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Taxa zero do etanol importado tem pouco impacto, mas indústria do Brasil protesta

A isenção de tarifas de importação para etanol, açúcar e óleo de soja é avaliada neste primeiro momento como inócua para negócios - Por Roberto Samora
A isenção de tarifas de importação para etanol, açúcar e óleo de soja é avaliada neste primeiro momento como inócua para negócios Imagem: Por Roberto Samora

Roberto Samora

22/03/2022 12h11

Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) - A isenção de tarifa de importação anunciada na véspera pelo governo brasileiro para etanol, açúcar e óleo de soja é avaliada neste primeiro momento como inócua para negócios e teria motivações mais políticas, com o Brasil buscando alternativas para uma alta nos preços das commodities e efeitos da guerra na Ucrânia, segundo analistas.

Mas associações de indústrias locais atingidas pela medida, inclusive a do café torrado e moído, protestaram contra o movimento do governo. Representantes do setor de óleo de soja destacaram que os preços das commodities são globais, e que a produção brasileira vai crescer este ano com aumento do processamento, apesar da quebra de safra.

No caso do etanol importado, o cálculo da arbitragem, mesmo com tarifa zero, indica que o produto importado ainda chegaria 8% a 10% acima do preço doméstico. E a entrada da safra de cana do centro-sul em abril tende a pressionar as cotações no país, limitando ainda mais qualquer janela para compras externas.

"Estamos às vésperas do início da nova safra, em que o preço vai cair, a nossa estimativa é que a arbitragem fique fechada mesmo com tarifa zero", afirmou à Reuters o presidente da Datagro, Plinio Nastari, acrescentando que o etanol já é mais competitivo que a gasolina nos principais Estados produtores do Brasil.

No anúncio da isenção da tarifa, o secretário de Comércio Exterior, Lucas Ferraz, disse que estimativas apontam que a redução de 18% a zero da tarifa do etanol poderia reduzir em 20 centavos o preço do litro da gasolina na bomba.

Mas Nastari apontou ainda outras dificuldades para efetivação de negócios, como fatores sazonais nos Estados Unidos, o país que teria etanol para exportar ao Brasil.

"Tem o início da demanda de verão nos Estados Unidos, aumenta o consumo de gasolina e os preços sobem, com o aumento da gasolina, o preço do etanol também sobe. Além do efeito da guerra da Ucrânia (nos preços de combustíveis), tem um fator sazonal que é o período de verão dos EUA", acrescentou Nastari.

O analista Júlio Maria Borges, da JOB, concorda. Segundo ele, o etanol dos EUA "está caro". "O imposto zerado não deve ter efeito no curto prazo", disse ele, ressaltando que a janela de importação está fechada.

Para Nastari, da Datagro, a tendência é que a competitividade do etanol brasileiro frente à gasolina aumente nas próximas semanas, com queda do preço ao produtor, com a chegada da safra.

"Aí a gente tem que contar que essa queda seja transmitida ao consumidores", afirmou.

Sobre impacto da isenção de tarifa para importação de açúcar, o analista disse que a medida também não deve ter efeitos práticos, uma vez que o Brasil, maior exportador global, é o país com menor custo do mundo.

O Fórum Nacional Sucroenergético, que representa a agroindústria produtora de etanol e açúcar em 15 Estados, disse que sua defesa do livre mercado é "constante", mas se mostra contrário à isenção da tarifa do etanol "sem que haja a devida contrapartida para nossas exportações de açúcar, cuja importação é fortemente taxada pelos americanos".

Segundo o fórum, a entrada de produto estrangeiro poderia afetar o planejamento das unidades de produção no início da safra.

ÓLEO DE SOJA

O governo ainda zerou a taxa para café moído (de alíquota de 9%), margarina (10,8%), queijo (28%), macarrão (14,4%), açúcar (16%) e óleo de soja (9%), uma vez que considera que esses itens estão entre os componentes que mais pesam no INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor).

No caso do óleo de soja, o impacto da tarifa zero para impulsionar importações parece ser "muito pequeno", disse o analista da Safras & Mercado, Luiz Fernando Roque.

Ele avaliou que não há um problema de oferta --embora os preços do óleo de soja estejam mais altos--, porque o Brasil está adotando uma mistura menor de biodiesel.

"Já tem demanda menor por óleo e pode até diminuir exportação de óleo, se necessário. Não acredito que essa abertura vai trazer grande importação de óleo", disse ele, lembrando que a Argentina, maior exportadora global, já negocia ao Brasil com tarifa zero por ser parceira do Mercosul.

Ele disse que eventuais compras dos EUA dependeriam também de a conta fechar.

"Acho que é medida mais política, porque o preço do óleo está subindo muito... no farelo, uma redução da taxa seria mais interessante", acrescentou.

Durante evento da Safras & Mercado nesta terça-feira, Roque lembrou que a oferta de soja deverá terminar o ano em níveis historicamente baixos no Brasil, o que poderia até eventualmente resultar em importações do grão norte-americano, visto que a colheita também quebrou em função do clima na Argentina e Paraguai.

Mas esse movimento ocorreria em um segundo momento, não agora durante o processo de colheita no Brasil.

Segundo a Abiove, que representa a indústria de soja, a decisão do governo visa gerar uma possível redução do preço para o consumidor. Mas "não há falta de óleo de soja no mercado interno e os preços estão alinhados com a paridade internacional". A associação mencionou ainda que a produção de óleo de soja deve atingir 9,7 milhões de toneladas, volume superior ao registrado no ciclo anterior.

Já a indústria de café --produto que o Brasil é líder global na produção e exportação-- avaliou a medida como "preocupante", segundo comentário do diretor-executivo da Abic, Celírio Inácio. Ele disse que é preciso cuidado para que o princípio da isonomia comercial não seja desalinhado, uma vez que o setor local continuará pagando seus tributos.

(Por Roberto Samora)