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Dado do governo sobre emprego era o contrário; e agora, dá para confiar?

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Imagem: iStock

Giulia Fontes

Do UOL, em São Paulo

12/12/2021 04h00

No final de novembro, o Ministério do Trabalho e Previdência divulgou uma revisão nos dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), que contém informações sobre o mercado de trabalho formal. O dado inicial era de que o país tinha criado 142.690 vagas de emprego com carteira assinada em 2020, o que foi motivo de comemoração pelo governo. Com os novos números, o diagnóstico passou a ser o contrário: na verdade, houve fechamento de 191.502 vagas com carteira assinada.

Segundo o ministério, revisões nos dados são naturais, "ainda mais em contextos de transição ou de situações atípicas como a de uma pandemia". Especialistas ouvidos pelo UOL afirmam que a correção não torna o Caged menos confiável. Eles dizem, porém, que já havia indícios de que poderia existir uma subnotificação de demissões —e que, mesmo assim, o governo foi pouco cauteloso, promovendo uma "euforia" ao divulgar os números.

Por que os dados tiveram de ser revisados

O Caged é uma espécie de termômetro do mercado de trabalho formal, ajudando o governo a formular políticas públicas.

Em nota técnica divulgada em novembro, o Ministério do Trabalho e Previdência diz que, todos os meses, as empresas informam ao governo quais foram as contratações e demissões ocorridas naquele mês —por exemplo, movimentações que ocorreram em novembro devem ser informadas até 15 de dezembro.

Acontece que as empresas também podem prestar as informações fora do prazo, o que acaba modificando a série de dados que já havia sido coletada. "Desde janeiro de 2011, o ministério divulga mensalmente as informações relativas às movimentações declaradas fora do prazo legal, que são incorporadas à série histórica do Caged", afirma a nota.

Segundo o documento, a revisão que provocou a queda no saldo de empregos de 2020 teve impacto em apenas 2,78% do total de movimentações registradas desde 2020. O governo também afirma que os ajustes "não alteram a análise da trajetória do mercado de trabalho formal brasileiro".

Cadastro viveu 'tempestade perfeita', diz pesquisador

Daniel Duque, pesquisador do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), afirma que o Caged viveu uma espécie de "tempestade perfeita" no ano passado, já que alterações na metodologia para a coleta dos dados coincidiram com a pandemia.

A mudança de metodologia foi implementada em 2020. A partir do ano passado, o governo fez alterações na coleta das informações sobre emprego formal, que passaram a ser recolhidas também pelo eSocial (Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas).

A obrigatoriedade do uso do sistema está sendo implementada aos poucos —o cronograma vai até 2022.

Em outubro do ano passado, Duque já afirmava haver evidências de que as demissões estavam subnotificadas no Caged.

Todo mês acontece um pouco disso, uma visão parcial do Caged, porque há empresas que demoram um pouco mais para reportar os dados. Mas geralmente são mudanças pequenas. O ponto é que na pandemia elas aumentaram.
Daniel Duque, do Ibre/FGV

Pesquisa segue confiável

As alterações nos dados, porém, não significam que a pesquisa deixou de ser confiável, dizem os analistas.

Paula Montagner, economista da Fundação Seade, ligada ao governo de São Paulo, afirma que quem acompanha os dados "sabia que 2020 havia sido um ano complexo para a captura de informações", por causa da covid-19.

Segundo ela, o Caged continua sendo uma fonte importante de dados, mas é preciso ter ainda mais cautela ao usar as informações antes dos ajustes.

Lucas Assis, economista da Tendências Consultoria, também diz que as revisões reforçam a necessidade de cuidado ao usar os dados.

O Caged passa por uma série de revisões frequentes e gradativas. Por isso é uma análise que deve ser feita com cuidado. Mas isso não significa que os indicadores estejam errados ou mal elaborados.
Lucas Assis, da Tendências Consultoria

Divulgação foi pouco cautelosa

Para Juliana Inhasz, professora do Insper em São Paulo, o governo não teve esse cuidado ao divulgar os dados de emprego formal.

O governo sabia da subnotificação, sabia que muitas empresas não estavam conseguindo fazer os cadastros, sabia da limitação do dado. Por que comemorar tanto um dado que, no final das contas, parecia distante da realidade?
Juliana Inhasz, do Insper

Na primeira divulgação do saldo de empregos formais em 2020, ainda com o número positivo, por exemplo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o país tinha encerrado o ano da pandemia "sem uma destruição líquida de empregos formais".

Guedes também comparou o resultado do ano passado com o de anos anteriores —o que, segundo especialistas, não deve ser feito, já que a metodologia do Caged mudou.

À época, o Caged ainda era ligado ao ministério de Guedes —o Ministério do Trabalho foi recriado só em julho de 2021.

"A boa notícia é o acumulado do ano. Na recessão de 2015, em que o PIB caiu 3,5% por erros de política econômica, nós destruímos 1,5 milhão de empregos. Na recessão de 2016, também em consequência de erros, perdemos 1,3 milhão de empregos. No acumulado de 2020, quando fomos atingidos pela maior pandemia dos últimos 100 anos, nós geramos 142 mil empregos", afirmou o ministro.

Daniel Duque, da FGV, diz que não acredita que tenha havido má-fé na apresentação das informações, mas que "essas divulgações foram usadas para promover uma certa euforia em relação a dados que não eram necessariamente tão bons".

Professor da USP: revisão é normal, e imprensa exagera

Hélio Zylberstajn, professor da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador do Salariômetro, discorda das críticas ao governo. Segundo ele, as atualizações nos números do Caged são algo rotineiro.

Desde que o Caged existe --e ele existe há muito tempo [a criação do cadastro ocorreu em 1965]-- os dados são rotineiramente atualizados. Essa última atualização foi maior do que normalmente ocorre porque houve uma mudança na coleta, e muitas empresas tiveram dificuldade de entregar [os dados]. Mas não há nenhuma manipulação, não há nada de diferente. Não entendo a insistência da imprensa nesse assunto.
Hélio Zylberstajn, professor da USP

Para Zylberstajn, a comemoração do governo não foi exagerada, já que o saldo divulgado era positivo. "E o ajuste foi muito pequeno se considerado o estoque de empregos [em outubro de 2021, 41,2 milhões de vagas]. É um exagero da imprensa, um viés que acaba fazendo com que as pessoas duvidem do Caged", declara. O estoque é o número total de vínculos trabalhistas formais (CLT) ativos no país.

Vai acontecer de novo?

Segundo os pesquisadores, a tendência é que os ajustes voltem a ser menores no futuro, tanto pelo enfraquecimento da pandemia quanto pela adaptação das empresas ao eSocial.

Toda vez que há uma mudança na forma de coleta, há uma adaptação. Tenho a expectativa de que o aprendizado faça com que as empresas tenham melhorado a compreensão do eSocial, e que em 2021 a gente tenha um número menor de dados atrasados.
Paula Montagner, da Fundação Seade

Daniel Duque, da FGV, acredita que "o problema não seja crônico".

Parece ser mais algo pontual, do ano passado. Talvez ainda tenha um pouco disso neste ano, mas cada vez mais vamos tender à normalidade.
Daniel Duque, da FGV

Segundo a última divulgação do Caged, o país teve abertura de 2,6 milhões de vagas de emprego formal entre janeiro e outubro de 2021.

Ministério não comenta críticas

O UOL pediu um posicionamento do Ministério do Trabalho e Previdência sobre as críticas, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.