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Dólar sobe mais de 7% em ano nublado por temores fiscais; eleições e Fed são riscos para 2022

30/12/2021 17h15

Por Luana Maria Benedito

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar despencou frente ao real nesta quinta-feira, mas fechou o ano--marcado pela deterioração da credibilidade fiscal doméstica-- em alta de mais de 7% contra o real, mirando um 2022 de muitas incertezas à medida que a corrida eleitoral brasileira se aproxima e o banco central norte-americano se prepara para elevar os juros.

O dólar à vista fechou o último pregão de 2021 em queda de 2,11%, a 5,5735 reais na venda, sua perda diária mais acentuada desde 24 de agosto (-2,25%), o que investidores atribuíram a dados fiscais melhores do que o esperado e à sanção do projeto de lei de modernização da regulação cambial pelo presidente Jair Bolsonaro, em meio ainda a volumes reduzidos de negociação.

Apesar das perdas desta sessão, a moeda norte-americana à vista registrou ganho de 7,36% em 12 meses, seu quinto ano consecutivo de valorização. Embora expressivo, o salto deste ano foi bem mais comportado do que o registrado em 2020, quando a moeda disparou 29,4%.

Para Felipe Steiman, gerente comercial da B&T Câmbio, boa parte da valorização anual do dólar contra o real refletiu a deterioração da credibilidade fiscal do Brasil, uma dor de cabeça para os mercados locais que promete se estender para 2022.

A regra do teto de gastos --importante âncora fiscal do país-- foi alterada no início deste mês com a promulgação da PEC dos Precatórios, após meses de pressão do governo por mais gastos com ajuda financeira à população em 2022, ano eleitoral.

"O investidor olhava para cá e via um Congresso 'parado' durante meses para aprovar uma PEC para abrir espaço no Orçamento para um auxílio que ninguém sabia de quanto ia ser, e as reformas estruturais que realmente precisam acontecer não foram feitas", disse Steiman em entrevista à Reuters.

"Foi um cenário complicado, e eu digo me colocando na cabeça de um investidor estrangeiro, uma pessoa que pensa em trazer dólares para cá."

Mesmo com a PEC dos Precatórios já aprovada e o Auxílio Brasil --o novo programa de transferência de renda do governo-- definido em 400 reais por família, a falta de previsibilidade continua na frente fiscal.

O Executivo está sendo pressionado agora a destinar recursos para reajustes salariais de funcionários públicos em 2022, após várias categorias de servidores anunciarem paralisações e entregas de cargos em protesto à decisão do governo de conceder aumentos no próximo ano apenas a categorias vinculadas às forças policiais.

"O maior desafio para o real (em 2022) será, localmente, a credibilidade fiscal e as incertezas advindas do cenário político com eleições presidenciais", disse André Digiacomo, estrategista de juros e moedas para América Latina do BNP Paribas.

Segundo ele, as incertezas do cenário político-fiscal foram as responsáveis pela alta de 13,6% do dólar em relação à mínima deste ano, de 4,9062 reais, atingida no final de julho, ofuscando o apoio ao real oferecido pelo ciclo de aperto monetário do Banco Central, iniciado em março passado.

RISCOS VERSUS SELIC

A taxa básica de juros está atualmente em 9,25% ao ano, após o BC elevá-la em 1,5 ponto percentual em seu último encontro de política monetária, no início deste mês, e a mais recente pesquisa semanal Focus espera que a Selic chegue a 11,50% em 2022.

"A alta dos juros deveria atrair os investidores estrangeiros e valorizar a nossa moeda", disse a Órama Investimentos em relatório de perspectivas para 2022 divulgado nesta quinta-feira, referindo-se à maior rentabilidade no mercado local com o aumento dos custos dos empréstimos.

"Contudo, os ruídos políticos os mantiveram afastados, e a procura pelo dólar como porto seguro fez nossa divisa enfraquecer ainda mais."

Digiacomo, do BNP, concorda que o maior diferencial de juros entre o Brasil e economias avançadas passou a ser fator mais secundário em meio à escalada de ruídos domésticos, mas acredita que os patamares elevados da Selic podem proteger o real de possíveis efeitos adversos do exterior.

O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, projetou em seu último encontro de política monetária, mais cedo neste mês, que promoverá três aumentos de 0,25 ponto percentual nos juros básicos em 2022, "afetando negativamente moedas de mercados emergentes", segundo o estrategista.

"Entretanto, acreditamos que as regiões onde os bancos centrais já começaram a agir mais antecipadamente e estão com juros locais em patamares mais altos deverão sofrer menos frente ao ajuste monetário entregue pelo Fed ano que vem."

ELEIÇÕES

Os brasileiros irão às urnas escolher um novo presidente apenas no quarto trimestre de 2022, mas as eleições têm rondado o radar de agentes do mercado há meses.

"Na história brasileira recente, as cotações do dólar são muito afetadas em períodos eleitorais. Nossa visão é que não será diferente desta vez, a moeda americana deverá oscilar entre R$ 5,50 e R$ 5,70, com eventuais exageros para cima", afirmaram os especialistas da Órama.

Já Digiacomo, do BNP Paribas, disse que "a proximidade das eleições aumenta a probabilidade de ações políticas do atual governo que deteriorem ainda mais o cenário fiscal do país, o que também seria negativo para o real".

Em sua mais recente revisão de cenário, o credor francês estimou o dólar a 5,60 reais ao final de 2022 --mesma cotação prevista no último boletim Focus--, mas alertou que a moeda pode chegar a patamares de 5,80 a 5,90 durante o ano.

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