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Saída de Parente derruba Ibovespa; dólar bate R$ 3,76

01/06/2018 13h59

O Ibovespa caminhava nesta sexta-feira para ter um dia de alívio depois de encerrada a greve dos caminhoneiros. A tranquilidade do mercado no primeiro pregão de junho, no entanto, deu lugar a um ambiente de enorme tensão, depois que Pedro Parente pediu demissão da presidência da Petrobras.

Às 13h47, o Ibovespa cedia 0,26%, aos 76.555 pontos, depois de ter conseguido, na máxima, atingir os 78.169 pontos (+1,84%). Na mínima, o índice tocou 75.524 pontos. O giro financeiro já é de R$ 7,5 bilhões.

A Petrobras ON cedia 15,50% e Petrobras PN recuava 15,70%. Outras empresas têm seu movimento afetado pela notícia sobre Parente, entre elas estatais, como Banco do Brasil (-2,21%), e a BRF (+7,84%), que dispara com a expectativa de que Parente saia da estatal de petróleo para comandar a companhia de alimentos ? o executivo já é presidente do conselho da BRF.

O pedido de demissão de Parente joga no mercado o receio de que a companhia terá boa parte do seu valor destruído. As preocupações de ingerência política na empresa preocupam mais agora porque Parente era a figura responsável pela gestão autônoma na definição dos preços dos combustíveis e em outras iniciativas, como venda de ativos e controle do endividamento.

A greve dos caminhoneiros, que levou o governo a adotar uma série de subvenções fiscais para fazer frente ao problema, abriu também uma crise na Petrobras, porque obrigou a empresa a reduzir e congelar os preços do diesel. O mercado já havia recebido mal a decisão e, agora, fica a dúvida sobre qual será o grau de independência da companhia daqui para frente, em especial com as eleições presidenciais. Em sua carta de demissão, Parente citou nominalmente que a greve colocou a política de preços da Petrobras "sob intenso questionamento".

"Agora precisaremos esperar a eleição para ter certeza de como investir na Petrobras. O papel vai sofrer uma grande volatilidade. O grau de incerteza aumentou muito e precisamos de uma maior visibilidade para construir uma tese de investimento nesse papel", afirma Karel Luketic, analista-chefe da XP.

A Petrobras já havia sofrido diversos ajustes em recomendação e preço-alvo por parte de alguns bancos por causa da decisão de congelar o preço do diesel para fazer frente à crise. Segundo um analista de uma grande instituição financeira, os motivos citados por Parente na sua carta de demissão estão em linha com a falta de clareza sobre a política de preços da empresa. "Isso era chave para a companhia", afirma a fonte.

Câmbio

A alta de mais de 6% do dólar em maio aparentemente não tirou fôlego da moeda para alcançar níveis ainda mais altos. A divisa americana sobe hoje pelo quinto pregão numa sequência de seis e, se fechar no patamar atual, renovará a máxima desde março de 2016, mais perto de R$ 3,80 do que de R$ 3,70.

E cresce o número de analistas com visões mais negativas para o real no curto prazo. Depois de Morgan Stanley ter encerrado ontem posição comprada em reais frente ao peso mexicano, hoje o Nordea Markets, braço do Nordea Bank (grupo de serviços financeiros da região nórdica da Europa), afirmou que a moeda brasileira continuará pressionada nos próximos meses, resultado da combinação entre incerteza política local, alta mundial do dólar e algum contágio psicológico derivado da crise argentina.

Mais cedo, o dólar até chegou a registrar queda, mas o movimento sucumbiu ao aumento da percepção de risco provocado pelo pedido de demissão de Parente.

O mercado como um todo foi contaminado pela sensação de maior incerteza com a governança da petrolífera, num momento de governo bastante fragilizado e com os mercados vendo pouco impulso a candidaturas pró-reformas no contexto da eleição presidencial do próximo mês de outubro.

Depois de tocar mínima de R$ 3,7212, o dólar subia 0,69% perto das 14 horas, para R$ 3,7613.

Com isso, a moeda amplia a alta no ano para 13,50% e já se valoriza 15,8% nos últimos 12 meses. Nesta sexta-feira, o real tem o segundo pior desempenho entre as principais divisas globais, melhor apenas que a combalida lira turca.

A reação negativa do câmbio poderia ser ainda pior sem as atuações já realizadas pelo Banco Central (BC) nesta manhã. Além de injetar mais US$ 750 milhões no sistema via colocação de 15 mil contratos de swap cambial, a autoridade monetária deu início às rolagens dos papéis vincendos em julho.

Dessa forma, além de manter a colocação diária de dinheiro "novo" no mercado, o BC sinaliza que não deixará que saiam do mercado US$ 8,762 bilhões em swaps que, inicialmente, venceriam em julho.

Juros

Os juros futuros até mostram alguma disposição em recuar nesta sexta-feira. Mas as taxas mais longas voltaram a subir no fim da manhã, reagindo à decisão de Parente. Como o mercado entende que a saída do executivo sugere que estão por vir outras mudanças na gestão da companhia - além dos ajustes na política de preços defendida pelo executivo, o sentimento geral é de que mais uma parte das conquistas do atual governo não vão resistir sequer até a próxima eleição.

A melhora dos ativos brasileiros ocorreu ao longo dos últimos meses porque alguns pilares econômicos foram recuperados: BC independente e comprometido com o sistema de metas; política fiscal mais responsável, expressada especialmente pela fixação do teto de gastos; e independência na gestão da gigante Petrobras, que de risco para os cofres públicos voltou a ser uma empresa lucrativa, graças à sua gestão transparente e independente.

A preocupação com a política fiscal já vinha tomado conta do mercado com a greve dos caminhoneiros, uma vez que o governo teve de fazer várias concessões para interromper o movimento. E, agora, a saída de Parente coloca em questão também esse terceiro elemento de sustentação da confiança. Além de alguns arranhões na política de reajuste diário nos preços dos combustíveis, o mercado vê risco de haver mais interferências na companhia, o que teria sido a razão para a demissão de Parente. "Vão querer usar a Petrobras", diz um operador.

Esse clima negativo limitada, dessa forma, a redução do prêmio de risco cobrado pelo investidor no mercado de juros. As taxas até operam em leve queda, reagindo a um fator técnico: a nova estratégia anunciada pelo Tesouro de reduzir a oferta de títulos de longo prazo e continuar com leilões de recompra de NTN-F. Mas, para profissionais, o preço dos títulos não podem voltar aos níveis anteriores ao início da greve, porque o quadro mudou de forma definitiva.

No leilão de recompra de NTN-F realizado hoje, o Tesouro não aceitou nenhuma das propostas, o que mostra que não há uma pressão de saída por parte de nenhum player desse mercado.

Às 13h55, DI janeiro/2021 era negociado a 8,790%, de 8,890% no ajuste anterior. O DI janeiro/2025 tinha taxa de 11,300%, ante 11,290%; e DI janeiro/2027 estava em 11,690%, de 11,670%.

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