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Presidente da CNA: Apoio do agro a Bolsonaro foi 'questão de momento'

Imagem: Marcos Corrêa/PR

Colaboração para o UOL, em Brasília

08/12/2021 12h57

O presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), João Martins, disse hoje que o apoio de setores do agronegócio ao presidente Jair Bolsonaro em manifestações ao longo do ano "foi questão de momento".

"A CNA foi e continuará a ser apolítica. Entendemos que houve algumas manifestações, mas foi questão de momento", afirmou, em entrevista a jornalistas. um diálogo, franco, aberto e fácil. Isso facilita as nossas reinvindicações. O que nós pedimos deste governo? Temos problemas de escoamento da produção, de infraestrutura. Temos de mudar leis, e temos a Frente Parlamentar [no Congresso Nacional] que intermedia essas questões. Com este governo, nossa ligação não é de política partidária, é política classista."

A declaração, que evidencia o racha do setor com o governo, vem poucos dias depois de o IBGE divulgar dados que mostram que a queda de 8% na agropecuário, no terceiro trimestre de 2021, em relação aos três meses anteriores, contribuiu com a queda de 0,1% PIB do período, junto com o recuo das exportações (-9,8%).

A pouco menos de um ano das eleições, o setor do agronegócio começa a mostrar divisões internas e a procurar alternativas ao presidente Bolsonaro entre os candidatos de centro, a chamada terceira via. Influenciadores e grandes empresários do setor dizem, contudo, que, se um nome fora da polarização não se viabilizar, o grupo tende a apoiar em peso a reeleição do atual presidente num esforço para derrotar o PT.

7 de Setembro pode ter sido estopim

A Primeira Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) formou maioria para que a prisão preventiva do caminhoneiro e youtuber Marcos Antônio Pereira Gomes, conhecido como Zé Trovão, seja mantida. A defesa dele havia pedido um habeas corpus. Apoiador do presidente Bolsonaro (PL), Zé Trovão ganhou destaque este ano por tentar organizar greves de caminhoneiros. Ele é investigado por incitar atos criminosos e violentos no feriado de 7 de setembro.

Naquele mês, a Aprosoja ajudava a organizar dos atos pró-governo ao mesmo tempo em que posicionamentos políticos públicos mostraram que o agro, forte apoiador da candidatura de Jair Bolsonaro em 2018, começava a rachar. Em carta, entidades da agroindústria pediram paz e tranquilidade para o desenvolvimento do país ser efetivo e sustentável. E ainda defenderam que o Brasil não pode aceitar qualquer tipo de violência entre pessoas ou grupos.

Assinaram a carta sete associações que, juntas, representam 336 companhias, a maioria multinacionais. O documento ganhou repercussão, principalmente porque a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com mais de 200 associadas, recuou em cima da hora.

"O manifesto foi emitido pelo momento em que estamos vivendo, e não para que as entidades se posicionassem contra ou a favor do governo", declarou o executivo de uma das associações que subscreveram o documento. "Não é nosso papel", disse. Ele não quis se identificar.

"Nesse episódio, a única entidade que se posicionou politicamente foi a Fiesp, que recuou no último instante. Ele [Paulo Skaf, presidente da Fiesp] pulou fora", disse. "O posicionamento das entidades que deram a sua cara foi claro: o país precisa de estabilidade, não é contra nem a favor do governo." A Fiesp iria participar desse documento original, mas desistiu e só lançou uma carta própria dois dias depois do 7 de Setembro.

O agro brasileiro só tem crescido nas últimas décadas. Em 1970, a participação do setor no PIB nacional era de 7,5%. Em 2020, já como maior produtor de soja do mundo, a participação subiu para 26,6%, conforme o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP).

E a tendência, segundo o órgão, é que em 2021, o PIB do agro continue crescendo. No acumulado do ano, já avançou 9,81% sobre o mesmo período do ano passado.

No ano passado, 48% das exportações totais brasileiras tiveram origem no agronegócio e, agora, esse percentual pode subir mais. Evitar turbulências que atrapalhem essa perspectivas é uma das preocupações de parte importante do setor.

O cientista político e diretor-executivo da Croplife Brasil, uma das entidades que subscreveram o manifesto pela democracia, Christian Lohbauer, afirma que o setor não está dividido, mas que existem diferentes agendas e interesses específicos de cada segmento. Lohbauer concorreu na eleição presidencial de 2018 como vice de João Amoêdo pelo Partido Novo. Ele saiu do partido,

"É um setor heterogêneo, com muitas entidades e associações que andam juntas, mas possuem pautas diferentes", afirmou. "Cada associação defende seus interesses, mas a agenda antidemocrática e anticonstitucional não faz parte da pauta do agro."

Lohbauer diz que o setor defende, em conjunto, pautas como as relativas às questões fundiárias, terras indígenas, invasão de terras, sustentabilidade e cadastro ambiental rural, entre outras, mas as demais agendas que geram rupturas institucionais, como as ameaças ao STF ou o bloqueio de rodovias por caminhoneiros, não são do setor.

Não representa [o agro], o que está acontecendo é uma confusão de agendas, e ganha destaque quem vai às redes sociais gritar mais alto.
Christian Lohbauer

Segundo ele, nos bastidores do setor em Brasília, representado pelo Instituto Pensar Agropecuária (IPA), uma entidade que reúne os principais líderes do segmento, das 48 associadas, pelo menos 42 seguem a agenda do "sossego para trabalhar". "Essa é a agenda majoritária. A minoria faz barulho na internet, e vamos ter que nos acostumar com isso".

CNA: 2022 terá safra recorde, com custos maiores

A previsão da CNA para p ano que vem é uma safra de grãos recorde (289 milhões de toneladas, 14% a mais que a safra deste ano), favorecida pelo clima. O custo de produção deve ser um dos mais altos da história devido ao cenário de permanência de alta dos custos com os insumos.

Os dados foram divulgados hoje, durante a entrevista coletiva de final de ano para apresentar o balanço de 2021 e as perspectivas para 2022 do setor agropecuário. Segundo a entidade, a agropecuária deve continuar crescendo em 2022, mas num ritmo menor que nos observados anos anteriores.

Na avaliação da CNA, em 2021, o produtor rural conviveu com o aumento de mais de 100% nos custos com fertilizantes e defensivos para culturas como soja e milho, e a tendência para o próximo ano é de que este quadro se mantenha.

A entidade projeta que, mesmo com a elevação dos preços e o aumento de produção de algumas culturas, a alta dos custos de produção deve achatar a margem de lucro do produtor rural de maneira geral.

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