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Apps prometem aumento de até 50%, mas entregadores e motoristas questionam

Na semana passada, entregadores entraram em greve por um dia para reivindicar reajustes nos ganhos - Getty Images
Na semana passada, entregadores entraram em greve por um dia para reivindicar reajustes nos ganhos Imagem: Getty Images

Anaís Motta

Do UOL, em São Paulo

07/04/2022 04h00Atualizada em 07/04/2022 09h53

A escalada no preço dos combustíveis tem afetado também o trabalho de entregadores e motoristas de aplicativo, que chegaram a organizar duas paralisações na semana passada, uma na terça (29/3) e outra na sexta (1º/4). Empresas como iFood, Rappi, Uber e 99 anunciaram medidas para tentar minimizar o impacto dessa alta, prometendo aumentos de até 50% na remuneração. Colaboradores ouvidos pelo UOL, porém, questionam a efetividade dessas ações, dizendo que ainda não foram sentidas na prática.

Além de reajustes no valor pago a entregadores e motoristas, as empresas dizem que também deram auxílio para pagamento de combustível e desconto em postos de gasolina. Segundo os apps, os custos disso não serão repassados aos consumidores.

Conheça as medidas anunciadas por apps de entrega e transporte no Brasil:

iFood

Principal plataforma de delivery operando no Brasil, o iFood anunciou em 18 de março um reajuste nos valores mínimos pagos por quilômetro rodado, de R$ 1 para R$ 1,50, e por rota, de R$ 5,31 para R$ 6. Com isso, o entregador que recebia ao menos R$ 10 por um percurso de 10 quilômetros, por exemplo, vai passar a ganhar R$ 15 —um aumento de 50%. Já quem fazia percursos menores, que não alcançavam R$ 6, vai receber pelo menos R$ 6 de qualquer maneira.

Segundo o app, a mudança foi implementada no último sábado (2) para todos os colaboradores, incluindo aqueles que usam bicicleta, e não há nenhum critério específico de elegibilidade.

Ao UOL, a empresa informou que "não está previsto" o repasse desses custos aos restaurantes e consumidores.

"Temos acompanhado o mercado e sabemos do nosso papel de gerar cada vez mais oportunidades. Revisamos processos, fizemos contas e nos organizamos para poder aumentar os ganhos, em um cenário difícil da economia, e minimizar os efeitos da alta de preços no país", afirmou a diretora de Logística do iFood, Claudia Storch, em nota à imprensa.

Rappi

A Rappi disse ter criado, ainda no ano passado, um fundo de R$ 25 milhões para entregadores independentes, "como forma de garantir aumentos em seus ganhos".

"Com isso, foi possível dar um aumento de 40% nas tarifas aos entregadores de junho de 2021 a fevereiro de 2022, sem que esse reajuste resultasse em repasse para as taxas cobradas aos usuários", disse a empresa, em nota ao UOL.

Uber

O Uber anunciou um investimento de R$ 100 milhões para "ajudar na redução de custos dos motoristas", segundo disse ao UOL. Entre as mudanças, está um reajuste de 6,5% nos ganhos dos colaboradores em todas as viagens, seja qual for a modalidade.

Em 19 de março, a empresa ainda promoveu uma ação em parceria com a rede de postos Ipiranga para oferecer 20% de cashback (dinheiro de volta) aos motoristas que usaram o Cartão Uber para abastecer o carro com gasolina.

"Pretendemos continuar fazendo mais promoções", completou a empresa.

99

Concorrente direta do Uber, a 99 lançou em 24 de março o Adicional Variável de Combustível, calculado a partir do preço médio da gasolina nos últimos 12 meses. A cada R$ 1 de aumento no litro do combustível, o motorista parceiro receberá R$ 0,10 a mais por quilômetro rodado, de acordo com a empresa.

O bônus vale para todas as modalidades de corrida, exceto táxi, independentemente do combustível utilizado pelo motorista. Ou seja: parceiros com carros movidos a diesel, gás natural ou etanol também receberão o adicional.

"Neste momento, a 99 aplicou os valores considerando a alta ocorrida desde março de 2021. No futuro, a atualização da análise será mensal, para que ocorra o ajuste correto do ganho extra dos motoristas parceiros", diz a 99 em seu site oficial.

Entregadores e motoristas questionam

Entregadores e motoristas ouvidos pelo UOL, porém, questionam a efetividade dessas ações, que veem apenas como "enfeite" e "propaganda".

Abel Santos, entregador do iFood em Brasília e um dos diretores da Amae-DF (Associação dos Motoboys Autônomos e Entregadores), diz que ainda não viu nenhum efeito prático dos reajustes anunciados pela empresa. Ele também critica a falta de transparência nos cálculos considerados para remuneração, dizendo não ser possível saber exatamente quanto ganha por entrega, e alega que o R$ 1,50 pago por quilômetro, na verdade, só vale para distâncias que excedam o valor mínimo de R$ 6. O iFood nega.

"Às vezes a gente nem sabe quando recebe gorjeta do cliente", relata. "Eles falam que pagam uma taxa mínima de R$ 6 por entrega, mais R$ 1,50 por quilômetro excedente. Mas quanto é a quilometragem mínima? Não se sabe. Nós, entregadores, estimamos que sejam 7 km. A gente chuta pelo valor que a gente recebe. Você pega um pedido de 4, 5 ou 6 km e ganha R$ 6. Aí quando dá 7 km, você ganha R$ 6,70, R$ 6,80..."

Dá menos de R$ 1 por quilômetro, é uma coisa que não compensa. Isso considerando o caminho do restaurante até o cliente. Mas e o nosso deslocamento até o restaurante? E o tempo em que fiquei esperando [até que o pedido ficasse pronto]? A gente acaba sendo escravo. Trabalha de 12 a 15 horas por dia, todos os dias da semana. Não adianta querer enfeitar, porque essas medidas não estão impactando nosso dia a dia.
Abel Santos, entregador

Livio de Andrade Luna da Silva —também conhecido como Livio do Uber, uma das lideranças da paralisação da última sexta (1º)— afirma que as corridas estão custando mais para os passageiros, mas o aumento não está sendo repassado aos motoristas.

Além disso, acrescenta, a ação que ofereceu cashback no abastecimento tem regras muito restritivas, uma vez a maioria dos parceiros não usa gasolina.

"Esse cashback só vale se a gente comprar no posto X, no dia Y, e só para gasolina. Falo aqui do Rio de Janeiro, mas posso falar por São Paulo, porque conheço bastante gente de lá, e por Belo Horizonte, onde rodei um tempo: pouquíssimos usam gasolina. Quem roda no combustível que não é gás [natural] geralmente roda no álcool, porque é mais barato. Mas mesmo quem roda na gasolina está com dificuldade de encontrar o posto que tem que ser e nos dias que eles colocam", conta.

Vocês [passageiros] estão pagando mais, e a gente não está recebendo nada. Só o que aconteceu desde o anúncio até agora é mais propaganda. A Uber teve a cara de pau de dizer que eram 6,5% [de reajuste], mais R$ 100 milhões em ações de 'incentivo'. Mas são só ações de propaganda, que são para vocês, na verdade, não são para nós, motoristas.
Livio do Uber, motorista

Alta de até 55% em 1 ano

O preço médio do litro da gasolina comum passou de R$ 5,48 em março de 2021 para R$ 7,20 na última semana, um aumento de 31,4% em um ano, segundo último levantamento feito pela ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), divulgado em 1º de abril. A mais cara foi encontrada em Minas Gerais, onde a média chegava a R$ 8,50.

O litro do etanol hidratado subiu de R$ 4,04 para R$ 4,99 (+23,5%) no último ano, enquanto o diesel foi de R$ 4,25 para R$ 6,59 (+55,1%).

O último reajuste no preço dos combustíveis foi anunciado pela Petrobras em 10 de março. Um dia depois, viralizaram nas redes sociais imagens de postos no interior do Acre onde o litro da gasolina já passava de R$ 10.