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Juros futuros de curto prazo têm forte alta com decisão do Copom

17/05/2018 19h02

A surpresa com a decisão de política monetária do Banco Central (BC) devastou as apostas de curto prazo para a trajetória dos juros no mercado financeiro. A confiança em antecipar os próximos passos da autarquia foi duramente abalada e agora crescem as dúvidas sobre quais parâmetros devem ser usados para definir o caminho da Selic.

A piora do mercado de juros nesta quinta-feira (17) não deixa dúvidas sobre a postura bem mais defensiva dos investidores. Os juros curtos negociados na B3 tiveram o maior solavanco desde o estouro da crise política, há cerca de um ano, quando as delações de executivos da JBS ameaçaram a continuidade do governo de Michel Temer.

Desta vez, a taxa do DI para janeiro de 2019 ? que reúne apostas até o fim deste ano ? subiu 28 pontos-bases para o nível de 6,60%, numa alta que é superada apenas pelo avanço de 156 pontos de 18 de maio de 2017. E se já não bastasse o fato pouco comum de uma taxa curta subir tanto, o volume de operações em todo o mercado de DI alcançou o nível de 6 milhões de contratos negociados, batendo suas máximas históricas, com ampla concentração em vértices de curto prazo.

O gatilho do movimento veio com a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter a Selic em 6,50% ao ano, na contramão de boa parte das expectativas. Profissionais de mercado evitaram questionar a decisão em si, uma vez que a escalada do dólar e as incertezas externas já justificariam uma postura mais cautelosa da instituição.

Falta de clareza

Em vez disso, o alvo das críticas foi o discurso dos dirigentes do BC, que não conseguiram transparecer a visão sobre a política monetária. "A questão é que o BC construiu um discurso, da reunião passada para esta, que acabou induzindo o mercado ao erro", diz Luiz Fernando Figueiredo, sócio da gestora Mauá Capital.

E o balanço de riscos teve papel central na decisão do Copom, mais até que as estimativas de inflação. Para o economista-chefe do Citi Brasil, Leonardo Porto, o BC parece ter adotado um novo "modus operandi" para suas decisões. A estratégia até eleva a flexibilidade do BC, mas dificulta a ancoragem de expectativas no mercado já que a política monetária agora assume um caráter mais discricionário.

"No modus operandi anterior, bastaria olhar para a projeção de inflação e ver o espaço para a Selic ficar mais baixa, mas agora não dá para calcular muito bem o balanço de riscos", diz o especialista.

Isso significa que ficou mais difícil prever os próximos passos do BC e, pela falta de previsibilidade, o mercado exige um "prêmio de risco" maior para se posicionar. Se dependesse apenas da política monetária, o fim do ciclo abriria espaço para queda do juro longo. Esse ajuste até ocorreu no começo do dia, mas não perdurou. Com a percepção de risco elevada, essas taxas também subiram, apesar de uma magnitude mais contida que os curtos.

De acordo com alguns especialistas, o sinal de alerta se agrava, uma vez que o discurso do BC dá a entender que aumentou a sensibilidade da política monetária a uma das variáveis mais instáveis do mercado: o câmbio.

"O comportamento do dólar é mais sensível à aversão ao risco lá fora e às dúvidas sobre ambiente político, e agora parece ser uma variável que ganhou mais peso nas decisões do BC", diz o economista João Fernandes, da Quantitas. "Houve uma perda de capacidade de previsão para política monetária", resume o profissional.

O que se espera agora é um pouco mais de explicações sobre a condução da política monetária.

"Quando acontece algo desse tipo, você volta alguns passos para trás. No fim das contas, vai ser preciso um processo para que a comunicação, principalmente na questão cambial, fique mais clara", acrescenta Figueiredo, da Mauá.

A depender apenas dos fundamentos econômicos e projeções de inflação, os economistas apontam que a Selic ficaria estável por um bom tempo e só voltaria a subir no ano que vem.

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