Governo Lula busca despolitizar desfile do 7 de setembro, mas monitora distúrbios

Por Ricardo Brito

BRASÍLIA (Reuters) - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trabalha para reduzir a politização durante o desfile em Brasília no feriado da Independência em 7 de setembro, mas tem preparado um forte esquema de segurança para evitar eventuais atos violentos e manifestações antidemocráticas após as invasões das sedes dos Poderes por bolsonaristas em 8 de janeiro.

O Executivo e aliados querem transmitir a mensagem de que a data é uma celebração nacional e deve ser usada para unir o país, buscando, inclusive, resgatar o verde e amarelo, as cores da bandeira que se tornaram fortemente identificadas com os apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.

"Vamos resgatar os valores da República, os símbolos oficiais, como a bandeira do Brasil e o hino nacional, que sempre foram de todos nós e que contam nossa história. Exaltar esses símbolos nacionais é fundamental para reavivar o que está na Constituição brasileira”, disse o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Paulo Pimenta.

As comemorações ocorrem em um momento delicado da relação entre o governo e os militares, com o avanço de investigações que envolvem a suposta participação ou omissão deles em conter as ações violentas de 8 de janeiro e até apoiar iniciativas ilegais do governo passado.

Em entrevista na terça, Lula deu um sinal da desconfiança que nutre com as Forças Armadas ao dizer que elas teriam se apoderado do feriado da independência e que a data é para toda sociedade.

“O que aconteceu no Brasil é que, como nós tivemos, durante 23 anos, um regime autoritário, a verdade é que os militares se apoderaram do 7 de setembro, (que) deixou de ser uma coisa da sociedade como um todo", disse.

"O que nós estamos querendo fazer agora, com a participação do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, é voltar a fazer um 7 de setembro de todos... É uma festa importante, que lembra que o Brasil conquistou a soberania diante do país colonizador”, reforçou.

A menos de um mês do primeiro turno da 2022, o então presidente e candidato à reeleição Bolsonaro transformou as comemorações do Bicentenário da Independência em demonstrações de força para sua campanha ao levar milhares de apoiadores para as ruas em atos eleitorais nos quais atacou Lula e lançou críticas indiretas contra a cúpula do Judiciário.

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Por isso, Bolsonaro responde a duas ações por abuso de poder no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que poderá levá-lo a uma nova condenação por inelegibilidade, além de outras punições e multas. O ex-presidente já foi declarado inelegivel pelo TSE em uma outra ação.

No ano anterior, Bolsonaro havia aproveitado a solenidade para atacar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, chegando a dizer que não iria cumprir ordens judiciais do magistrado.

PREPARAÇÃO

Sob o slogan "Democracia, soberania e união", o evento desta quinta-feira deve reunir 30 mil pessoas e 200 autoridades, entre elas Lula, demais chefes de Poderes, ministros e representantes das Forças Armadas. O Comando Militar do Planalto informou que 3.113 militares vão desfilar, segundo o Exército, acima dos cerca de 2,5 mil do ano passado.

Órgãos de segurança e de inteligência como a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o Exército e a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF), segundo fontes ouvidas no governo e na área militar, monitoram a preparação de eventuais atos políticos e até violentos durante o feriado. A Abin informou em nota que mobilizará o Centro de Monitoramento nos dias 6 e 7 para acompanhar a situação.

Uma das preocupações dos envolvidos é evitar falhas, deliberadas ou não, e ter um plano de contenção para evitar uma repetição do 8 de janeiro, segundo fontes palacianas e ligada à cúpula do Exército ouvidas pela Reuters.

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Uma fonte militar disse que o monitoramento transcorre normalmente para se antecipar a eventuais ataques. Por ora, de acordo com essa fonte, as probabilidades de uma manifestação para comprometer o desfile são baixas.

"Há um movimento inverso, para esvaziar o evento, para as pessoas não irem, mas isso é do livre arbítrio de cada um", disse essa fonte. "Mas está tudo dentro da normalidade, será uma festa para todos, sem conotação político-partidários, com todos ganhando", acrescentou.

Ainda assim, o Ministério da Justiça atendeu a um pedido do governo do DF e autorizou a atuação da Força Nacional de Segurança Pública na segurança dos atos do dia 7 de setembro.

Na semana passada, o ministro da Justiça, Flávio Dino, enviou ao governo do DF um ofício com uma coleção de vídeos em que apontavam a preparação de protestos para o 7 de Setembro.

A vice-governadora do DF, Celina Leão, disse à Reuters que não há por enquanto nada que possa denotar uma ameaça real de atos violentos durante o desfile. Minimizou preocupação com os vídeos remetidos pelo ministro da Justiça. "Nada que a nossa Secretaria de Segurança não esteja monitorando", destacou.

CAMPANHA BOLSONARISTA

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Entre os bolsonaristas, no momento em que avançam investigações criminais contra o ex-presidente, a ordem é não incitar qualquer tipo de protesto durante a solenidade, segundo uma fonte ligada à família.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), primogênito do ex-presidente, fez uma convocação pelas redes sociais para um ato político diferente para os padrões do clã: convocou apoiadores a doar sangue como um ato patriota na véspera do feriado. A intenção, segundo essa fonte, é que a doação ocorra durante todo o mês de setembro como forma de mobilizar os simpatizantes.

Nas redes sociais, bolsonaristas têm defendido um boicote ao desfile para esvaziar o ato com a hashtag #fiqueemcasa e mostrar o que consideram ser falta de apoio do atual governo. Há quem esteja fazendo uma convocação para um panelaço durante pronunciamento de Lula em cadeia nacional nesta quarta-fera, véspera do feriado. Por ora, iniciativas para protesto têm sido isoladas.

O PL, partido de Bolsonaro, vai levar ao ar inserções nesta semana para exaltar o patriotismo, possivelmente com imagens do 7 de setembro do governo passado, segundo uma fonte.

(Edição de Pedro Fonseca)

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