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Abílio Diniz faz relato de sequestro em 1989: 'Tinha certeza que morreria'

Abílio Diniz em entrevista ao podcast Flow; empresário disse que tinha certeza que morreria durante sequestro - Reprodução/Flow/Youtube
Abílio Diniz em entrevista ao podcast Flow; empresário disse que tinha certeza que morreria durante sequestro Imagem: Reprodução/Flow/Youtube

Do UOL, em São Paulo

24/09/2021 12h13

O empresário Abílio Diniz contou, em entrevista ao podcast Flow, detalhes de seu sequestro em dezembro de 1989 e disse que tinha certeza que iria morrer ao ser levado ao cativeiro que permaneceu por seis dias em São Paulo.

O ex-dono do Pão de Açúcar descreveu o local em que ficou a maior parte do período como um sufocante e avaliava que não conseguiria sobreviver por muito tempo.

"Me colocaram nessa casa do Jabaquara [bairro de São Paulo] e tinha um buraco nesta casa, tipo um porão, e uma escadinha. E dentro deste porão eles construíram uma caixa, um caixote grande, e levaram para baixo, e me puseram dentro do caixote", contou.

Segundo ele, o artefato era "bem feito" e tinha uma fechadura por fora. "Fizeram um buraco em cima, puseram um cano e um ventilador do lado de fora. Esse era o ar que tinha lá fora."

Abílio Diniz ainda contou que não conseguia ficar totalmente de pé e se esforçava para pegar mais ar. "Tinha certeza que iria morrer, já sentia de cara. Para poder respirar melhor eu tinha que me levantar — não dava para ficar em pé -, encostar o nariz lá no cano e puxar o ar", afirmou.

O ambiente inóspito ainda tinha um dispositivo de luz e de som que aumentavam a sensação de desconforto. "Puseram um controle de luz, às vezes deixavam tudo escuro, às vezes mais claro, às vezes tudo claro. E música alta", disse Diniz. "Era para me deixar meio enlouquecido", disse.

A agonia do empresário aumentava com um histórico recente de um amigo que também havia sido sequestrado e ficado 63 dias em um cativeiro menos sufocante, em uma espécie de barraca ao ar livre. Ele ainda disse que não enxergava possibilidade de fuga, uma vez que os sequestradores eram cuidadosos.

"[Pensava] que eu não iria aguentar ficar 63 dias [como seu amigo ficou], não sabia o que ia acontecer naquela altura. [Pensava] 'Vou morrer, mas não sei como'. Se ia atacar o cara que entra aqui para falar comigo, se ia morrer de inanição. Não sabia o que iria acontecer, disse.

Abílio Diniz também via chance reduzida de alguém pagar o resgate, o que diminuía a sua esperança. Os sequestradores pediam US$ 30 milhões para libertá-los.

Reviravolta

Enquanto estava no cativeiro, a polícia avançou na investigação e chegou ao grupo depois de encontrar um cartão de uma oficina em um dos veículos utilizados no momento do sequestro.

A descoberta fez com que a polícia chegasse ao chefe do grupo, que não estava no local do cativeiro.

"Tinham seis comigo na casa e quatro no apartamento, inclusive o líder. Convenceram o líder a levá-los [os policiais] até a casa do cativeiro, mas quando chegou nela ele disse que se entrasse sozinho, iriam me matar, porque eles tinham ordem de matar se acontecesse qualquer coisa", disse.

"E deixaram o cara entrar. Ele entrou e correu para dentro da casa, se trancou, chamou a turma, me tirou do buraco e me fez de escudo", disse.

A atitude do líder deu início a um cerco de 36 horas na casa, mas que em um aspecto levou um alívio momentâneo a Abílio Diniz. "Quando me levaram para cima, o máximo que podia acontecer era levar tiro. [Pensei] 'Sei como vou morrer, sei como vai ser'", disse. Ele chegou a ser amarrado com arame no período.

Diniz foi finalmente libertado na tarde de domingo, completando mais de seis dias em poder dos sequestradores. Participaram do crime cinco chilenos, dois argentinos, dois canadenses e um brasileiro, todos membros do MIR, que lutou no Chile contra a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Traumas e impacto na vida

No começo de seu relato, Diniz contou que já tinha bastante visibilidade, mas ainda ela não era tão grande como nos anos seguintes com o crescimento do Grupo Pão de Açúcar. Assim, fez a opção de contratar seguranças apenas para seus pais e filhos.

"Eu [pensava] não preciso, vou economizar esse dinheiro Quem vai se meter comigo? Era um p.. de um encrenca do jeito que era, brigava bem, atirava bem. [Pensava que] ninguém iria se meter comigo", disse.

No dia do sequestro, Diniz ia para o seu escritório quando percebeu uma ambulância atravessada na rua. "Peguei a arma do meu lado da perna, e botei os dois caras na mira que estavam na ambulância. Daí vamos ver quem vai piscar primeiro", disse.

"Só que eles eram absolutamente profissionais, eram ex-guerrilheiros. Vieram com o carro por trás e bateram no meu. Naquilo desconcentrei e entrou um cara de cada lado da porta, tomaram a arma e fomos para o chão. Rolamos para c..., mas no fim estavam em 10 e me levaram para uma kombi antes de irem para o cativeiro", lembrou.

Neste sentido, Diniz acredita que o momento mais difícil de sua vida também deixou ensinamentos depois de conseguir controlar o trauma.

"Eu saí [do cativeiro] e de início estava bem tranquilo. Depois de 20 dias começou a bater um negócio meio complicado, comecei a escutar uns barulhos estranhos. E procurei uma terapeuta para cuidar um pouco da cabeça. E foi bom, hoje falo disso com maior tranquilidade, sem maiores problemas", disse.

"Foi traumático. A gente na vida cresce mais no sofrimento e na tristeza do que na alegria. Quando você passa por isso, você cresce ou perece, ou afunda ou cresce. Eu acho que saí maior. Esse alívio que vocês veem hoje, não foi sempre assim, teve épocas que nem eu gostava de mim", completou.

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