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Altas de juros mais dramáticas podem ser necessárias para domar inflação, dizem autoridades do Fed

18/03/2022 15h52

Por Howard Schneider e Ann Saphir

(Reuters) - Dois dos formuladores de política monetária mais "hawkish" (duros no combate à alta dos preços) do Federal Reserve disseram nesta sexta-feira que o banco central dos Estados Unidos precisa tomar medidas mais agressivas para domar a inflação, e um terceiro --que há apenas seis meses era o membro mais "dovish" (leniente em relação à inflação) do Fed-- disse estar aberto a essa possibilidade.

Ainda pode ser que o banco central só precise aumentar os juros "modestamente" acima do neutro, afirmou o presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, em um artigo publicado no site do banco regional do Fed, no qual a autoridade antes "dovish" disse querer subir a taxa de juros para 1,75% a 2% este ano.

No entanto, afirmou ele, a economia pode ter mudado para um "equilíbrio de alta pressão e alta inflação", o que exigiria que o banco central "aja de forma mais agressiva e leve a política monetária a uma postura contracionista, a fim de levar a economia de volta a um equilíbrio consistente com nossa meta de inflação de 2%."

O caminho que o Fed precisa seguir dependerá de como serão os dados divulgados ao longo do ano, afirmou.

Autoridades do Fed elevaram a taxa de juros nesta semana pela primeira vez em três anos e sinalizaram mais aumentos à frente conforme o banco central remove o suporte que forneceu durante a pandemia de coronavírus e trabalha para domar a inflação, numa máxima em 40 anos.

A maioria dos formuladores de política monetária do Fed vê a taxa de juros subindo no próximo ano a um nível que restringiria o crescimento, mostram projeções, mas exatamente com que rapidez ou o quanto os juros devem subir é tema de debate.

Mais cedo, o diretor do Fed Chris Waller disse que os riscos econômicos em torno da guerra da Rússia na Ucrânia o levaram a votar a favor de um aumento de 0,25 ponto percentual na reunião desta semana, em vez de discordar das demais autoridades em favor de elevação maior de 0,5 ponto, que ele vinha defendendo.

“Os dados estão gritando para nós irmos com 50 (pontos-base), mas os acontecimentos geopolíticos diziam para seguir em frente com cautela”, disse Waller à CNBC. Mas ele afirmou que seria a favor de uma série de ajustes de 0,5 ponto percentual nos próximos meses para antecipar o aperto da política monetária e ter um impacto mais rápido sobre a inflação.

O presidente do Fed de St. Louis, James Bullard, que discordou do restante das autoridades sobre a decisão desta semana, defendendo em vez disso uma elevação de 0,5 ponto percentual, disse nesta sexta-feira que os formuladores de política monetária deveriam aumentar a taxa de empréstimos "overnight" do Fed para mais de 3% este ano para domar a inflação elevada. Após a decisão de quarta-feira, a taxa-alvo do Fed agora é de 0,25% a 0,50%.

Ele disse que não apenas defendeu um aumento de 0,5 ponto nesta semana, mas também altas de juros num ritmo que exigiria ajustes de 0,5 ponto na maioria das reuniões restantes do Fed deste ano.

"A economia dos EUA provou ser especialmente resiliente" diante da pandemia e dos riscos geopolíticos, afirmou Bullard num comunicado em que explicou sua dissidência.

Com a inflação acima de 6% segundo um indicador-chave, o triplo da meta de 2% do Fed, Bullard disse que mais ações do banco central são necessárias "para gerenciar com prudência a situação macroeconômica dos EUA".

Embora a maioria das autoridades do Fed preveja mais seis elevações de 0,25 ponto percentual neste ano, sete dos atuais 16 formuladores de política monetária do banco central, como Bullard, acham que a taxa de juros deve subir ainda mais até o final do ano.

Para compensar a inflação mais rapidamente, Waller disse que o Fed deve aprovar esses aumentos nos próximos meses. "Eu realmente sou a favor de adiantar nossos ajustes de juros... Apenas fazê-lo ao invés de só prometer", afirmou ele.

Embora não tenha especificado onde gostaria de ver a meta das fed funds (juro básico) ao fim do ano, Waller disse que prefere ficar acima do nível de 2% a 2,25%, que vê como neutro para a economia.

A mudança dramática de Kashkari em suas perspectivas de política monetária --em setembro, ele achava que a taxa de juros deveria ficar perto de zero durante 2022-- encapsula a completa guinada do Fed de uma política monetária adotada para amortecer a crise da pandemia para uma postura de combate à inflação.

Em evento do Conselho de Petróleo da Dakota do Norte, Kashkari afirmou ser favorável a começar a reduzir o balanço patrimonial do banco central no próximo mês em um ritmo duas vezes mais rápido que o usado pelo Fed na última vez que encolheu sua carteira de ativos.

Ele disse ainda achar possível que a inflação seja causada principalmente por um desequilíbrio de oferta e demanda que se corrigirá, permitindo que o Fed suba a taxa de juros apenas um pouco acima dos 2% que ele vê como um nível neutro.