode ser estrutural e continuará ocorrendo?

Renato da Fonseca: Dentro da indústria, alguns setores foram bem durante a crise porque o consumo não caiu, como o setor de não duráveis -alimentos, higiene, limpeza, farmacêuticos e embalagens.

Também os setores ligados à exportação, como o de minérios e agropecuário passaram pela crise de forma suave porque a demanda internacional voltou mais rapidamente, com a Ásia saindo da pandemia mais rapidamente.

Mas ainda é muito pouco para avaliar que teremos uma mudança estrutural. Se a gente olhar o volume de compras online, ainda é muito baixo.

Vai ter um ganho, mas isso é uma mudança que já vinha acontecendo, da digitalização, e a crise acelerou esse processo.

Há alguns impactos em algumas estruturas, como o de aluguéis para empresas. Vai ter impacto duradouro em alguns segmentos, como hotelaria de negócios, escritórios. Mas a maioria da indústria não.

Também há setores perdendo espaço na indústria. Durante a pandemia, vimos decisões de algumas indústrias de deixarem o Brasil. Setores de bens de consumo duráveis e semiduráveis sofreram mais.

Na crise, a gente não precisa de carro novo, eletrodomésticos novos, roupa nova. Após a queda do primeiro semestre de 2020, a indústria se recuperou no segundo semestre do ano.

Mas, na retomada, a falta de insumos e de estoques, associada ao encarecimento das matérias-primas atingiu as margens da indústria.

Nesse movimento, podemos ver uma efetiva rotação de participação na indústria brasileira?

Na verdade, temos um movimento de enxugamento da indústria. Nos últimos dez anos, a indústria caiu 1,6% ao ano em média.

Enquanto a economia cresceu de 0,1% a 0,3% ao ano, quase nada, a indústria caiu, 1,6%. A agropecuária cresceu 3,5% ao ano em média neste período.

Quais são os principais motivos disso?

Resumimos nossos problemas nesse termo chamado custo Brasil, que inclui dez temas, de educação à reforma tributária.

Uma coisa é superar o pior momento da crise e podermos voltar à situação do pré-crise. O problema é que no pré-crise, a indústria brasileira já não conseguia competir com o restante do mundo.

A indústria brasileira de transformação, que já foi uma das dez maiores do mundo, é hoje a 16ª. A crise pode ter acelerado algumas decisões, como a de algumas indústrias que deixaram o Brasil, como a Ford e a Sony.

Se esses problemas não forem atacados, vamos continuar tendo redução estrutural do emprego na indústria?

Se esses problemas não forem atacados, a redução da indústria vai continuar acontecendo. No mundo, é verdade que a indústria está perdendo espaço ante o setor de serviços.

Mas a indústria é importante porque é o setor que puxa o restante. Para ter todos os serviços relacionados ao celular, por exemplo, é preciso ter o aparelho de celular.

Eu até posso importar, mas deixo de criar empregos industriais, o que é mais grave no nosso caso porque o Brasil tem um grande mercado interno e muitos empregos para gerar.

Para ganhar competitividade, qual deverá ser o emprego que vai ganhar espaço na indústria?

Mão de obra qualificada. A grande questão é o nosso problema da educação. Cada vez que aumentamos a digitalização, precisamos de um profissional mais qualificado.

A grande dificuldade é educação básica ruim. Você não consegue ensinar pessoas que não têm educação básica porque esse trabalhador tem dificuldade para ser mais criativo, para se desenvolver.

O trabalhador precisa estar adaptado à indústria 4.0. E, se ele não teve qualificação, tem mais dificuldade para aprender e para se adaptar. E acaba desistindo.

Como serão esses contratos de trabalho? Houve um aumento dos contratos intermitentes ou da terceirização na indústria? Pode continuar?

A flexibilidade dos contratos de trabalho pode até ganhar espaço, mas algumas condições não devem mudar. Isso porque a capacitação do trabalhador também depende do interesse dele em se capacitar.

E isso passa por uma relação de longo prazo entre o profissional e a empresa. Para uma empresa investir na capacitação de um trabalhador, ela precisa que esse profissional tenha motivações para seguir nela.

Além da questão da educação, a legislação no Brasil também não incentiva o aumento de produtividade, da meritocracia.

A legislação estimula a igualdade em situações desiguais. Pela lei, a pessoa no mesmo cargo precisa ter o mesmo salário. Isso desestimula a premiação aos que são mais produtivos.

Temos uma desindustrialização?

Sim, hoje é claro que estamos em um processo de desindustrialização dos países, seja pela participação no PIB, seja pela redução de setores que têm maior poder para puxar a economia.

Desde 1995 já mostramos quais são os principais motivos do custo Brasil. Melhoramos alguns pontos, mas pouco e menos que outros países. Estamos numa corrida, então não basta melhorarmos, temos que ir mais rápido que outros.

Entre as mudanças, a reforma tributária é uma delas. A gente tenta fazer essa reforma há 30 anos. É verdade que ela nunca chegou tão próxima como agora.

Também são fundamentais as regras do setor de infraestrutura para concessões de aeroportos, transportes, saneamento, para atrair investimentos.

Precisamos melhorar nossa logística porque para competir no mundo, precisamos entregar nossos produtos nas datas combinadas.

E a indústria não pode ter problemas porque a carga ficou parada na fila do porto antes de embarcar no navio. E precisamos desburocratizar as regras de comércio exterior, para facilitar as vendas e importações.

Se houver uma redução da indústria no PIB do país em termos relativos, qual o efeito disso para o país?

Um país com uma indústria menor costuma ter um percentual de pobreza maior porque o país não consegue crescer.

Se não há uma indústria dinâmica, competindo e gerando novas oportunidades, não há desenvolvimento nem aumento de emprego e de renda. Sem indústria, há mais empregos, mas serão empregos não qualificados.