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Tragédia da Covid poderia ter sido atenuada e culpados serão punidos, diz Renan

27/04/2021 14h26

Por Maria Carolina Marcello

BRASÍLIA (Reuters) - O relator da CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL), disse nesta terça-feira ter absoluta convicção que a tragédia da Covid-19 no país, com elevado número de mortes e de casos, poderia ter sido minimizada com ações adequadas, e afirmou que aqueles que erraram, se comprovado, serão responsabilizados.

Renan indicou, em discurso após a nomeação à relatoria da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), o tom que pretende adotar na condução da apuração no Senado. Se por um lado acenou aos parlamentares governistas que questionavam sua indicação, prometendo atuação isenta, imparcial e despolitizada, afirmou, por outro, que o país tem o direito de saber quem foram os responsáveis pelas mortes, sinalizando que o governo não terá vida fácil na comissão.

"Essa é uma tragédia que --tenho absoluta convicção-- poderia ter sido atenuada com atitudes corretas, tempestivas, responsáveis e humanitárias", afirmou o relator.

"Temos a obrigação de fazer justiça, de apontar, com responsabilidade, equilíbrio e provas, os culpados por esta hecatombe. Quem fez e faz o certo não pode ser equiparado a quem errou. O erro não é atenuante, é a própria tradução da morte. O país tem o direito de saber quem contribuiu para os milhares de mortes, e eles devem ser punidos imediatamente e emblematicamente", defendeu.

Ao argumentar que o Congresso não poderia se permitir o papel de mero espectador da crise, Renan afirmou que a Casa precisava exercer sua função fiscalizadora.

"Há uma ameaça real de virarmos um apartheid sanitário mundial. Ninguém nos quer por perto. Brasileiros são discriminados no mundo, e corremos o risco de boicote aos nossos produtos", alertou.

"Há responsáveis, evidentemente. Há culpados por ação, omissão, desídia ou incompetência. E eles, em se comprovando, serão responsabilizados", disse Renan. "Essa será a resposta para nos conectarmos com o Planeta. Os crimes contra a humanidade não prescrevem jamais e são transnacionais -- Milosevic, Augusto Pinochet são exemplos da história. Façamos a nossa parte."

Em diversas ocasiões, Renan garantiu que não fará acusações sem provas e que se pautará por argumentos científicos. O parlamentar chegou a fazer menção ao ex-juiz Sergio Moro, declarado suspeito pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em condução de processo contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a Deltan Dallagnol, procurador que coordenou a força-tarefa da operação Lava Jato em Curitiba.

"A CPI não é uma sigla de Comissão Parlamentar de Inquisição. É de investigação. Nenhum expediente tenebroso das catacumbas do Santo Ofício será utilizado. A CPI, alojada em uma instituição secular e democrática, que é o Senado da República, tampouco será um cadafalso com sentenças prefixadas ou alvos selecionados", disse Renan.

"Nossa cruzada será contra a agenda da morte. Contrapor o caos social, a fome, o descalabro institucional, o morticínio, a ruína econômica, o negacionismo não é uma predileção ideológica ou filosófica; é uma obrigação democrática, moral e humana. Os inimigos desta relatoria são a pandemia e aqueles que, por ação ou omissão, incompetência, desídia ou malversação, se aliaram ao vírus e colaboraram de uma forma ou de outra com esse morticínio."

Na véspera, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que não estava preocupado com a CPI da Covid, dizendo que não deve nada.

"MILITAR NOS QUARTÉIS E MÉDICOS NA SAÚDE"

Numa primeira sugestão de funcionamento da comissão, o relator propôs a requisição de documentos e informações ao Executivo sobre contratações de vacinas, regulamentações de medidas sanitárias como isolamento social, e registros de ações relacionadas a medicamentos sem comprovação científica comprovada, entre outros.

O senador também propôs audiências com o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e os ex-titulares da pasta Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, além de Pazuello. As sugestões precisam ser chanceladas pelos demais integrantes da CPI, mas o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), já indicou que Mandetta deve ser o primeiro a ser ouvido, na próxima terça-feira.

Renan também criticou o fato de a gestão do Ministério da Saúde ter sido conferida a um "não especialista", em referência ao ex-ministro Eduardo Pazuello, general do Exército.

"Na pandemia, o Ministério da Saúde foi entregue a um não especialista, a um general. O resultado fala por si só", avaliou o relator.

"Guerras se enfrentam com especialistas, sejam elas guerras bélicas ou guerras sanitárias. A diretriz é clara: militar nos quartéis e médicos na Saúde! Quando se inverte, a morte é certa, e foi isso que lamentavelmente parece ter acontecido. Temos que explicar como, por que isso ocorreu", disse.

Segundo uma fonte com conhecimento do assunto, Renan atuará na relatoria de maneira calculada, sem aceitar provocações, e de forma "profissional". O parlamentar encara a missão como uma oportunidade para recuperação de sua imagem e deve, ainda de acordo com a fonte, investir no discurso da defesa dos princípios democráticos e humanitários, tendência já adotada nesse primeiro discurso ao assumir a relatoria da comissão.