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Frio e seca destroem plantações de café e preocupam produtores de cana

Geada em lavoura no Paraná - Divulgação/seagri/PR
Geada em lavoura no Paraná Imagem: Divulgação/seagri/PR

Viviane Taguchi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

26/07/2021 16h06

As lavouras de café, milho e cana-de-açúcar foram as mais prejudicadas pelas baixas temperaturas e geadas que atingiram a região Centro-Sul nos últimos dias. E, acreditam os meteorologistas, a situação ainda vai piorar durante nesta semana, com a chegada de uma nova frente fria que promete ser "o maior frio da história do Brasil".

Especialistas apontam que a ocorrência de geadas, somadas às perdas acumuladas pela estiagem, podem representar um dos maiores desastres agrícolas dos últimos anos, com prejuízos que devem chegar à casa dos bilhões.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) está realizando o levantamento de perdas através dos técnicos de campo da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e vai divulgar, nos próximos dias, uma prévia. A Ministra Tereza Cristina sobrevoou na última sexta-feira (23) as principais áreas agrícolas atingidas pelas geadas, na região de Minas Gerais e anunciou um plano de ajuda aos produtores de café, a cultura mais afetada até agora.

"Quando eu recebi os relatos da geada do dia 20 de julho, fiquei muito preocupada. Eu sei o esforço que é para produzir e a frustração de perder a plantação em um ano com boas previsões de valores. Vamos achar soluções em conjunto, que não será única", disse.

Segundo a ministra, como a geada atingiu pontos diferentes no estado, os técnicos da pasta vão trabalhar em parceria com produtores rurais e cooperativas para ajudar os produtores que tiveram prejuízos. A maior parte das plantações atingidas eram áreas novas, em início de produção e o café produzido por essas plantas, seria colhido na safra 2022.

Lavouras de café dizimadas

Cafeeiro queimado após geada - Divulgação/epamig - Divulgação/epamig
Cafeeiro queimado após geada
Imagem: Divulgação/epamig

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mais de 300 municípios produtores de café foram atingidos pelas geadas só na semana passada, em torno de 860 mil hectares, o que representa entre 8% e 11% da produção total de café arábica do Brasil. Segundo o Monitoramento de Geadas da estatal, somente no dia 20 de julho, 200 mil hectares plantados com café arábica foram atingidos e destruídos pelo frio intenso. No fim de semana, 76 cidades mineiras sofreram com as geadas.

A Federação de Agricultura de Minas Gerais (Faemg) divulgou que a região mais atingida foi o Sul do estado, onde os prejuízos foram descritos como "os piores em 27 anos" e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) estima que 30% da área pode ter sido prejudicada por geadas e também, por queimadas.

César Botelho, pesquisador da Epamig, disse que os prejuízos afetarão a produção nos próximos anos. "Cada região está quantificando os estragos nas lavouras, mas são danos que vão comprometer não somente a safra atual ou a do ano que vem, mas como muitas lavouras eram novas, isso vai influenciar as produções de 2023 e 2024", disse.

Na região de Franca (SP), as geadas também atingiram as lavouras que produziriam café para a safra 2022. Marcelo Jordão, pesquisador da Fundação Pró-Café disse que a região da Alta Mogiana, uma das mais importantes do estado para a produção de café foram afetadas, em diferentes níveis. "Lavouras localizadas em regiões mais baixas foram as mais atingidas, enquanto as que estão nas regiões mais altas das propriedades foram danificadas com intensidade média e leve", afirmou.

Menos milho em MS

As lavouras de milho, principalmente em Mato Grosso do Sul, também sofrem com o frio intenso. A Conab já aponta que a segunda safra 2020/2021, que está sendo finalizada no país, deve ter uma queda de até 30% na produtividade em função dos problemas climáticos. Essa estimativa, porém, não levou em conta os prejuízos causados às lavouras no último fim de semana.

Os técnicos da estatal estão, nesta semana, em campo realizando um levantamento para avaliar os prejuízos provocados pelo clima. Segundo nota enviada à imprensa nesta segunda-feira (26), houve geada em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Goiás que atingiram lavouras de milho de segunda safra. Segundo os técnicos, em Mato Grosso do Sul as perdas são estimadas em 30%, no Paraná, 22%, em Goiás, 20% e em Mato Grosso, maior estado produtor, a estimativa é de queda de 1% na safra.

Na semana passada, na estação meteorológica de General Carneiro (PR), a temperatura caiu 7,9°C e em Mato Grosso do Sul, foram registradas temperaturas próximas de 0°C em vários pontos. As consultorias de análise de mercado apontam que vai faltar milho no mercado interno no segundo semestre e importações serão necessária para custear a cadeia produtiva.

Interior de São Paulo tem o pior frio das últimas duas décadas

No interior paulista, as culturas que mais sofreram com os efeitos das geadas, segundo a Conab, foram as lavouras de cana-de-açúcar. Na região de Ribeirão Preto (SP), foi registrado o frio mais intenso em duas décadas na semana passada, com temperatura de 5º C, segundo dados do Centro Integrado de Informações Meteorológicas (Ciiagro).

O setor sucroenergético também já vinha acumulando perdas devido à estiagem desde o ano passado e, segundo o Ciiagro, a sequencia de massas de ar polar com geada forte a severa, na semana passada, agravou ainda mais a situação. A Conab estima a safra 2021/2022 de cana em 574,8 milhões de toneladas, 4,6% menor que a safra anterior.

Na região de Ribeirão Preto, a Associação dos Plantadores de Cana do Oeste de São Paulo está mapeando as lavouras da região para quantificar os prejuízos do fim de semana. O agrônomo da instituição, André Volpe, explicou que as baixas temperaturas congelam e matam a planta por dentro, afetando a sua gema apical, que é a responsável pelo crescimento da planta. "Dependendo da intensidade da geada e do dano na gema apical, a planta pode morrer ou começa a deteriorar de cima para baixo", afirmou.

Para as usinas, a alternativa para escapar das próximas geadas é antecipar a colheita. Isso, porém, implicaria em matéria-prima com baixo teor de sacarose e menor valor no mercado.

Maior frio da história pode causar ainda mais prejuízos

O maior frio da história do Brasil pode causar ainda mais prejuízos para a agricultura a partir do dia 28 de julho, segundo previsões da Rural Clima. De acordo com o agrometeorologista Marco Antonio dos Santos, as chuvas que estão concentradas nas regiões central e leste do Rio Grande do Sul deve avançar para o país nos próximos dias, fazendo com que, em algumas regiões, as temperaturas cheguem a -15° C (Norte do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, metade sul do Paraná e na divisa com o Paraguai).

Segundo ele, entre a noite de terça-feira (27) e quarta-feira (28), a massa de ar frio avançará para o Atlântico, e pode chover em áreas de lavouras do Paraná, Sul e Leste de São Paulo, no extremo sul de Minas Gerais e em partes do Rio de Janeiro, onde há produções de orgânicos.

E, de acordo com Santos, a frente fria passe rapidamente por São Paulo e mantenha o tempo aberto, há possibilidade de ocorrência de geadas, como na semana passada. "A expectativa é de que a frente fria passe por São Paulo na quarta-feira e o tempo abra, sem que haja novas chuvas, com um declínio da temperatura", declarou.

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