Belo Monte muda estratégia de comercialização e defende nova remuneração para hidrelétricas

Por Letícia Fucuchima

SÃO PAULO (Reuters) - A hidrelétrica de Belo Monte reformulou sua política de comercialização de energia para o mercado livre, ao mesmo tempo em que está buscando junto com outros geradores da fonte uma alteração na forma de remuneração das usinas.

Segundo um executivo da Norte Energia, concessionária responsável pela maior hidrelétrica 100% brasileira, essas mudanças são necessárias diante da nova realidade do setor elétrico nacional, no qual a geração de energia cresce aceleradamente e as hidrelétricas passaram a ter novo papel.

No caso do mercado livre, a Norte Energia alterou sua estratégia de comercialização para explorar toda a garantia física (métrica de quanta energia uma usina pode vender) de Belo Monte, que soma 4.571 megawatts-médios (MWm).

A usina instalada no rio Xingu, com forte sazonalidade das vazões, possui 70% de sua garantia física alocada em contratos do mercado regulado. Do restante, 10% é direcionada a contratos com duas acionistas do empreendimento, Vale e Sinobras, restando 20% para contratos com outras contrapartes no mercado livre.

Antes, a companhia reservava parte da garantia física como uma proteção ao chamado "risco hidrológico" -- quando as hidrelétricas geram abaixo da garantia física e têm que comprar energia no mercado spot --, mas a estratégia deixou de ser rentável, especialmente diante da sobreoferta de energia no Brasil.

"(Mudar a estratégia) tem se mostrado mais exitoso porque a gente aumenta a nossa receita líquida de comercialização", explicou Franklin Miguel, diretor de Regulação e Comercialização da Norte Energia.

"Tínhamos verificado que essa capacidade instalada excessiva (de geração) do sistema brasileiro ia impactar significativamente o preço... Tentamos nos antever, vendendo nossa garantia física ao máximo", acrescentou.

Entre 2021 e 2022, a receita líquida de comercialização da Norte Energia aumentou cerca de 15%, a 5,56 bilhões de reais, sendo que as parcelas referentes a contratos no mercado livre e operações no mercado de curto prazo avançaram 55% e 19%, respectivamente.

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"Procuramos fazer contratos de até cinco anos... Temos vendido mais (contratos) de 1 a 2 anos, e em menos intensidade os contratos com prazos maiores."

MUDANÇA

Em paralelo, a companhia também está defendendo junto com outros geradores hidrelétricos uma mudança na forma de remuneração das usinas, já que o sistema elétrico passou a demandar mais flexibilidade das hidrelétricas para contrabalancear a "intermitência" da geração eólica e solar.

"A gente tem que pensar em ser remunerado mais pelo serviço e menos pelo preço (da energia gerada)... Agora, do jeito que está sendo operado o sistema, esse negócio tem que mudar."

Segundo o executivo, em alguns casos, a operação das hidrelétricas para atender as demandas de potência do sistema está gerando custos operacionais acima dos cobertos pela tarifa que os remunera.

Além de Belo Monte, outros geradores hidrelétricos, como Eletrobras e Engie, já vêm defendendo a ideia há algum tempo.

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Ainda não há clareza sobre como essa remuneração dos novos serviços prestados pelas hidrelétricas poderia ocorrer, em qual tipo de contrato ela poderia ser aplicada, ou quem arcaria com esses custos. O governo ainda não se posicionou publicamente sobre o tema.

(Por Letícia Fucuchima)

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