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Dólar inverte sinal e perde mais de 1% contra real após Fed descartar ajuste de 0,75 p.p. nos juros

04/05/2022 17h11

Por Luana Maria Benedito

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar teve uma reviravolta na tarde desta quarta-feira e fechou em queda de mais de 1% contra o real, quase 14 centavos abaixo dos maiores patamares da sessão, depois que o chefe do banco central norte-americano jogou um balde de água fria nas apostas mais agressivas do mercado sobre os próximos passos de política monetária do Federal Reserve.

Em coletiva de imprensa desta quarta-feira, realizada após o Fed elevar sua taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual, o chair da instituição, Jerome Powell, afirmou que as autoridades de política monetária não estão considerando intensificar ainda mais a dose de aperto em suas próximas reuniões, para 0,75 ponto percentual, como temiam alguns agentes financeiros.

Sua fala aliviou instantaneamente a maioria dos mercados de ativos arriscados do mundo, que tendem a sofrer em ambientes menos estimulativos e de liquidez reduzida nos Estados Unidos.

No mercado de câmbio local, o dólar --que saltou 1,47% no pico da sessão, a 5,0377 reais, nos momentos iniciais da fala de Powell, por volta de 15h30 (de Brasília)-- despencou em questão de minutos após a sinalização do banqueiro central, indo abaixo de 4,90 reais às 15h55, queda de mais de 1%.

A divisa norte-americana à vista manteve as perdas pelo resto da sessão --chegando a tocar 4,8930 reais na mínima do dia, baixa de 1,44%-- e fechou em queda de 1,26%, a 4,9020 reais, 13,6 centavos abaixo do ponto mais alto do pregão.

Nesse patamar, o dólar está extremamente próximo de voltar a ficar abaixo de um nível técnico importante, sua média móvel linear de 50 dias (4,9006 reais), pela primeira vez desde o dia 25 de abril.

A reversão dos ganhos acompanhou uma forte aceleração do recuo do índice do dólar no exterior após Powell aparentemente fechar a porta para ajuste de 0,75 ponto percentual nos juros, em linha com a baixa dos rendimentos da dívida soberana norte-americana. Os mercados de ações, por sua vez, aproveitaram a notícia, com os principais índices de Wall Street fechando em alta de cerca de 3% cada e o Ibovespa ganhando mais de 1,5%.

"O Fed começa o discurso 'hawk', mas entrega as pombas no final", disse em post no Twitter Sérgio Machado, sócio e gestor da Trópico, usando dois termos comumente utilizados no jargão da política monetária: "hawk" (falcão), usado para descrever posicionamento mais duro no combate à inflação, e "dove" (pomba), que remete a postura mais leniente, flexível.

Dessa forma, o "mercado vai do inferno ao paraíso, dólar vem de mais de 1% de alta para mais de 1% de baixa. Vamos aproveitar enquanto dura", completou o gestor.

Gustavo Arruda, estrategista da RB Investimentos, disse que, apesar da sinalização de que um ajuste de 0,75 ponto nos juros está fora de cogitação por ora, o discurso de Powell indica que os custos dos empréstimos irão para um patamar mais elevado do que está sendo precificado atualmente pelos mercados, dada a preocupação do chair do Fed com a aceleração da inflação.

A decisão de política monetária desta quarta-feira ainda representou uma guinada mais agressiva do Fed no combate à alta dos preços, pois, em março, o banco havia elevado os juros em apenas 0,25 ponto percentual. O endurecimento já esperado de sua postura vem num momento em que a inflação norte-americana roda às taxas mais altas em 40 anos.

A perspectiva de custos de empréstimos mais altos nos EUA tende a beneficiar o dólar; na semana passada, por exemplo, essas apostas impulsionaram seu índice contra uma cesta de pares fortes ao maior patamar em mais de 20 anos. O mercado local também tem sentido esse efeito, e a moeda norte-americana interrompeu uma sequência de várias perdas mensais consecutivas em abril, quando saltou 3,8% frente ao real.

O dólar ainda cai 12% no acumulado de 2022, no entanto, depois de registrar seu pior desempenho trimestral desde meados de 2009 no período de janeiro a março deste ano. Boa parte dessas perdas foi alimentada pelo amplo diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, já que isso torna a rentável dívida local atraente para agentes estrangeiros.

A Selic saiu de uma mínima histórica de 2% atingida durante a pandemia e está atualmente em 11,75%. Nesta quarta-feira, após o fechamento dos mercados, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve anunciar aumento de 1 ponto percentual na taxa, a 12,75%.

Com um ajuste dessa magnitude praticamente certo, "a dúvida fica para os próximos passos de política monetária" do BC, escreveu em blog Dan Kawa, diretor de investimentos da TAG Investimentos. "Creio que o BCB deixará a porta aberta (para mais altas de juros) e se dará flexibilidade neste sentido, diante das surpresas ainda negativas de inflação."

Na B3, às 17:09 (de Brasília), o contrato de dólar futuro de primeiro vencimento caía 1,11%, a 4,9475 reais.