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China impõe medida antidumping nas importações de frango do Brasil

08/06/2018 08h23

Por Dominique Patton

PEQUIM/SÃO PAULO (Reuters) - A China anunciou nesta sexta-feira que vai impor direito antidumping provisório sobre as importações de carne de frango brasileira, em mais um revés para as gigantes de proteína animal do país e no momento em que os Estados Unidos pressionam Pequim a reabrir seu mercado para os produtos avícolas norte-americanos.

Os importadores chineses de frango brasileiro terão que pagar depósitos de 18,8 a 38,4 por cento do valor de suas compras a partir de 9 de junho, informou o Ministério do Comércio em um comunicado.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) disse que a medida, que abrange produtos fornecidos pelos principais exportadores brasileiros JBS e BRF, é um "retrocesso" nas relações comerciais entre os dois países e que vai trabalhar para reverter a decisão temporária.

"A associação reafirma que não há qualquer nexo causal entre as exportações de carne de frango do Brasil e eventuais situações mercadológicas locais", disse a ABPA, acrescentando que os "esclarecimentos apresentados pelo setor produtivo e pelas agroindústrias exportadoras deixaram clara a ausência de qualquer possível dano aos produtores e ao mercado chinês".

Uma decisão preliminar do ministério chinês apontou que os produtores chineses foram "substancialmente prejudicados" pelos embarques do Brasil entre 2013 e 2016, quando o país forneceu mais da metade das importações chinesas de carne de frango.

Uma fonte da embaixada brasileira em Pequim disse que a medida é "muito decepcionante".

"Não estamos convencidos de que há dumping, lesão ou um nexo de causalidade", disse a fonte, recusando-se a ser identificada devido à natureza sensível do tópico.

Embora o resultado inicial da investigação iniciada em agosto passado era esperado para este mês, a imposição das medidas ocorre também no momento que os EUA tentam recuperar o acesso ao mercado avícola chinês, em meio a negociações comerciais em andamento.

A China concordou em aumentar suas importações de produtos agrícolas norte-americanos em recentes negociações destinadas a evitar uma guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo.

"Estamos muito, muito preocupados com essas negociações, porque o que nós não queremos ver é os exportadores brasileiros em situação de desvantagem vis-à-vis outros concorrentes que podem também estar em condições de exportar para este país", disse a fonte da embaixada brasileira.

As medidas antidumping são mais um golpe para os exportadores de carne do Brasil, que ainda estão se recuperando das consequências da operação Carne Fraca, da Polícia Federal.

A BRF, maior exportadora mundial de carne de frango, disse no mês passado que o aumento nos preços dos grãos e as barreiras ao comércio em importantes mercados frustraram os esforços para que a empresa voltasse a lucrar.

Analistas e a indústria não ficaram surpresos com a decisão, e ressaltaram que ela ainda é inicial e pode ser mudada.

Uma fonte da indústria brasileira disse que o Ministério do Comércio propôs mais negociações com os exportadores, incluindo a possibilidade de estabelecer um preço mínimo para as exportações para a China.

Ainda não está claro se a indústria vai aceitar tal proposta, disse ele.

PÉ DE GALINHA

Os exportadores brasileiros devem ser capazes de absorver o impacto dos depósitos, particularmente para pés de frango, que de outra forma não teriam valor, disse Pan Chenjun, analista sênior do Rabobank.

"A China não é o mercado mais importante (para o Brasil), mas em valor é muito importante, pois absorve todos os subprodutos."

A ABPA também considera que o mercado chinês continuará a absorver o produto brasileiro. "Apesar de uma potencial retração no desempenho dos embarques em toneladas, o fluxo comercial deverá ser mantido mesmo com a imposição da medida, frente à necessidade e alta demanda do mercado chinês", disse a entidade.

Em 2017, a China absorveu 391,4 mil toneladas de carne de frango do Brasil, equivalente a 9,2 por cento de tudo que o país embarcou no mesmo período, segundo a ABPA.

Das 29 empresas brasileiras listadas pelo ministério chinês, as taxas de depósito nos produtos da JBS e da sua divisão de aves e suínos Seara serão de 18,8 por cento, já os produtos da BRF sofrerão uma taxa de 25,3 por cento e os embarques da C.Vale - Cooperativa Agroindustrial serão taxados em 38,4 por cento. Para a Cooperativa Central Aurora Alimentos o depósito será de 20,7 por cento. .

Pan Chenjun espera que os importadores negociem com os fornecedores para compartilhar as taxas de depósito.

Li Jinghui, diretor da Associação de Avicultura da China, não quis comentar as notícias. Um funcionário da Associação de Agricultura Animal da China também se recusou a comentar.

Procuradas, a JBS, dona da marca Seara, disse que não comentaria a notícia, enquanto a BRF não tinha comentários imediatos.

Não está claro o que acontecerá com as remessas já a caminho da China. Um depósito antidumping incidente sobre o sorgo dos Estados Unidos em abril causou o caos no comércio de grãos, com dezenas de cargas retidas enquanto importadores tentavam vender para outros mercados para evitar pagar as tarifas.

Os preços dos frangos de corte na China se recuperaram significativamente desde o ano passado, quando caíram para mínimos em décadas depois que centenas de pessoas morreram por contrair o vírus H7N9 da gripe aviária.

(Reportagem adicional de Paula Arend Laier e José Roberto Gomes, em São Paulo)

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