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Agrônomas comandam empresa de milho e soja que só tem mulheres na equipe

Viviane Taguchi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

27/07/2021 15h41

Um grupo que já atua na venda e no melhoramento genético de sementes de soja e milho anunciou nesta terça-feira (27), em Goiânia (GO), a criação de uma nova empresa do ramo formada apenas por mulheres. A companhia ganhou o nome de Ellas Genética e já anunciou que, para a próxima safra (2021/2022), vai lançar quatro variedades de soja melhoradas - todas com nomes femininos - em escala comercial para serem semeadas na região do Cerrado. A ideia surgiu para valorizar e incentivar a atuação das mulheres no agronegócio.

Na linha de frente da Ellas, estarão quatro pesquisadoras que são engenheiras agrônomas e atuam em diferentes regiões do país, que comandarão times de outras mulheres com foco em pesquisa, marketing e desenvolvimento de mercado.

"A atuação das mulheres tem sido fundamental para o desenvolvimento do setor agrícola no Brasil. Por isso, o objetivo é que elas se sintam reconhecidas, respeitadas e homenageadas", disse o diretor da SeedCorp, companhia criadora da empresa, Daniel Glat. "Acreditamos que somos um reflexo da sociedade e que nossas ações e projetos devem estar alinhados com o propósito de contribuir para ambientes diversos e inclusivos",

A engenheira agrônoma que atua na melhoria da soja, Micheli Possobom, vai comandar a estação de melhoramento genético da Ellas em Sertanópolis, no interior do Paraná. De acordo com ela, na próxima safra a nova companhia vai lançar as sementes chamadas Eliza, Suzi, Lynda e Luiza. Essas sementes são oriundas do banco de germoplasma da empresa e foram melhoradas para aumentar a produtividade e a tolerância a doenças e nematoides (vermes que habitam os solos e parasitam as plantas).

O processo de fabricação e venda das sementes só não será 100% feminino no início porque, para entrar no mercado, vai adotar o modelo de parcerias de licenciamento para vendas. "Neste primeiro momento, vamos licenciar a nossa genética para outras empresas parceiras, que vão multiplicar as sementes e vender com suas marcas próprias", afirmou.

"Tenho muito orgulho em fazer parte de uma empresa que se preocupa verdadeiramente com o espaço que a mulher ocupa na sociedade, contribuindo para que sejamos reconhecidas e exerçamos, cada vez mais, papel protagonista no agronegócio", declara Micheli.

De acordo com Possobom, a companhia prevê que, em cinco anos, a comercialização de suas sementes atinja a marca de 800 mil sacos de 200 mil sementes. Se essa meta for atingida, a Ellas e a SeedCorp passarão a deter 15% do mercado de sementes na América do Sul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai).

Mulheres ganham destaque no agronegócio

A engenheira agrônoma que atua na melhoria da soja, Micheli Possobom, vai comandar a estação de melhoramento genético da Ellas em Sertanópolis, no interior do Paraná - Divulgação - Divulgação
A engenheira agrônoma que atua na melhoria da soja, Micheli Possobom, vai comandar a estação de melhoramento genético da Ellas em Sertanópolis, no interior do Paraná
Imagem: Divulgação

Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) apontou que as mulheres que atuam no agronegócio são responsáveis pela gestão de 30% dos empreendimentos do segmento, índice acima do registrado na indústria (22%) e na área de tecnologia (20%). De acordo com a Abag, as mulheres do setor são responsáveis pelo movimento de cerca de US$ 165 bilhões no mercado, o que representa 8% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

Segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), a participação feminina no setor cresceu consideravelmente entre os anos de 2004 e 2015, passando de 24,1% para 28%, enquanto a participação dos homens no agro caiu 11,6%.

Em 2017, o Censo Agropecuário pesquisou pela primeira vez o compartilhamento de direção em fazendas no Brasil e foram computadas 1.029.640 propriedades onde o casal dividia o comando do negócio, somando 817 mil mulheres, mas em 2021, segundo o programa Agro Mais Mulher, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o país tem 947 mil propriedades rurais, cerca de 30 milhões de hectares, comandadas por mulheres: 57% na região Nordeste, 14% no Sudeste, 11% no Sul e 6% no Centro-Oeste.

No ano passado, a multinacional Bayer anunciou a agrônoma brasileira Malu Nachreiner como a primeira presidente mulher da companhia, a Associação das Indústrias e Processadoras de Cacau anunciou Anna Paula Losi como diretora executiva e, na mesma época, o Instituto de tecnologia de alimentos (Ital) também anunciou que uma mulher, a pesquisadora Eloísa Garcia, iria comandar, pela primeira vez na história, o instituto.

O Ital está sob a gestão da Agência Paulista de Tecnologia Agropecuária (Apta), que tem 48% de funcionárias mulheres e 53% de pesquisadoras-chefes.

No setor, também se destacam grupos de atuação de mulheres em Mato Grosso, como o Agroligadas, e o Instituto Farmun, voltado para educação de jovens do campo, comandado pelas herdeiras do maior grupo produtor de commodities do mundo, o Bom Futuro.

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Errata: o texto foi atualizado
A pesquisadora Eloísa Garcia é do Instituto de tecnologia de alimentos (Ital), e não do Instituto Agronômico de Campinas, como dito anteriormente. A matéria foi corrigida.