IPCA sobe menos que o esperado em setembro apesar de impacto da gasolina

Por Camila Moreira e Rodrigo Viga Gaier

SÃO PAULO/RIO DE JANEIRO (Reuters) - Os preços ao consumidor no Brasil subiram bem menos do que o esperado em setembro com a deflação de alimentos compensando a pressão dos combustíveis, mas ainda assim a taxa em 12 meses superou os 5% no momento em que o Banco Central afrouxa a política monetária.

Em setembro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou a subir 0,26%, depois de alta de 0,23% em agosto.

O resultado divulgado nesta terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi o mais elevado desde abril (+0,61%), mas ficou bem abaixo da expectativa em pesquisa da Reuters de alta de 0,34%.

Os dados mostram ainda que o índice passou a acumular nos 12 meses até setembro avanço de 5,19%, de 4,61% em agosto, contra projeção de 5,27%.

Com isso, o índice em 12 meses marca o nível mais elevado desde fevereiro (+5,60%) e fica acima do teto da meta para a inflação este ano, que é de 4,75%, já considerando a margem de tolerância de 1,5 ponto percentual sobre o alvo central de 3,25%.

A expectativa de analistas é de que a inflação siga em patamares mais elevados no Brasil até o final de 2023, com atenção especial ao aumento dos preços de serviços, sobretudo diante de um mercado de trabalho aquecido e da resiliência que a economia vem apresentando.

O IPCA de setembro sentiu com força o impacto do reajuste grande de combustíveis anunciados em meados de agosto pela Petrobras -- aumento de 16,3% nos preços médios da gasolina e de 25,8% nos do diesel vendidos a distribuidoras.

De acordo com o IBGE, o resultado de setembro do IPCA foi impulsionado pela alta de 2,80% da gasolina, subitem com a maior contribuição individual.

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O item combustível como um todo teve alta de 2,70% em setembro em relação ao mês anterior, com aumento nos preços do óleo diesel (10,11%) e do gás veicular (0,66%) e queda no etanol (-0,62%). Com esses resultados, o grupo de Transportes subiu 1,40% e também teve o maior impacto positivo entre os grupamentos.

"Apesar de não serem impactados pelo efeito da política monetária, a alta no preço dos combustíveis pode afetar indiretamente outros preços importantes para a condução da política monetária do país, como bens industriais e serviços, reforçando a importância dos eventos atualmente em curso para o país", destacou Matheus Pizzano, economista da CM Capital, ressaltando a conjuntura internacional desafiadora.

Outro impacto relevante foi exercido pelo grupo de Habitação, com avanço de 0,47% nos preços, impactado pelo aumento de 0,99% na energia elétrica residencial após reajustes tarifários aplicados em três áreas de abrangência da pesquisa.

ALIMENTOS

Por outro lado, a queda de 0,71% nos custos de Alimentação e bebidas, grupo importante para o bolso dos consumidores, ajudou a conter a alta do IPCA no mês.

"É o grupo de maior peso no IPCA e teve deflação pelo quarto mês consecutivo", disse André Almeida, gerente do IPCA. "Temos um ano de safra grande e isso ajuda na oferta e maior disponibilidade de alimentos".

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Os preços da alimentação no domicílio recuaram 1,02%, com destaque para batata-inglesa (-10,41%), cebola (-8,08%), ovo de galinha (-4,96%), leite longa vida (-4,06%) e carnes (-2,10%). Já o arroz (3,20%) e o tomate (2,89%) tiveram aumentos de preços.

A inflação de serviços, que o BC acompanha de perto apesar de os maiores impactos nos números de inflação recente virem dos preços monitorados, chegou a 0,50% em setembro, acelerando com força ante 0,08% em agosto. No acumulado em 12 meses, o avanço é de 5,54%.

Segundo o IBGE, a aceleração ocorreu devido à alta de 13,47% das passagens aéreas em setembro após recuo de 11,69% em agosto.

O índice de difusão, que mostra o espalhamento das variações de preços, caiu a 43% em setembro, de 53% em agosto, patamar que, segundo Tatiana Pinheiro, economista-chefe da Galapagos Capital, indica "que o 'pulso' da inflação está em linha com a meta de 3%".

O BC iniciou em agosto um ciclo de redução da taxa básica de juros que levou a Selic a 12,75%, com dois cortes seguidos de 0,5 ponto percentual, ritmo que indicou que deve manter nas últimas duas reuniões do ano.

"O cenário continua favorável para a manutenção do ritmo de cortes da Selic nas próximas reuniões do Copom, o grande risco agora sendo o cenário externo com as piores condições financeiras na economia americana e a incerteza elevada pelo conflito em Israel", destacou André Cordeiro, economista-sênior do banco Inter.

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O presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse recentemente que o processo de desinflação no Brasil está em curso, com queda dos núcleos de inflação e ancoragem das expectativas, mas ainda requer uma política monetária contracionista.

O BC projeta inflação de 5,0% neste ano e 3,5% no ano que vem, enquanto a mais recente pesquisa Focus divulgada na segunda-feira pelo Banco Central mostra que a expectativa do mercado é de que o IPCA encerre este ano com alta acumulada de 4,86%, indo a 3,88% em 2024.

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