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Há "grande risco" de país entrar em dominância fiscal se nada for feito, diz asset do BNP Paribas

25/11/2020 11h39

SÃO PAULO (Reuters) - A despeito do ambiente externo positivo, o mercado financeiro doméstico segue desconfiado diante da falta de empenho do governo na direção de reformas estruturantes, e se isso continuar corre-se um "grande risco" de se entrar em dominância fiscal, disse Gilberto Kfouri, responsável por renda fixa e multimercados da BNP Paribas Asset Management.

"A gente não vê empenho em aprovar reformas estruturantes. Se você não fizer isso acho que corre um grande risco de caminhar, sim (para dominância fiscal). Não adianta esperar que as coisas melhorem por si só. Isso não acontece. As coisas não melhoram do nada", afirmou Kfouri.

A dominância fiscal é uma situação de excesso de dívida e de deterioração na perspectiva para sua trajetória. Em caso extremo, a combinação de ambos acaba retirando da política monetária a capacidade de ação de controlar a inflação --ou seja, o fiscal dominará o monetário.

"Não vou dizer que estamos (nessa situação). Mas podemos caminhar se nada for feito", disse o executivo da BNP Paribas Asset Management.

Na semana passada, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra, descartou essa possibilidade. "Sempre haverá a possibilidade de o governo adotar medidas, do lado fiscal, por mais dolorosas que sejam essas medidas, inclusive aumentando imposto, para sair de um caso hipotético de dominância fiscal", disse na ocasião em resposta a um questionamento.

No curto prazo, para afastar esse risco, Kfouri avalia que o governo precisar emitir sinais mais claros de comprometimento fiscal e que isso passa por um maior esforço para aprovação da PEC Emergencial --que aciona medidas de controle de despesas obrigatórias no Orçamento.

"O desafio agora é provar, mostrar ao mercado como será possível manter o teto de gastos em 2021. Hoje você fala que vai manter, mas se fizer a conta no papel é muito difícil manter", afirmou Kfouri.

"Se você abrir algo do teto, flexibilizando, acabou. É um precedente para jogar fora o teto", concluiu.

Caso se chegue ao começo do ano que vem com a fotografia atual, ele vê o mercado "piorando um pouquinho por dia". "Essa piora vai acontecer até você ter uma resposta. Não dá para negligenciar."

Diante dos riscos, o executivo da asset do BNP prefere posições mais curtas nos mercados de títulos, privilegiando papéis de no máximo dois anos, com posições longas apenas de caráter tático, como nas NTN-B 2050.

"O prêmio está muito elevado, bastante alto, mas pode não ser tão alto assim, pode até ser baixo, se você considerar que as questões fiscais tendem a piorar. O mercado está binário", finalizou.

(Por José de Castro)