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Brasil reage aos EUA e cogita motivação comercial para suspensão à carne

Por Marcela Ayres e Roberto Samora

BRASÍLIA/SÃO PAULO (Reuters) - O governo brasileiro cogitou motivações econômicas por trás da suspensão das importações da carne in natura do país pelos Estados Unidos, argumentando que os problemas apontados em relação ao produto não trazem risco à saúde pública.

"Temos que acreditar que todos os parceiros comerciais do Brasil agem com lealdade, da mesma forma como país age. Mas não podemos descartar que haja motivações econômicas nesse processo", disse o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki, a jornalistas.

"Vamos levantar tudo isso", disse, ressaltando que o governo investigará os problemas citados pelo USDA, o Departamento de Agricultura dos EUA, para suspender os embarques na véspera.

Preliminarmente, Novacki disse que há indicações de que os abscessos encontrados na carne pelo USDA, um dos motivos da suspensão, são reação à vacinação do gado contra febre aftosa.

Durante a coletiva de imprensa, Novacki defendeu o sistema de inspeção federal, que classificou como robusto, e afirmou que o país não pode aceitar que questões econômicas eventualmente estejam por trás de tais medidas.

"Percebemos que existe um movimento nacionalista nos Estados Unidos. Esse foi o primeiro movimento concreto em relação à agricultura que nos coloca um alerta, uma luz amarela", disse, destacado que o Brasil foi pego de surpresa com a suspensão.

Ele disse também que, se for identificado que a suspensão é meramente comercial, vai discutir a questão em fóruns como a Organização Mundial do Comércio (OMC).

Novacki afirmou que o Ministério trabalha para reverter a suspensão o mais rápido possível, incluindo uma visita técnica aos EUA prevista para a primeira semana de julho, preparatória para uma viagem do ministro Blairo Maggi.

Mais cedo, Blairo afirmou em publicação em rede social que o Brasil "vai lutar pelo mercado" de carne bovina dos EUA, aberto apenas no ano passado após 17 anos de negociações, que em geral empacavam na questão da febre aftosa.

O Brasil, maior exportador global de carne bovina, é o único país livre de aftosa com vacinação que exporta aos EUA.

As exportações brasileiras aos norte-americanos ainda são relativamente pequenas dentro do total de 5,5 bilhões de dólares de 2016. As vendas aos EUA atingiram quase 50 milhões de dólares de janeiro a maio, mas o mercado é visto com o importante para conquistar países como Japão e Coreia do Sul.

Novacki disse ainda que os EUA são concorrentes do Brasil, que pode exportar 100 milhões de dólares ao país em 2017.

Segundo ele, a suspensão envolveu as 15 plantas habilitadas no país para exportação da carne in natura para os EUA, entre elas unidades da JBS (cinco), Minerva e Marfrig (quatro cada).

Marfrig e Minerva disseram que vão redirecionar embarques aos EUA a partir de unidades no Uruguai, durante a suspensão. A JBS, que tem boa parte das operações nos EUA, não se manifestou.

VACINAÇÃO

Novacki comentou que, embora os problemas apontados possam ser reação natural causada pela vacinação e não coloquem em risco a saúde pública, causam "aparência não muito conforme" no produto.

"Tudo indica que sejam problemas causados pela vacinação. Mas pode haver também problemas de manuseio, de operação. Vamos detectar quando tivermos a investigação concluída", disse ele, afirmando que haverá uma auditoria rígida para verificação da qualidade das vacinas contra aftosa.

Para representantes da indústria veterinária, é improvável que a vacina cause os abscessos, que poderiam ser decorrentes de agulhas rombudas (que perderam a ponta) ou mal esterelizadas, devido ao medicamento em si.

Em carta enviada ao governo brasileiro, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) apontou a necessidade de uma revisão abrangente do programa de inspeção de segurança alimentar do país após a identificação de violações na carne in natura, como abscessos e material estranho não identificado.

O secretário disse que esse material estranho pode ser osso.

A suspensão à carne brasileira veio após o USDA ter elevado em março os testes para a carne, como precaução após a operação Carne Fraca, que revelou um esquema ilegal de fornecimento de produtos alterados ou adulterados com a participação de empresários e fiscais do Ministério da Agricultura.

A medida norte-americana levanta preocupações, já que os critérios dos EUA costumam ser observados por outros importadores. Novacki disse que o Brasil tem respondido a questionamentos da União Europeia sobre o tema. O Canadá disse nesta sexta-feira que rejeitou 6 de 191 carregamentos de carne bovina do Brasil desde 10 de abril.

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