Governo libera crédito e hoje BC deve aumentar juros: como fica a economia?
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O Banco Central deve anunciar hoje um novo aumento na taxa básica de juros (Selic), num cenário econômico no qual o governo federal adota medidas para ampliar o crédito e aquecer a economia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem reforçado políticas de estímulo financeiro nos últimos dias, em direção oposta à estratégia do BC, que justifica a alta dos juros como forma de conter a inflação.
O UOL Economia ouviu economistas para entender os impactos desse embate entre política monetária e fiscal e como ele pode afetar o dia a dia da população.
Cabo de guerra entre BC e governo
Hoje o Banco Central deve elevar Selic para 14,25% ao ano. Conforme a ata divulgada em dezembro, o BC deve anunciar hoje um aumento de 1 ponto percentual na taxa básica de juros. A decisão segue a estratégia adotada pelo ex-presidente do Banco Roberto Campos Neto, para desacelerar a economia e conter a inflação.
Por outro lado, o governo federal tem anunciado medidas para estimular o consumo. Entre as iniciativas estão um programa de crédito consignado para trabalhadores e microempreendedores individuais e a ampliação do Minha Casa, Minha Vida. Além disso, o governo pretende levar à votação a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil.
O impacto da elevação dos juros pode ser reduzido pelas medidas do governo. Segundo a economista e professora do Insper Juliana Inhasz, enquanto juros mais altos desestimulam o consumo, o incentivo ao crédito tem o efeito contrário, dificultando a queda da inflação. Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, lembra, no entanto, que algumas iniciativas não visam necessariamente aquecer a economia. "É o caso da isenção do IR, que tem um componente importante de distribuição de renda e justiça social e econômica", diz.
É possível que nesse cenário o BC permaneça aumentando a Selic nos próximos meses. A política de aumento de juros tem mostrado efeitos na desaceleração da economia para Inhasz, conforme apontado no Boletim Focus divulgado na segunda-feira. Apesar disso, os preços ao consumidor avançaram 1,31% no mês de fevereiro, o maior nível para o mês em 22 anos.
Os preços sobem ou descem?
A alta de juros não impacta todo tipo de aumento de preço, como dos alimentos, um dos principais vilões da inflação. Nos últimos cinco meses, o preço dos alimentos e bebidas subiu 5,4%, superando a inflação total do ano passado, que foi de 4,83%. De acordo com Marco Antonio Rocha, professor de economia da Unicamp, a razão da alta não é excesso de demanda, mas fatores de custo, como problemas climáticos, que afetam as colheitas e a guerra comercial comanda pelos Estados Unidos. Por isso, o aumento da Selic pode ter pouco efeito sobre esse componente da inflação.
A Selic tem um impacto maior sobre a inflação de serviços, que também está em alta. Em janeiro, a inflação de serviços aumentou 0,78%, e em fevereiro subiu para 0,82%. No acumulado dos últimos 12 meses, essa inflação alcançou 5,57%. O aumento no poder de compra, provocado pelas políticas de crédito, pode fazer com que a inflação de serviços continue a crescer.
Mas é o aumento no custo da alimentação o principal desafio do governo na tentativa de conter o impacto do encarecimento da vida para a população. "Não teria como o governo ficar inoperante porque e isso tem cobrado preço na popularidade [de Lula], que mira as eleições de 2026, É complicado separar economia de política, são coisas interligadas", diz Rocha.
Efeitos das políticas do governo na inflação não serão sentidos de imediato. Apesar de levar a uma reação a curto prazo do mercado financeiro, as medidas do governo que injetam dinheiro na economia poderão ser sentidas apenas a médio e longo prazo, explica o economista da XP. "Não tem como prever, mas talvez esse impulso na economia venha num contexto de uma inflação mais controlada, assim o resultado seria positivo", diz Margato