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Dólar salta com ruídos fiscais e exterior e tem maior alta para julho em 6 anos

30/07/2021 17h57

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar saltou mais de 2% nesta sexta-feira, praticamente zerando em apenas uma sessão a queda acumulada em toda a semana, puxado por um forte movimento de compras defensivas em meio a renovados ruídos fiscais no país que se somaram ao efeito negativo do clima arisco no exterior.

A liquidação que alvejou o real se estendeu também a outras praças. O Ibovespa desabou mais de 3%, e as taxas dos contratos futuros de juros negociados na B3 chegaram ao fim da tarde em disparada de mais de 30 pontos-base.

O movimento em conjunto do mercado ocorreu por receios de que o presidente Jair Bolsonaro assuma uma postura populista, em meio à crise do governo e à piora da avaliação pessoal do presidente a pouco mais de um ano para as eleições presidenciais.

Bolsonaro afirmou nesta sexta-feira que o governo pode prorrogar o auxílio emergencial pago a pessoas vulneráveis e trabalhadores informais se a pandemia de Covid-19 persistir em 2022.

Mais cedo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que sua equipe tem verificado desde o ano passado aumento atípico de uma outra despesa pública que poderá demandar uma reação por parte do governo.

"Acho que o mercado estava muito 'comprado' em Brasil, ignorando o risco fiscal. E aí a fala do PG (Paulo Guedes) acordou o mercado", disse o gestor de uma grande instituição financeira em São Paulo.

De fato, agentes de mercado vinham destacando nas últimas semanas mais fatores externos para explicar movimentos do câmbio, com o noticiário fiscal ficando de lado nas análises, em meio à melhora em indicadores econômicos gerais.

Pela manhã, o Banco Central informou que o setor público consolidado brasileiro teve déficit primário em junho de 65,508 bilhões de reais, acima do rombo de 60,0 bilhões de reais previsto em pesquisa da Reuters. Ainda assim, a dívida bruta caiu ao menor patamar em um ano.

Nos mercados emergentes, o Brasil está ao lado de Argentina e Egito em termos de fragilidade fiscal e pode ter dificuldades de conter pressões por mais gastos, disse o BNP Paribas em relatório.

"Sempre existe uma pulga atrás da orelha com o fiscal, com gastos, e essas discussões causam um estresse no mercado. Mas acredito que com o debate das reformas e as promessas do governo de cumprimento do teto de gastos a tensão diminua", disse Alexandre Almeida, economista da CM Capital.

Almeida estima dólar de 4,90 reais ao fim do ano, pressionado pelo esperado aumento do diferencial de juros entre o Brasil e o restante do mundo e pela perspectiva de manutenção da oferta de dinheiro barato nos Estados Unidos.

MAIOR ALTA PARA JULHO DESDE 2015

Nesta sexta-feira, o dólar à vista fechou em alta de 2,53%, a 5,2082 reais na venda, depois de oscilar na sessão entre 5,215 reais (+2,67%) e 5,0765 reais (-0,06%).

O salto foi o mais expressivo desde 19 de julho (+2,59%). O patamar, o mais alto desde sexta-passada (5,2101 reais).

Na semana, o dólar teve variação negativa de 0,04%, depois de até quinta-feira recuar 2,51% --queda em boa parte ditada pela leitura de manutenção de estímulos nos Estados Unidos.

Em julho, a cotação subiu 4,66%. A alta mensal é a maior desde janeiro (+5,53%) e fez a moeda devolver quase toda a queda de junho (-4,77%). Para meses de julho, a valorização foi a mais forte desde 2015 (+10,16%). Em 2021, o dólar volta a acumular ganho de 0,32%.

Lá fora, a divisa subia 0,21%, tomando distância de mínimas em um mês atingidas na véspera. O dólar tinha nesta sessão alta generalizada contra rivais de maior risco e/ou de perfil semelhante ao real, que teve no dia o segundo pior desempenho global, melhor apenas que o sol peruano.

Mas o real ainda encontra fatores de suporte, segundo o Barclays, especialmente na perspectiva de juros mais altos. Em relatório sobre o cenário para mercados emergentes, Juan Prada, estrategista de câmbio do banco estrangeiro, disse que o BC acelerará o passo e elevará a Selic em 1 ponto percentual na próxima quarta-feira, a 5,25%.

"A restauração do 'carry' (retorno) e a recuperação da economia continuam a apoiar o real em um cenário positivo para moedas emergentes de juros altos", afirmou o estrategista.

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