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BC admite descolamento grande em preços a produtores e consumidores, vê algum repasse a IPCA

24/09/2020 09h55

Por Marcela Ayres

BRASÍLIA (Reuters) - O Banco Central reconheceu nesta quinta-feira um descolamento grande entre a inflação ao produtor (IPA), mais alta, e ao consumidor (IPCA), mais baixa, com a diferença observada em agosto tendo sido a maior desde 2003 considerando variações em trimestres móveis, e indicou que deverá haver algum repasse ao IPCA à frente.

O diretor de Política Econômica do BC, Fabio Kanczuk, disse em coletiva de imprensa que está havendo grande divergência entre os dois índices, alimentando questionamentos sobre aumentos no IPCA.

"Pergunta é se IPCA está grávido do IPA, aumentos vão aparecer ou não?", afirmou ele.

Em box publicado mais cedo no Relatório Trimestral de Inflação, o BC já havia dito que a evolução dos preços de combustíveis era parte importante do fenômeno, o que Kanczuk reiterou.

"Daí não é questão de gravidez, são bens diferentes mesmo: IPA é combustível puro e IPCA considera margens do serviço ligadas a combustível puro", disse.

Por outro lado, ele pontuou que, tirando os combustíveis, faz sentido imaginar que parte da alta do IPA vai sim para o IPCA.

"Tem a questão de ociosidade que determina um pouco o quanto será o repasse, mas repasse deve acontecer sim", afirmou o diretor. "Resposta é que tem um pouco de gravidez", complementou.

No box, o BC fez uma análise de componentes similares nos dois índices, já que o IPA puro não inclui serviços, mas abarca, com peso relevante, bens que são em grande parte exportados, como soja e minério de ferro.

Considerando esse recorte, o BC admitiu a existência de alguns componentes com maior discrepância nos três meses encerrados em agosto: combustíveis para veículos, leites e derivados, combustíveis domésticos (GLP) e veículos próprios.

"Destaca-se a grande influência de combustíveis para veículos, que contribuiu com -2,5 pontos percentuais para a diferença de -4,5 pontos percentuais entre IPCA-correspondente e IPA-correspondente", disse o BC.

A autoridade monetária ponderou que, nos meses anteriores, o descolamento nos preços de combustíveis teve magnitude grande em sentido contrário.

"Tais discrepâncias podem advir de repasse incompleto – por exemplo, pelo fato de o preço ao produtor ser apenas uma parte do preço final ao consumidor –, de repasse defasado, ou mesmo de imperfeições no mapeamento. No caso de combustíveis para veículos, a primeira hipótese parece explicar a maior parte do descolamento", afirmou.

Segundo o BC, é possível que o movimento distinto do IPCA-correspondente e do IPA-correspondente reflita parcialmente alguma defasagem de repasse em determinados itens. Mesmo assim, disse acreditar que as condições atuais da economia, com elevado grau de ociosidade, "podem contribuir para que o eventual repasse seja menor que o usual".

O fato da inflação ao produtor ter disparado nas últimas leituras acendeu o alerta quanto a repasses subsequentes para os consumidores, o que tenderia a pressionar o IPCA para cima.

No relatório desta quinta-feira, contudo, o BC voltou a avaliar que "diversas medidas de inflação subjacente permanecem abaixo dos níveis compatíveis com o cumprimento da meta", dada pelo IPCA.

No curto prazo, o BC vê alta do IPCA de 0,40% em setembro, 0,30% em outubro e 0,27% em novembro. A inflação acumulada em 12 meses deve então cair de 2,85% em novembro para cerca de 2,1% em dezembro, "com o descarte da alta atipicamente elevada observada em dezembro de 2019, na esteira do choque nos preços das carnes".

A meta de inflação deste ano é de 4% pelo IPCA, com margem de 1,5 ponto para mais ou para menos.