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Pagou-se preço muito caro no mercado para desvio fiscal que não foi tão grande, diz Campos Neto

19/11/2021 13h34

Por Marcela Ayres

BRASÍLIA (Reuters) -O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, elogiou nesta sexta-feira a melhoria de dados sobre o resultado primário do governo e avaliou que um preço "muito caro" foi pago para desvio fiscal que não foi tão grande, em referência ao drible na regra do teto de gastos que foi abraçado pelo governo.

Em palestra no Meeting News, organizado pelo Grupo Parlatório, ele afirmou que resultado primário de 2022 ainda será "bastante bom", com o governo Jair Bolsonaro entregando o mandato com nível de gastos inferior ao observado quando assumiu o país.

Campos Neto disse concordar com a necessidade de um arcabouço fiscal para que investidores consigam vislumbrar a trajetória de dívida à frente. Entretanto, minimizou o tamanho efetivo dos gastos que serão feitos com o flexibilização da regra do teto, até então encarada como única âncora fiscal crível do Brasil.

"Só gostaria de frisar que quando a gente olha no dia a dia o que tem sido feito, a parte fiscal, o que eu percebo é que, em termos de desorganização de preços de mercado, se pagou preço muito caro para um desvio que não foi tão grande", afirmou ele.

O prêmio de risco associado ao Brasil subiu após Planalto e Ministério da Economia defenderem a mudança na janela de correção da regra do teto de gastos para acomodação de mais gastos no ano eleitoral de 2022, alteração que foi incluída na PEC dos Precatórios. A proposta mira abertura de um espaço extra de 91,6 bilhões de reais no Orçamento do ano que vem.

A manobra foi necessária para atender determinação do presidente de que o Auxílio Brasil, programa substituto do Bolsa Família, pagasse um valor de 400 por família, ante média de 190 reais anteriormente. O aumento será feito em caráter extraordinário até o fim do ano que vem.

Após a investida, o BC elevou o ritmo do aperto na Selic a 1,5 ponto no fim de outubro, a 7,75% ao ano, indicando a intenção de repetir a dose em dezembro, indicando que os questionamentos em relação ao arcabouço fiscal elevaram o risco de desancoragem das expectativas de inflação, aumentando a assimetria altista no balanço de riscos.

A próxima e última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) ocorre em 7 e 8 de dezembro.

Segundo Campos Neto, há inquietude em relação ao novo pacote de ajuda aos mais vulneráveis e a seu financiamento.

Nesta sexta-feira, ele ressaltou que agora o governo precisa comunicar qual é o arcabouço fiscal que vai ser vigente, tendo transparência quanto à sua utilização.

Apesar da melhora "importante" nos dados fiscais, ele sublinhou que o mercado olha para frente.

"Estamos saindo da pandemia ainda com algum dinheiro sendo colocado em circulação", disse ele. "A pergunta que fica é quais são as reformas que vão ser feitas para fazer com que a gente mude de patamar", complementou.

De acordo com o presidente do BC, o questionamento não é sobre o que foi feito no passado, mas sobre o que país consegue tocar adiante para ter crescimento estrutural mais alto.

"Se eu tiver uma taxa de juros de 12%-13% com crescimento de 1%, temos claramente trajetória explosiva (da dívida)."

INFLAÇÃO E ATIVIDADE

No evento, Campos Neto também adiantou que a autoridade monetária deverá rever para baixo sua projeção para a atividade econômica em 2022, após divulgar em setembro que esperava crescimento de 2,1%.

"Provavelmente será revisto para baixo nessa próxima reunião do Copom, no Relatório de Inflação", disse.

A declaração vem logo após o Ministério da Economia ter divulgado que esperava justamente uma alta de 2,1% para o Produto Interno Bruto (PIB) no próximo ano, ante expansão de 2,5% projetada anteriormente.

No boletim Focus mais recente, a expectativa dos agentes econômicos é bem mais modesta, de alta de 0,93%.

Campos Neto avaliou que o aperto nos juros básicos que precisa ser feito para combater a inflação está afetando para baixo as contas para a atividade, mas disse acreditar que há "muito" no movimento que decorre da incertezas sobre o arcabouço fiscal e sobre a viabilidade de reformas até o fim do governo.

Sobre a inflação, ele disse que houve impacto forte nos preços pela elevação dos alimentos num primeiro momento e, depois, pelo choque de energia elétrica e combustíveis. Os núcleos estão bem acima da meta, sendo que o aumento mais recente dos preços está "mais espalhado" na economia.

Campos Neto reconheceu ainda que a expectativa de inflação para 2022 está "saindo um pouco da meta", com aceleração recente desse movimento, mas reforçou que o BC tem atuado elevando as taxas de juros.

A meta central de inflação de 2022 é de 3,5% pelo IPCA, sendo que o mercado já projeta alta de 4,79%. O último cálculo do BC, de outubro, era de inflação de 4,1% no ano que vem.

Embora o BC esteja olhando o tema da inércia inflacionária, não identificou grande aumento no processo ao se debruçar sobre cadeias de preço, disse o presidente da autarquia.

Ele chamou atenção, por outro lado, para a reprecificação das expectativas de inflação para cima e para o papel da inércia nesse contexto, como se os agentes estivessem ajustando seu balanço de riscos para um processo de inércia de expectativa maior.

"Isso gera uma desancoragem das expectativas para frente. E é muito importante nesse momento você ser proativo o suficiente para que esse movimento gere credibilidade para evitar que isso de fato se transforme numa memória de indexação que, de fato, possa contaminar a cadeia de preços de forma mais relevante", afirmou.

(Por Marcela Ayres; Edição de Camila Moreira e Maria Pia Palermo)

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