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Dólar bate máximas em quase um ano com fatores políticos e externos

06/04/2018 17h53

O dólar cravou nesta sexta-feira a quinta alta consecutiva, marcando a mais longa série de valorização desde agosto de 2016. A moeda começou a semana na casa de R$ 3,30, mas a combinação entre piora do sentimento de risco no exterior e aumento da indefinição eleitoral doméstica levou a cotação a beirar os R$ 3,38 neste pregão. Mantendo o padrão recente, o real figurou entre as divisas de pior desempenho no mundo e fecha a semana com perda de quase 2%, a segunda mais forte entre as principais moedas.

O dólar comercial terminou esta sexta-feira com ganho de 0,76%, a R$ 3,3669. É o maior patamar desde 18 de maio do ano passado. Na semana, a cotação avançou 1,93%, elevando a alta no ano para 1,61%.

Analistas citam um conjunto de fatores para explicar a dinâmica negativa na qual o câmbio ingressou, desde fatores globais, políticos no Brasil e posição técnica ruim.

O ambiente internacional foi marcado nos últimos dias por dólar mais forte ante divisas de risco, em meio a renovados temores de uma guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas globais: EUA e China.

Mas "drivers" locais têm ganhado cada vez mais destaque, sobretudo os relacionados ao tema eleitoral. A negativa do STF a habeas corpus ao ex-presidente Lula e o posterior aumento da chance de prisão do petista fracassaram em gerar algum otimismo entre investidores.

Isso porque, de acordo com analistas, o mercado está se dando conta de que, mesmo com Lula praticamente fora da corrida eleitoral, o pleito segue indefinido, aumentou a probabilidade de vitória de um candidato "outsider" e as candidaturas de centro-direita - as preferidas do mercado - continuam patinando nas pesquisas de intenção de voto.

O nervosismo do mercado é tamanho que mesmo declarações do agora ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles - presidenciável pelo MDB e bem-visto pelo mercado - geraram instabilidade no câmbio. O dólar acelerou a alta após Meirelles afirmar que a crise econômica tira comida do prato dos mais pobres.

Nas mesas de operação, as palavras usadas lembraram as ditas pela ex-presidente Dilma Rousseff na campanha presidencial de 2014. E geraram sensação momentânea de que Meirelles estaria suavizando o tom relação às reformas econômicas - consideradas impopulares. Com a sequência da fala do ex-presidente, a moeda americana reduziu os ganhos.

Para Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho no Brasil, o comportamento da taxa de câmbio diante do recente noticiário político indica que o mercado atribui agora mais risco à probabilidade de eleição de um governo reformista, mas fraco junto ao Congresso. E esse cenário é compatível com um dólar de R$ 3,60 ao fim do ano.

O estrategista diz que nos últimos meses o mercado vinha operando com "sangue-frio" porque tinha mais convicção no cenário em que um candidato governista se sairia vitorioso na eleição de outubro. Isso inclusive ofuscou a frustração com os sucessivos adiamentos da votação do texto da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados.

"Mas agora a impressão é que o mercado está 'acordando' para a real situação. [...] Os investidores querem um candidato de centro-direita. Mas o cenário não está evoluindo para esse lado", afirma Rostagno.

Nesse sentido, não ajudou a informação de que Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, foi preso nesta manhã pela Polícia Federal. Ele é ex-diretor da Dersa e foi denunciado pelo Ministério Público Federal por desvios na estatal paulista. Paulo Preto é suposto operador de campanhas do PSDB, partido do presidenciável tucano Geraldo Alckmin.

"Há uma ideia no mercado de que Alckmin tem que emplacar. Mas não é isso que está acontecendo", diz Joaquim Kokudai, gestor na JPP. Segundo ele, mais do que os desdobramentos imediatos da possível prisão de Lula, é a ausência de força da candidatura de centro-direita que está deixando o mercado mais nervoso.

Posição técnica ruim

A "underperformance" do câmbio tem sido associada em boa parte também a fatores técnicos. A queda do juro básico brasileiro a mínimas históricas reduziu a taxa de juros embutida em contratos de real. Ao mesmo tempo, a menor liquidez no mercado spot - diante da ausência de ingressos relevantes e da recompra parcial de dólares à vista realizada pelo Banco Central recentemente - tem elevado a taxa de juros em dólar no Brasil - conhecida como cupom cambial.

A combinação entre esses dois movimentos - juro em reais em queda e taxa em dólar em alta - barateia o "hedge" na moeda americana. Ou seja, está menos custoso "carregar" posições compradas em dólar. E o efeito direto disso é pressão de alta sobre a moeda americana.

O profissional de tesouraria de um banco em São Paulo chama atenção para o fato de que, por ora, o câmbio é o mercado com pior dinâmica no Brasil. E que isso pode ser fruto da demanda por "hedge" por parte de "players" que querem proteger posições em outros ativos, como Bolsa e renda fixa. Segundo ele, alguns fundos vinham recentemente na ponta de venda de dólar, mas agora têm sido obrigados a acionar ordens de "stop-loss", movimento que dá impulso extra à moeda americana.

Para o curto prazo, o profissional vê a continuidade do cenário de falta de apetite por risco. "O que o mercado precisa agora é de estabilidade e paz. Mas é difícil esperar algo assim em meio a este ambiente de grande tensão", conclui.

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