PUBLICIDADE
IPCA
1,06 Abr.2022
Topo

Dólar tem maior queda trimestral desde 2009 e real lidera ganhos globais

31/03/2022 17h10

Por Luana Maria Benedito

SÃO PAULO (Reuters) -O dólar caiu nesta quinta-feira, fechando março com a maior desvalorização mensal desde outubro de 2018 e marcando seu pior trimestre em mais de 13 anos contra o real, cujo desempenho em 2022 continua superando o de todas as outras moedas globais.

Com a cotação de fechamento de 4,7628 reais desta quinta-feira, as perdas do dólar em março totalizaram 7,63%, as mais acentuadas desde outubro de 2018 (-7,79%), levando a desvalorização acumulada no primeiro trimestre a 14,55%. Isso, por sua vez, representa a baixa trimestral mais intensa desde o período de abril a junho de 2009 (-15,81%).

O real "é o claro destaque positivo para o trimestre" entre as principais moedas do mundo, disse em postagem no Twitter Robin Brooks, economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês). "Isso se deve ao aumento dos preços das commodities, mas também a uma recuperação há muito atrasada ante uma grande subvalorização."

Os custos do petróleo e produtos agrícolas dispararam desde o final de fevereiro, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em meio a temores de restrição da oferta. Nesse contexto, moedas de países exportadores, particularmente da América Latina, têm sido beneficiadas, já que a região é vista como alternativa no fornecimento de commodities.

Além do real, moedas como pesos chileno, colombiano e mexicano e sol peruano acumulam ganhos acentuados --de 3% a 9%-- no ano contra a divisa norte-americana. Sinal da resiliência dos ativos latino-americanos, as divisas mantiveram ganhos apesar da força internacional do dólar, cujo índice ante uma cesta de seis rivais fortes estava a caminho de marcar alta de quase 3% no acumulado do primeiro trimestre.

O real surgiu como opção especialmente atraente para investidores estrangeiros por causa do alto patamar dos juros. Com a Selic em 11,75% ao ano, o Brasil tem uma das maiores taxas de juros nominais do mundo, perdendo apenas para Turquia, Rússia e Argentina, países considerados de alto risco.

"O BC (do Brasil) vem tentando controlar a inflação desde o ano passado, enquanto os EUA ainda não estão aumentando os juros como deveriam, na minha opinião", disse à Reuters Anilson Moretti, chefe de câmbio da HCI Invest. "Isso atrai investimento internacional; faz com que, apesar da inflação alta no mundo inteiro, aqui seu dinheiro renda."

Atualmente, os custos dos empréstimos nos Estados Unidos estão num intervalo entre 0,25% e 0,5%, após o Federal Reserve ter elevado sua taxa básica em 0,25 ponto percentual neste mês. Para as próximas reuniões do Fed, participantes do mercado esperam um endurecimento do aperto monetário, com a adoção de ajustes de 0,5 ponto, à medida que a inflação --antes vista como temporária-- continua acelerando.

Nesta quinta-feira, a inflação norte-americana em 12 meses medida pelo índice PCE, indicador favorito do Fed, subiu a 6,4%, taxa mais elevada desde 1982.

Além do amplo diferencial de juros entre Brasil e EUA, Moretti citou um fluxo constante de recursos estrangeiros para o mercado de ações local, com oportunidades atraentes na bolsa, como fator adicional de impulso para o real. De acordo com dados preliminares desta quinta, o Ibovespa acumula ganho de 14,5% no ano, acima dos 120 mil pontos, marcando seu melhor desempenho trimestral desde 2020.

Até abril, o dólar --que tem rompido patamares técnicos importantes de maneira sucessiva-- pode cair ainda mais e testar níveis em torno dos 4,68 a 4,65 reais, avaliou Moretti. Como teto para valorização da moeda no curto prazo, ele enxerga a faixa de 4,95 a 5,00 reais.

Nesta quinta-feira, o dólar caiu 0,47%. A divisa oscilou entre 4,8141 reais na cotação máxima (+0,60%) e 4,7230 reais na mínima do dia (-1,31%). Investidores comentaram que o principal motor das oscilações de mercado no pregão foi a disputa pela formação da Ptax de fim de mês e trimestre.

A Ptax é uma taxa de câmbio calculada pelo Banco Central, que serve de referência para liquidação de derivativos. No fim de cada mês, agentes financeiros costumam tentar direcioná-la para níveis mais convenientes às suas posições. Nesta quinta, apostas na baixa da moeda prevaleceram.

Na B3, às 17:18 (de Brasília), o contrato de dólar futuro de primeiro vencimento caía 0,72%, a 4,7375 reais.

(Edição de Isabel Versiani)