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ENTREVISTA-Terra Santa Agro mira venda de áreas para reduzir dívida, diz CEO

20/04/2020 18h11

Por Nayara Figueiredo

SÃO PAULO (Reuters) - A Terra Santo Agro, uma das principais companhias produtoras de grãos no país, percebeu sinais de aquecimento na demanda por áreas agrícolas para a safra 2020/21 e está atenta a oportunidades de venda que contribuam para reduzir as dívidas da empresa, disse o CEO, José Humberto Prata Teodoro Júnior.

"Os produtores de grãos estão mais capitalizados por causa do câmbio e interessados em aquisições... Sim, estamos atentos e podemos aproveitar o momento (para vender), e isso pode ser desde um negócio pontual até operações maiores e mais significativas que ajudam a melhorar nosso perfil de endividamento", afirmou o executivo em entrevista à Reuters.

"É possível que tenhamos boas oportunidades de (negociação) de terras nos próximos meses", acrescentou o executivo, sem detalhar o que estaria em negociação.

A companhia conta com um portfólio de terras --situadas em Mato Grosso, principal Estado agrícola do país-- de aproximadamente 133,4 mil hectares, sendo que quase 90 mil são áreas próprias, conforme dados atualizados em meados de março.

Reduzir o nível de dívidas é uma das estratégias financeiras da Terra Santa Agro. Em 31 de dezembro de 2019, o endividamento líquido ajustado da companhia atingiu 1,154 bilhão de reais, 4% inferior ao montante registrado um ano antes.

No endividamento financeiro, a dívida em dólar representava 90% do total, com um custo médio de 6,2% ao ano, conforme o balanço mais recente.

Para não perder a geração de caixa vinda da safra de grãos, Teodoro explicou que o mais provável a acontecer é a comercialização da terra e, em seguida, a tentativa de arrendamento da mesma para seguir com a produção.

Teodoro ressaltou que em tempos de crise, como a pandemia do coronavírus, o setor agrícola acaba sendo muito beneficiado pela desvalorização da moeda local em relação ao dólar.

"Quando a taxa de câmbio muda, o Brasil fica mais competitivo do que os Estados Unidos nas exportações de grãos... os preços internacionais, em dólar, caem um pouco, achatando as margens dos americanos, mas no Brasil temos o câmbio para compensar essa queda."

O dólar fechou em firme alta ante o real nesta segunda-feira, alcançando a segunda maior cotação da história, em dia negativo nos mercados financeiros no mundo com o colapso dos preços do petróleo agravando a percepção de piora para a economia global. O dólar subiu 1,40%, a 5,3092 reais na venda.

PRODUÇÃO E COVID-19

O CEO da Terra Santa disse que a safra 2020/21 já está planejada e a ideia inicial é manter as áreas cultivadas com soja e milho, e expandir as lavouras de algodão.

"Enquanto a soja e milho estão sendo amplamente beneficiados pela valorização do dólar e a demanda segue firme, os negócios de algodão foram os mais prejudicados pela crise do coronavírus... mas ainda assim, vamos ampliar a área, porque nosso custo de produção de algodão é baixo e trata-se da cultura com melhor rentabilidade média por hectare".

Segundo o CEO, o faturamento média da soja é de 4 mil reais por hectare; no milho, esta receita fica em torno de 3 mil reais por hectare, e no algodão, "chegamos a faturar 11 mil reais com um hectare, ou seja, nossa margem de lucro é melhor", afirmou.

A China, maior compradora global da pluma, restringiu a logística nos portos do país em meados de janeiro e fevereiro, como medida de contenção contra o coronavírus e, com isso, os embarques de algodão que estavam agendados foram postergados.

"Desde de janeiro fomos afetados pelos impactos da Covid-19 neste setor e, como não houve a entrega, ficamos sem a contrapartida, o caixa que seria gerado (com os pagamentos)", disse Teodoro.

Passadas as medidas mais restritivas, as operações começam a ser retomadas "timidamente". "Eu diria que de 100% dos embarques postergados, 20% ou 30% vão acontecer nos próximos meses. O restante ficará para o segundo semestre", estimou.

Com o desenho da safra 2020/21 traçado, a expectativa da Terra Santa é que, nas próximas semanas, 100% dos insumos para soja e milho estejam adquiridos e de 70% a 75% da comercialização da soja e milho da próxima temporada seja concluída, disse o CEO.

"No algodão, entendemos que o momento é de muita incerteza. Estamos monitorando o mercado e não há espaço para antecipar as vendas com rentabilidade, mas isso pode melhorar mais pra frente."