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Com fim do isolamento, férias ficam mais caras; passagem aérea dispara 57%

"Inflação das férias" já atinge passagens aéreas, pacotes turísticos e aluguel de veículos  - Chalabala/iStock
"Inflação das férias" já atinge passagens aéreas, pacotes turísticos e aluguel de veículos Imagem: Chalabala/iStock

Fabrício de Castro

Do UOL, em Brasília

20/10/2021 04h00

O fim do isolamento social no Brasil, com o avanço da vacinação contra covid-19, promete movimentar o setor de turismo nos próximos meses. A má notícia é que, com o aumento da procura por viagens e dos custos das empresas, os brasileiros já estão pagando mais caro por passagens aéreas, hospedagem, pacotes turísticos e aluguel de veículos. Os bilhetes de avião dispararam 57% em um ano. O preço de hospedagem teve aumento bem menor no período: 2,65%.

Economistas ouvidos pelo UOL afirmam que reajustes nos serviços ligados às viagens de férias vão continuar nos próximos meses.

Principais custos

Veja quanto subiram os gastos de uma viagem de férias em setembro deste ano em relação a agosto e em comparação com setembro do ano passado:

  • Passagem aérea: 28,19% (em um mês), 56,81% (em um ano)
  • Aluguel de veículo: 1,72% (em um mês), 26,32% (em um ano)
  • Pacote turístico: 5,21% (em um mês), 14,16% (em um ano)
  • Hospedagem: 1,32% (em um mês), 2,65% (em um ano)
  • Alimentação fora de casa: 0,59% (em um mês), 7,38% (em um ano)
  • Transporte por aplicativo: 9,18% (em um mês), 14,08% (em um ano)

A inflação pelo IPCA em setembro foi de 1,16%. No acumulado de 12 meses, foi de 10,25%.

Quais as razões da alta?

A alta de preços nestes serviços ocorre por dois motivos principais. Em primeiro lugar, com o avanço da vacinação no Brasil, as famílias estão se sentido mais seguras para viajar durante as férias.

Com a demanda maior, companhias aéreas, empresas de turismo e de aluguel de veículos encontram mais espaço para reajustar preços e recompor receitas, após terem sofrido em 2020 durante a fase mais dura do isolamento social.

Como as pessoas foram impedidas de circular, criou-se uma demanda reprimida. E algumas famílias fizeram uma poupança forçada. Agora, há espaço para reajuste pelas empresas, justamente porque essas famílias têm recursos e querem viajar
Fábio Romão, economista da LCA Consultores

O aumento da busca por passagens aéreas, hotéis e carros representa uma repetição no Brasil de fenômeno já visto nos EUA. Com o avanço da vacinação, os norte-americanos também passaram a viajar mais. Houve maior demanda por serviços como aluguel de carros e hotéis, com reflexos sobre os preços.

No início de junho, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, já alertava que o Brasil poderia enfrentar uma "euforia do consumo" no segundo semestre, semelhante à dos EUA.

Custo das empresas também subiu

O segundo fator que tem encarecido as viagens de férias é o aumento do custo das empresas. O economista Otto Nogami, professor do Insper em São Paulo, cita os reajustes nos preços de combustíveis e energia elétrica, que recaem sobre companhias aéreas e empresas de hospedagem.

De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), o preço do querosene de aviação (QAV) subiu 91,7% no segundo trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado.

Houve um aumento grande do querosene de aviação. Como as companhias consideram isso uma despesa variável, elas precisam reajustar. O custo das aeronaves também subiu. Há escassez de peças, o que provoca aumento nos bens intermediários
Otto Nogami, professor do Insper

Na área de hospedagem, os preços da energia têm impactado as tarifas. Em meio ao agravamento da crise de água, a energia elétrica teve alta média de 6,47% apenas em setembro. No acumulado de 2021, ela já está 17,76% mais cara.

Professor espera Black Friday para o Carnaval

Dilermando Martins busca passagens aéreas em promoção para fugir dos preços altos - Divulgação - Divulgação
Dilermando Martins busca passagens aéreas em promoção para fugir dos preços altos
Imagem: Divulgação

Esse cenário de preços mais altos tem preocupado o professor universitário Dilermando Aparecido Borges Martins, de Ponta Grossa (PR). Ele e quatro amigos planejam passar o Carnaval de 2022 no Rio de Janeiro, mas as passagens aéreas de Curitiba para a capital fluminense ainda não foram compradas.

O grupo montou uma espécie de "força tarefa" para monitorar os sites das companhias aéreas em busca de descontos. Por enquanto, o valor mais acessível encontrado gira em torno de R$ 650 -segundo Martins, bem acima do que era cobrado meses atrás. "Faz uma semana que monitoramos e a cada dia que passa o valor sobe R$ 15 ou R$ 20", diz.

A expectativa dos amigos é de que durante a Black Friday no Brasil, marcada para 26 de novembro, os preços das passagens diminuam. "Minha esperança é que venha uma promoção relâmpago. Em última hipótese, poderia fazer a viagem de ônibus. Mas são 18 horas. Não descarto desistir se não conseguirmos passagens em conta."

Vale a pena esperar?

O problema é que nada garante que passagens aéreas ou pacotes de viagens ficarão mais baratos nos próximos meses. O economista Fábio Romão, da LCA Consultores, projeta que, após terem subido 28,19% em setembro, as passagens aéreas aumentarão mais 30% em outubro.

Para novembro, ele calcula um recuo de 6%, corrigindo em parte o forte avanço dos dois meses anteriores. Mas a alta esperada para dezembro é de 25%. Em todo o ano de 2022, a projeção é de aumento de 23%.

A recomendação é que a pessoa feche os pacotes o quanto antes. Até porque há aumento de custos pelo lado da demanda [clientes], mas também da oferta [empresas].
Fábio Romão, economista da LCA Consultores

Os economistas ouvidos pelo UOL dizem que, durante a fase mais crítica da pandemia, milhares de bares e restaurantes fecharam as portas em todo o país.

Nesse cenário, é possível que os turistas encontrem menos estabelecimentos abertos em várias cidades durante as férias. Com a concorrência menor, a tendência também é de preços mais elevados.

Somente em setembro, o custo da alimentação fora do domicílio subiu 0,59%. Neste ano, a alta acumulada já está em 5,57%.

A inflação também já está atingindo outros serviços utilizados por turistas. No mês passado, com os aumentos recentes da gasolina, o preço do transporte por aplicativos ficou 9,18% mais caro para o consumidor final.

Em julho e agosto, esse item já havia subido 9,31% e 3,06%, respectivamente.

Viagem cara para a Bahia

Jessica das Neves pagou caro em Salvador por transporte por aplicativo - Divulgação - Divulgação
Jessica das Neves pagou caro em Salvador por transporte por aplicativo
Imagem: Divulgação

A geógrafa Jessica Gislaine das Neves, de Curitiba (PR), sentiu o peso da inflação em sua viagem mais recente, feita com o namorado para Salvador (BA) em setembro.

Segundo ela, os preços da hospedagem em um apartamento alugado por meio do site Airbnb surpreenderam, assim como o gasto com transporte na cidade.

"Levamos um susto no deslocamento para outros lugares. Fomos para a região do Pelourinho, por exemplo, mas achamos que não compensou. O transporte por aplicativo lá está mais caro, porque existe mais procura", afirma. "E parece não haver muitos motoristas."

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