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Caixa: 'Foco do Pedro era me intimidar', acusa única mulher de Conselho

A funcionária Maria Rita Serrano faz parte do Conselho de Administração da Caixa Econômica Federal - Reprodução/Facebook/CA Rita Serrano
A funcionária Maria Rita Serrano faz parte do Conselho de Administração da Caixa Econômica Federal Imagem: Reprodução/Facebook/CA Rita Serrano

Do UOL, em São Paulo

29/06/2022 17h32Atualizada em 29/06/2022 19h18

A única mulher do Conselho de Administração da Caixa Econômica Federal, a funcionária Maria Rita Serrano, declarou hoje ao Metrópoles que o ex-presidente do banco estatal, Pedro Guimarães, acusado de assédio sexual por funcionárias, tinha o "foco de intimidá-la". Na noite de hoje, Guimarães foi exonerado "a pedido" após divulgar uma carta em que nega as acusações. A decisão foi assinada pelo presidente Jair Bolsonaro (PL).

Maria atua como representante dos trabalhadores do banco e foi reeleita recentemente com 91% dos votos dos servidores.

Quando falam que eu tentei fazer o enfrentamento, eu sou a única destoante. Isso começou a incomodar e tentaram cercear com esses processos internos. O foco do Pedro era tentar me intimidar. Mulher, empregada do banco e uma voz destoante. Como eu ia chegar sem um caso formalizado e abordar o assunto no Conselho? Então essa é a dificuldade. Maria Rita Serrano ao colunista Guilherme Amado, do Metrópoles, sobre as denúncias

Segundo a servidora, Guimarães teve que "engolir" o seu trabalho após a reeleição dela no Conselho. Ela disse também que já foi vítima de muita pressão na gestão dele no banco.

"Contra mim já se fez muita pressão nessa gestão. Tentaram me calar. Sou a única voz destoante, eu questiono, voto contra algumas coisas, me posiciono publicamente. Isso começou a incomodar muito e fui alvo de processos disciplinares. Não teve consequência contra mim porque não havia objeto concreto de denúncia, mas foi um enfrentamento duro que tive na gestão do Pedro. Ele vinha me pressionando em relação ao meu mandato, mas acabei ganhando a reeleição agora, e ele não teve escolha, teve que engolir."

Abordando o seu trabalho, Maria Rita explicou que divulgou sempre os canais de denúncias aos funcionários na tentativa de mostrar a importância do relato dos trabalhadores para colaborar com as apurações internas. Ela aproveitou para dizer que o Conselho de Administração tomará medidas caso seja comprovado que os órgãos de denúncia sabiam desses casos e não investigaram.

"E eu vou defender medidas drásticas, porque não podemos ter órgãos internos coniventes com o crime", disparou.

Maria Rita ainda apontou que o Conselho de Administração da Caixa não teve ciência de qualquer denúncia formal ou processo de investigação dentro do banco. Ela destacou que sempre atuou no seu trabalho para "coibir outras posturas autoritárias" e afirmou que, ao saber das denúncias de funcionárias ao site, pediu a Rogério Bimbi, presidente do Conselho, e aos demais conselheiros, que abrissem uma investigação sobre o caso, feita por um órgão externo, e que garantisse a proteção das vítimas.

"A reportagem diz que as denunciantes relataram os casos a órgãos de controle, mas isso nunca chegou até nós. O Bimbi informou que irá fazer uma reunião do conselho até amanhã (quinta-feira, 30 de junho) para analisarmos as medidas cabíveis."

Ao ser questionada sobre medidas que o banco poderia ter para colher as denúncias ou tentar coibir ações desse tipo, Maria Rita destacou as políticas de governança, acordos com sindicatos, mas reforçou a relevância das denúncias dos funcionários junto à empresa.

"Agora, diferentemente do que alguns defendem no Brasil, só se acusa se houver prova, denúncia concreta. Além disso, sou minoria no conselho, sou a única eleita de oito indicados pelo governo. É necessário que a pessoa denuncie, e é preciso ter provas. Não basta só ouvir falar, entendeu?"

Denúncias de assédio sexual

Ontem, o portal Metrópoles divulgou denúncias de funcionárias do banco, que incluem toques íntimos não autorizados, abordagens inadequadas e convites incompatíveis com a relação de trabalho supostamente praticadas por Pedro Guimarães. Os atos começaram a surgir no fim do ano passado.

Todas as mulheres que falaram ao Metrópoles, sem que seus nomes fossem divulgados, trabalham ou trabalharam em equipes que atendem diretamente o gabinete da presidência da Caixa. As cinco entrevistadas disseram que se sentiram abusadas em diferentes ocasiões, e sempre em compromissos de trabalho.

Os casos teriam acontecido, muitas vezes, em viagens relacionadas ao programa Caixa Mais Brasil. Segundo relato, Guimarães escolhia, preferencialmente, "mulheres bonitas" para as comitivas nas viagens. De acordo com Ana*, uma das funcionárias que denunciaram o assédio, o comunicado de escolha é como um prêmio.

Outra prática comum, segundo as funcionárias, é que mulheres que despertavam a atenção de Guimarães durante as viagens fossem chamadas para atuar em Brasília, muitas vezes promovidas hierarquicamente sem preencher requisitos necessários. A prática deu, inclusive, origem a uma expressão usada para se referir a elas: "disco voador".

Ontem, em nota, a Caixa afirmou que "não tem conhecimento das denúncias apresentadas pelo veículo e que adota medidas de eliminação de condutas relacionadas a qualquer tipo de assédio.". Ainda no texto enviado ao UOL, a instituição disse que "o banco possui um sólido sistema de integridade, ancorado na observância dos diversos protocolos de prevenção, ao Código de Ética e ao de Conduta, que vedam a prática de 'qualquer tipo de assédio, mediante conduta verbal ou física de humilhação, coação ou ameaça'".

*Nome fictício