Ibovespa tem queda discreta com expectativa sobre Selic atenuando exterior negativo

Por Paula Arend Laier

SÃO PAULO (Reuters) - O Ibovespa fechou com um leve recuo nesta quarta-feira, apesar de perdas expressivas em Wall Street após corte da nota de crédito dos Estados Unidos, com agentes financeiros voltando as atenções para o Banco Central, que pode começar um amplamente esperado processo de flexibilização da Selic.

A temporada de resultados também continuou no radar, com Cielo despencando mais de 9%, mesmo após reportar lucro líquido de 708,5 milhões de reais no segundo trimestre deste ano, alta de 11,5% ano a ano.

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa caiu 0,32 %, a 120.858,72 pontos. No pior momento do dia, chegou a recuar a 119.797,92 pontos.

O volume financeiro somou 20,8 bilhões de reais, de uma média diária do ano de 25,75 bilhões de reais.

O Comitê de Política Monetária (Copom) tem mantido a taxa básica de juros em 13,75% ao ano desde meados do segundo semestre de 2022, quando encerrou um movimento que tirou a Selic da mínima histórica de 2% -- atingida em agosto de 2020, quando a economia sentia os efeitos da pandemia de Covid-19.

Pesquisa da Reuters com 46 economistas publicada na semana passada mostrou que 36 esperam que o Copom corte os juros em 0,25 ponto percentual, enquanto dez aguardam uma queda de 0,50 ponto. Na curva de DI, também não há consenso sobre o resultado da reunião, mas as apostas em redução de 0,25 ponto voltaram a ser majoritárias.

A decisão será conhecida ainda nesta quarta-feira.

Na visão de estrategistas do JPMorgan, uma redução de 0,50 ponto poderia dar um impulso ao mercado, enquanto uma eventual queda em caso de um corte de 0,25 ponto seria uma oportunidade de compra, conforme relatório a clientes nesta quarta-feira, ressaltando que a equipe de economia do banco espera diminuição de 0,25 ponto.

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"Nos próximos meses, o ritmo da flexibilização, juntamente com a magnitude total do ciclo, continuará a guiar os movimentos do mercado, desde que haja uma sensação de que há uma oportunidade de 're-rating' à frente", afirmam Emy Shayo e equipe no relatório.

Eles estimam que o Ibovespa pode avançar para perto de 135 mil pontos até o final de 2023 apenas com base na expansão de múltiplos impulsionada por juros mais baixos. "Além desse nível, será preciso ver o crescimento dos lucros e/ou a compressão do risco para que o mercado se expanda ainda mais."

A bolsa brasileira já vem precificando há meses a perspectiva de corte da Selic no segundo semestre, apoiada, entre outros fatores, em uma melhora relevante em dados de inflação corrente e projeções, além de avanços em pautas no Congresso, incluindo a nova regra fiscal e a reforma tributária.

O Ibovespa contabilizou em julho o quarto mês seguido de alta, e acumula até esta quarta-feira um ganho de 10,1% no ano. O capital externo voltou para as ações na B3, com as compras por estrangeiros superando as vendas em junho e julho, ampliando o fluxo em 2023 para mais de 24 bilhões de reais, sem incluir IPOs e follow-ons.

Ainda assim, o pregão paulista não passou ileso às quedas relevantes em Wall Street, chegando a perder o patamar dos 120 mil pontos momentaneamente. Em Nova York, o S&P 500 cedeu mais de 1% após a Fitch rebaixar o rating dos EUA para AA+, de AAA, citando a deterioração fiscal nos próximos três anos.

Para analistas do Itaú BBA, o Ibovespa pode engatar um novo rali nos próximos dias.

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"Depois de começar a semana apontando para a máxima da semana anterior, o índice deu uma pausa, como um sinal de espera sobre os próximos eventos. E hoje é dia de decisão de juros por aqui. Esse será o 'gatilho' que os investidores estão esperando para superar os 123.000 pontos?", afirmaram em relatório.

"O fato é que se o índice superar essa região, sob o olhar da análise gráfica, podemos retomar o cenário positivo em busca de 126.600 e da máxima histórica em 131.200 pontos."

DESTAQUES

- CIELO ON recuou 9,15%, a 4,27 reais, mesmo após reportar lucro líquido de 708,5 milhões de reais no segundo trimestre deste ano, alta de 11,5% ano a ano. Analistas do Bank of America destacaram que o trimestre foi marcado por competição mais forte, com a receita desacelerando em razão da contração de volume e 'yield' de receita mais fraco do que o esperado. Ao comentar o resultado, o CEO da Cielo anunciou plano para ampliar sua presença no varejo, o que vai envolver a contratação de até 1.000 funcionários adicionais para sua força comercial nos próximos meses.

- VALE ON caiu 1,63%, a 67,09 reais, conforme os futuros do minério de ferro recuaram na Ásia. O contrato mais negociado em Dalian, na China, cederam 1,07%, enquanto o minério de ferro de referência em Cingapura perdeu 1,35%, para 104,6 dólares a tonelada. No setor de mineração e siderurgia, CSN ON caiu 2,92% antes da divulgação do balanço do segundo trimestre nesta quarta-feira, após o fechamento do mercado.

- PETROBRAS PN recuou 0,23%, a 30,53 reais, distante da mínimas do dia, quando chegou a ser negociada a 29,8 reais, na esteira da queda dos preços do petróleo no exterior. A petrolífera divulga na quinta-feira, após o fechamento da bolsa, seu resultado do segundo trimestre.

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- BRADESCO PN terminou com acréscimo de 0,4%, a 16,67 reais, tendo no radar o resultado do segundo trimestre nesta semana, enquanto ITAÚ UNIBANCO PN cedeu 0,31%, em dia sem sinal comum para bancos no Ibovespa.

- JBS ON subiu 2,52%, a 19,5 reais, engatando a quarta alta seguida, conforme segue suscetível aos planos anunciados no mês passado pela companhia de listar suas ações nos EUA. Analistas do BTG Pactual, porém, esperam que a companhia apresente resultados mais fracos em todas as suas unidades de negócios no segundo trimestre ano a ano.

- COPEL PNB avançou 1,42%, a 8,55 reais, após o plenário do Tribunal de Contas da União (TCU) aprovar nesta quarta-feira o valor de 3,72 bilhões de reais a ser pago pela companhia elétrica paranaense pela renovação das concessões de três usinas hidrelétricas. O aval da Corte permite que a companhia prossiga com a oferta de ações lançada na semana passada que culminará na privatização da Copel.

- COGNA ON fechou em alta de 3,31%, a 3,43 reais, em meio a perspectivas favoráveis para o resultado do segundo trimestre, que será conhecido na próxima semana. Analistas do Itaú BBA esperam novo crescimento na receita líquida, bem como manutenção da tendência positiva em termos de rentabilidade. No setor, YDUQS ON teve variação positiva de 0,09%.

- MAGAZINE LUIZA ON caiu 2,92%, a 3,33 reais, enquanto VIA ON cedeu 1,89%, a 2,08. Analistas do Citi atualizaram o modelo para a Via antes da divulgação do balanço do segundo trimestre, adotando uma abordagem mais conservadora quanto ao crescimento online, e incorporaram maiores despesas financeiras. Eles reiteraram recomendação neutra/alto risco para as ações, mas cortaram o preço-alvo de 2,40 para 2,30 reais.

- AZUL PN perdeu 1,64%, a 17,42 reais, tendo de pano de fundo anúncio da Latam Airlines de que realizou nesta quarta-feira o primeiro voo associado à sua joint venture com a norte-americana Delta no mercado brasileiro, inaugurando a rota entre o aeroporto de Guarulhos (SP) e Los Angeles (EUA). Além disso, a Petrobras elevou em 4,3% o preço médio do querosene de aviação (QAV) para as distribuidoras desde a terça-feira. GOL PN terminou com alta de 0,42%.

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