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Crise causada por Bolsonaro vira fator de risco para estreias na Bolsa

Empresas passaram a ventilar temores envolvendo a não conclusão de reformas econômicas - Cris Faga/NurPhoto via Getty Images
Empresas passaram a ventilar temores envolvendo a não conclusão de reformas econômicas Imagem: Cris Faga/NurPhoto via Getty Images

Carolina Mandl *

Em São Paulo

14/09/2021 12h31Atualizada em 14/09/2021 18h57

Competição, pandemia e demanda setorial são desafios comuns para as empresas que planejam IPOs (ofertas públicas iniciais de ações), mas as companhias brasileiras começaram a sinalizar um novo risco: a confusão política causada pelo presidente Jair Bolsonaro.

As unidades brasileiras da fabricante de cosméticos Coty e da varejista Cencosud incluíram o risco de um impeachment presidencial em seus prospectos de ofertas de ações recentes, enquanto a Solar Bebidas - distribuidora da Coca-Cola Co - alertou sobre turbulências que podem anteceder as eleições presidenciais de 2022.

O confronto recente de Bolsonaro com o STF (Supremo Tribunal Federal) gera temores sobre a conclusão de reformas no país e ameaça a viabilidade de cerca de 25 IPOs que estão no forno.

Somados aos 44 IPOs já concluídos neste ano até agora, eles quebrariam o recorde brasileiro de IPOs de 2007.

Na semana passada, Bolsonaro abrandou a disputa com o STF, mas investidores, analistas e executivos de bancos de investimentos ainda questionam quão duradoura será a trégua.

O Ibovespa acumula queda de cerca de 1,5% este ano, um dos cinco índices globais em território negativo em 2021.

"As perspectivas para IPOs são mais desafiadoras. Uma potencial crise institucional pode reduzir as chances de aprovação das reformas necessárias para impulsionar o crescimento da economia", disse Gustavo Miranda, chefe de banco de investimento do Santander Brasil.

Mesmo antes das manifestações pró-Bolsonaro de 7 de setembro, os IPOs enfrentavam um momento mais difícil em meio ao crescimento econômico lento, alto desemprego e uma grave seca que pressiona os preços dos alimentos e energia.

A fabricante de cimento Intercement Brasil, por exemplo, decidiu cancelar uma oferta de ações em julho, uma vez que os investidores demandavam avaliações mais baixas, enquanto a produtora de alumínio Companhia Brasileira de Alumínio e outras empresas tiveram que reduzir o preço de ações para viabilizar o IPO.

"Temos aconselhado as empresas que estão planejando um IPO para que estejam prontas caso as coisas mudem nas próximas semanas", disse Roderick Greenlees, chefe de banco de investimento do Itaú BBA, descartando o fechamento completo dos mercados para ofertas de ações.

Até agora, neste mês, as únicas duas empresas que colocaram IPOs na rua são a rede de academias BlueFit e a empresa farmacêutica Althaia, ambas com fixação de preços programada para a próxima semana.

Lupa

O fraco desempenho dos recentes IPOs também está reduzindo o apetite de investidores por novas transações, disse Marcelo Millen, responsável pela área de renda variável de mercados de capitais do Citigroup no Brasil.

Quase metade das empresas listadas nos últimos dois meses estão negociando abaixo de seus preços de IPO.

Os gestores de ativos, enfrentando uma escassez de dinheiro novo para investir em ações adicionais, tornaram-se especialmente exigentes agora. Os fundos de ações e multimercados tiveram saídas líquidas em setembro, embora a maioria ainda mostre entradas para o ano.

"Estamos olhando para novos IPOs com uma lupa porque esperamos mais volatilidade com a aproximação das eleições de 2022", disse Sara Delfim, sócia da gestora Dahlia Capital, acrescentando que alguns setores podem ser capazes de se deslocar da turbulência.

Empresas brasileiras que consideram IPOs nos Estados Unidos, como a fintech Nubank, a empresa de pagamentos Conductor e a Hotmart, uma plataforma para criadores de conteúdo, podem resistir à volatilidade das eleições, já que o crescimento delas depende menos do ambiente macroeconômico.

* Com colaboração de Tatiana Bautzer e Paula Arend Laier

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