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EUA sugerem conversas depois que China retalia em luta comercial

04/04/2018 17h25

Por Michael Martina e David Lawder

PEQUIM/WASHINGTON (Reuters) - A administração do Presidente Donald Trump disse nesta quarta-feira que conversas com Pequim podem resolver a luta comercial entre os Estados Unidos e a China que está se intensificando depois que os chineses retaliaram contra as propostas dos EUA de impor tarifas de até 50 bilhões de dólares em produtos chineses visando importações-chave norte-americanas com impostos similares.

Apenas 11 horas depois que a administração Trump ter proposto tarifas de 25 por cento em quase 1.300 produtos industriais, tecnológicos, médicos e de transporte chineses, a China respondeu com uma lista de impostos similares sobre importações-chave dos EUA, incluindo soja, aviões, carros, carne e químicos.

Os mercados acionários globais, com medo de uma guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas do mundo, foram abalados pelas salvas de tiros entre a China e os EUA, mas conseguiram recuperar uma parte das perdas desde então.

O presidente dos EUA, Donald Trump, negou que as medidas correspondam a uma guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas do mundo.

"Não estamos em uma guerra comercial com a China, essa guerra foi perdida há muitos anos pelos tolos, ou incompetentes, que representavam os EUA", escreveu Trump no Twitter.

Perguntado por repórteres fora da Casa Branca se os EUA poderiam perder uma guerra comercial, o principal conselheiro econômico de Trump, Larry Kudlow, disse "não. Eu não vejo dessa maneira. Isso é uma negociação, usando todas as ferramentas".

"O que se tem são os estágios iniciais do processo que incluirá tarifas, comentários sobre as tarifas, e então uma decisão final e negociações. Já há conversas acontecendo nos bastidores", disse Kudlow separadamente à Fox Business News.

O secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross, disse à CNBC que "não seria nem um pouco surpreendente se o resultado líquido disso tudo fosse algum tipo de negociação".

Se os dois países não conseguirem encontrar uma maneira de resolver a disputa, uma guerra comercial em grande escala poderia desestabilizar as relações comerciais entre os EUA e a China, um componente importante para a economia global.

As novas tarifas comerciais não serão aplicadas imediatamente, então talvez haja espaço para manobras. A publicação da lista de Washington inicia um período de consulta pública que deve durar cerca de dois meses. A data efetiva das mudanças chinesas depende de quando a ação dos EUA entrar em vigor.

A resposta rápida e forte da China para as tarifas dos EUA inicialmente estimulou uma liquidação dos mercados acionários dos EUA, com o Dow Jones caindo 2 por cento na abertura, mas recuperando o terreno positivo ao longo da sessão.

As ações da gigante de aeronaves Boeing Co, a única grande exportadora norte-americana para a China, tropeçaram 2,7 por cento enquanto a fabricante de maquinário agrícola Deere & Co escorregou 4,5 por cento e as da Carterpillar caiu 1,8 por cento.

Enquanto Washington visou produtos que beneficiam a política industrial da China, incluindo a iniciativa "Made in China 2025" de substituir importações de tecnologia avançada por produtos domésticos em indústrias estratégicas como TI avançado e robótica, a lista de Pequim aparentemente foi feita sob medida para inflingir danos políticos.

A lista de Washington foi preenchida com muitos itens industriais obscuros, mas a lista da China afeta produtos importantes de exportação dos EUA, como soja, carne congelada, algodão e outras commodities agrícolas importantes produzidas em Estados do Iowa ao Texas, que votaram em Donald Trump na eleição presidencial de 2016.

A lista se estende a tabaco e uísque, ambos produzidos em Estados que incluem Kentucky, casa do Líder da Maioria no Senado dos EUA, Mitch McConnell, republicano como Trump.

Uma das primeiras oportunidades para EUA e China discutirem a questão se dará durante uma reunião do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, de 20 a 22 de abril, em Washington, onde autoridades financeiras tradicionalmente se encontram nos bastidores para discutir questões bilaterais.

Uma autoridade norte-americana, falando sob condição de anonimato, disse que nenhuma conversa havia sido agendada ainda entre o Secretário do Tesouro dos EUA, Steve Mnuchin e sua contraparte chinesa durante a reunião do FMI.

A possibilidade de intensificação de uma guerra comercial entre os EUA e a China resultaria em uma "difícil jornada" para a economia norte-americana, disse James Bullard, presidente do Federal Reserve de St. Louis.

Os bens fabricados nos EUA que aparentemente enfrentam sobretaxas na China, com base em uma análise da lista de Pequim, incluem carros elétricos da Tesla, automóveis Lincoln da Ford, jatos Gulfstream fabricados pela General Dynamics e o uísque Jack Daniel's da Brown-Forman Corp

Produtos de tecnologia de informação, de celulares a computadores pessoais, escaparam em grande parte da saraivada mais recente das medidas comerciais entre os EUA e a China, apesar de contabilizarem uma grande parte do comércio bilateral.

"ENFRAQUECER A NOSSA VONTADE"

"A China também está tentando enfraquecer nossa vontade visando certos segmentos da nossa economia", disse o conselheiro comercial da Casa Branca, Peter Navarro, à National Public Radio. "Mas vamos lembrar: nós compramos cinco vezes mais produtos do que eles compram de nós. Eles têm muito mais a perder com a intensificação desse assunto".

Trump disse no mês passado que "guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar", porém outros republicanos importantes expressaram desconforto com os desdobramentos recentes. McConnell disse estar nervoso sobre "a crescente tendência na administração de aumentar tarifas" que poderia se tornar uma "estrada escorregadia", enquanto o senador Chuck Grassley, cujo Estado natal, Iowa, é um grande produtor agrícola, disse que "produtores agrícolas e pecuários não deveriam aguentar o impacto da retaliação pelo país inteiro".

A lista de Pequim de tarifas adicionais de 25 por cento sobre bens dos EUA cobre 106 itens com um valor comercial que corresponde aos 50 bilhões de dólares visados na lista de Washington, disseram os ministérios do Comércio e de Finanças da China.

A lista de tarifas de Trump incluem mais de 1.300 produtos, mas os EUA não importaram nada da China no ano passado de 141 deles. Enquanto grandes aeronaves, satélites de comunicação e armas militares, como lançadores de foguetes estarem entre os produtos visados, os EUA tiveram zero importações destes produtos da China no ano passado, de acordo com uma análise da Reuters.

A lista chinesa cobre ainda aeronaves que provavelmente incluiriam modelos mais velhos da Boeing, como o jato 737, mas não afeta modelos mais novos como o 737 MAX ou seus aviões maiores. Um porta-voz da Boeing em Pequim recusou-se a comentar.

A medida norte-americana, sinalizada no mês passado, visa forçar Pequim a lidar com o que Washington diz ser roubo de propriedade intelectual e transferência forçada de tecnologia de empresas dos EUA para concorrentes chineses. Autoridades da China negam as acusações.

O representante do ministério do exterior Geng Shuang disse que a China mostrou sinceridade em querer resolver a disputa por meio de negociações.

"Mas as melhores oportunidades para resolver as questões através do diálogo e negociações estão sendo perdidas repetidamente pelo lado dos EUA", ele disse em briefing regular nesta quarta-feira.

A lista de tarifas seguiu a imposição de tarifas da China sobre 3 bilhões de dólares em frutas, nozes, carne suína e vinho dos EUA para protestar contra as novas tarifas de aço e alumínio impostas no mês passado por Donald Trump.

Muitos consumidores de produtos eletrônicos, como celulares feitos pela Apple Inc e laptops feitos pela Dell foram excluídos da lista dos EUA, assim como roupas e sapatos, dando um sinal de alívio para os varejistas que estavam preocupado com custos mais elevados para os consumidores americanos.

(Por David Lawder, Jason Lange, Ginger Gibson, Steve Holland, Makini Brice, Susan Heavey, David Chance, Lindsay Dunsmuir, Michael Martina, Cheng Fang, Ryan Woo, Ben Blanchard, Tony Munroe, Cate Cadell, Philip Wen, Dominique Patton, Josephine Mason e Engen Tham; Reportagem adicional por Brenda Goh, Stella Qiu, Tom Miles e Michael Hogan)

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