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Sem campanha eficaz de vacinação, economia brasileira pode piorar em 2021, diz analista

18.jan.2021 - Profissionais de saúde do Hospital das Clínicas de SP são vacinados com a vacina CoronaVac no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo - Marcelo Justo/UOL
18.jan.2021 - Profissionais de saúde do Hospital das Clínicas de SP são vacinados com a vacina CoronaVac no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo Imagem: Marcelo Justo/UOL

27/01/2021 12h33

Com um atraso de um mês em relação aos países desenvolvidos e atrás também de outros emergentes, o Brasil iniciou na semana passada a vacinação contra a Covid-19, mas os contornos do plano de imunização coletiva permanecem vagos. A consequência é que, sem uma coordenação do governo federal para distribuir o vacina pelo país, especialmente na rede pública, a economia brasileira pode registrar um recuo ainda maior do que o visto em 2020.

Essa é a avaliação da economista especializada em Medicina Monica de Bolle, pesquisadora-sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional e professora da Universidade Johns Hopkins, em Washington.

"A economia está completamente à deriva neste momento. Não existe nenhuma estratégia de política econômica, e sim uma aposta de que as coisas possam melhorar num passe de mágica. Foi assim desde o início da pandemia, quando, em março, o ministro da Economia ainda falava em crescimento de 2,5 ou 3%% em 2020", afirma. "Assim como, naquela altura, havia uma completa desconexão com a realidade, o mesmo acontece hoje - porém a situação agora é mais grave do que era em março de 2020."

A circulação de novas variantes do coronavírus acrescentam ainda mais urgência para a aceleração da campanha de vacinação. Os imunizantes disponíveis podem não apresentar a mesma eficácia contra a linhagem identificada recentemente em Manaus, além das encontradas em países como Reino Unido e África do Sul.

Cortes no SUS em momento em que calamidade aumenta

Entretanto, em um contexto em que a calamidade pública se acentua, a previsão de orçamento do Sistema Único de Saúde (SUS) é menor do que no ano passado - o que traz preocupação quanto à abrangência e eficácia da campanha recém iniciada. Monica ressalta que, assim como economia e pandemia estão intrinsecamente ligadas desde o princípio, o mesmo vale para esta nova etapa de imunização coletiva.

"Se o Brasil quiser, em algum momento, que nem conseguimos vislumbrar ainda, começar a ter uma recuperação econômica mais consistente, precisa investir desde agora na campanha de vacinação. O governo deve fazer uma estratégia de imunização que funcione, apoiar as agências do SUS que serão responsáveis por isso, reforçar os recursos do SUS, para que a campanha possa ser feita", ressalta a economista. "Mas o que estamos vendo é que orçamento para a área de saúde é R$ 35 milhões menor do que em 2020. É inacreditável."

Essa situação acontece porque o decreto de calamidade pública, que permitia a liberação de recursos emergenciais, expirou em dezembro e, até o momento, não foi renovado. O fim do decreto impacta também na continuidade do auxílio emergencial para milhões de brasileiros que, sem a ajuda financeira, poderão se encontrar sem renda. A pesquisadora destaca que a economia brasileira "só não afundou mais" por causa do auxílio, que sustentou o consumo e atenuou a queda brutal da arrecadação desde o início da pandemia.

Quanto à vacinação, a economista lembra que o Brasil está atrasado não só em relação às nações desenvolvidas, como na comparação com outros países emergentes, a começar pela vizinha Argentina, que iniciou o processo há um mês. Economias menos relevantes, como Turquia e Indonésia, também iniciaram a o uso emergencial das doses mais cedo que o Brasil, graças a acordos com o laboratório chinês SinoVac.

A demora se deveu ao envolvimento da política em uma questão de saúde pública, frisa Monica de Bolle. Depois de rejeitar a vacina chinesa, ao mesmo tempo em que reiterava críticas ao país asiático, o governo brasileiro foi obrigado a voltar atrás, diante do risco de o país ficar sem vacina.

Falha na vacinação é sintoma de isolamento internacional

No cenário internacional, a saída de Donald Trump da presidência dos Estados Unidos força o Brasil a se reposicionar diante dos seus antigos parceiros - dos quais o país acabou se distanciando desde que Jair Bolsonaro assumiu o poder.

"Havia uma percepção, inclusive do chanceler Ernesto Araújo, de que bastava ser aliado dos Estados Unidos para que tudo estivesse resolvido, como se o resto não importasse muito", aponta a economista.

Na questão ambiental, que foi um campo de batalha com os governos europeus e, em particular, com a França, o Brasil se colocou em uma postura combativa, até bélica. Essas pontes terão de ser reconstruídas", observa a professora da Universidade John Hopkins.

O mesmo vale para os próprios Estados Unidos. Instalada na capital americana, Monica de Bolle afirma estar "bastante preocupada" com o futuro das relações entre os dois países.

"O Biden teria tudo para ter uma agenda mais voltada para a América Latina, porque ele é um conhecedor da região e do Brasil. Mas algumas coisas vão atrapalhar. A primeira é que há uma agenda doméstica nos Estados Unidos imensa", sublinha. "E o Brasil não tem facilitado em nada uma aproximação entre os dois governos - e onde isso é mais óbvio é na pauta de meio ambiente, que é central para o governo Biden. Porém, sendo Biden uma pessoa de perfil conciliador, ainda tem espaço para essa situação se rearranjar", pondera.

Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China.