Bolsas

Câmbio

Brasil mata 30 vezes mais do que Europa, aponta Ipea

(Atualizada às 13h51) Pela primeira vez na história, a taxa de homicídios superou 30 mortes por 100 mil habitantes no Brasil, mostra o estudo Atlas da Violência 2018, divulgado nesta terça-feira (5) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

De acordo com o estudo, a taxa de homicídios foi de 30,3 por 100 mil habitantes em 2016, o que corresponde a uma marca histórica de 62.517 homicídios. Essa taxa é 5% maior do que a registrada no ano anterior, de 28,9 homicídios por 100 mil habitantes, e está 30 vezes acima do registrado na média dos países europeus.

"Essa tragédia traz implicações na saúde, na dinâmica demográfica e, por conseguinte, no processo de desenvolvimento econômico e social", avaliam os técnicos dos órgãos no documento, em que pedem "ações compromissadas e efetivas por parte das autoridades nos três níveis de governo: federal, estadual e municipal".

Segundo a pesquisa, a marca recorde de 62.517 homicídios ocorridos gera uma "mudança de patamar" no indicador de violência, para uma faixa de 60 mil a 65 mil casos por ano. De 2008 e 2013, o indicador estava na faixa de 50 mil a 58 mil mortes. Em dez anos, 553 mil pessoas perderam a vida por violência no país.

Essa evolução dos homicídios no país na última década mostrou-se heterogêneo entre as diferentes unidades da federação. Enquanto São Paulo teve uma queda de 46,7% na taxa de homicídio, para 10,9 por 100 mil habitantes, o indicador cresceu 256,9% no Rio Grande do Norte, para 53,4.

Jovens

O Brasil perdeu 33.590 jovens de 15 a 29 anos assassinados em 2016. O número representa um crescimento de 7,4% em relação ao ano anterior, eliminando a pequena reversão de 3,6% registrada em 2015.

O quadro mostra que os jovens, sobretudo os homens, seguem prematuramente perdendo suas vidas. Dos 33.590 assassinatos de jovens, 94,6% das vítimas eram do sexo masculino.

De acordo com o Atlas da Violência 2018, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes foi de 142,7 para essa faixa etária no país.

"A juventude perdida é um problema de primeira importância no caminho do desenvolvimento social do país e que vem aumentando numa velocidade maior nos estados do Norte", avaliaram os pesquisadores no documento.

A quantidade de jovens assassinados cresceu em 2016 em vinte das unidades da federação, com destaque para Acre (+84,8%) e Amapá (+41,2%), seguidos pelos grupos do Rio de Janeiro, Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte e Roraima, que apresentaram crescimento na faixa de 20%, de acordo com a pesquisa.

Em sete das 27 unidades da federação foi verificada a redução no número de jovens assassinados, com destaque para Paraíba, Espírito Santo, Ceará e São Paulo, onde ocorreram reduções de 13,5% a 15,6%, conforme os indicadores.

Nos últimos dez anos, o número de casos no país aumentou 23,3%. Nesse período, porém, parte do reflexo pode ser resultado do aprimoramento dos dados da saúde, o que aumentou o número de notificações dos casos antes classificados como morte violenta por causa indeterminada.

Negros

Os assassinatos na última década no Brasil cresceram 23% tendo a população negra (pretos e pardos) como vítima, ao passo que reduziram em 6,8% na população de não negros (brancos, amarelos e indígenas).

Para Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea,essa faceta da desigualdade racial mostra queexistem dois "Brasis", completamente distintos: um para negros e outro para não negros. Os números são consequência do racismo enraizado na história do país, destaca.

"Se um garoto branco for morto numa área nobre da cidade, o crime vai certamente ser elucidado pela polícia. Se for um garoto negro, da periferia, a sociedade vai dar o veredito: era bandido, e bandido bom é bandido morto", disse Cerqueira.

O movimento em direções opostas entre os homicídios de negros e de não negros também se reflete no resultado do atlas para as regiões: os crimes aumentaram em Estados do Nordeste, de maior de população negra; e recuaram no Sul e Sudeste, que têm uma parcela maior de pessoas brancas.

As maiores taxas de homicídios de negros encontram-se nos Estados de Sergipe (79%) e do Rio Grande do Norte (70,5%). Entre 2006 e 2016, esses Estados foram também onde a taxa mais cresceu: 172,3% e 321,1%, respectivamente.

Já as menores taxas de homicídios de negros foram encontradas nos Estados de São Paulo (13,5%), do Paraná (19,0%) e de Santa Catarina (22,4%).

De acordo com a pesquisa, a taxa de homicídios de negros em 2016 foi duas vezes e meia superior à de não negros (40,2%, contra 16%). Especificamente a taxa de homicídios de mulheres negras foi 71% superior à de mulheres não negras.

São Paulo

São Paulo aparece, pelo segundo ano consecutivo, como o Estado com a menor taxa de homicídio do país.

O Estado paulista teve 10,9 homicídios por 100 mil habitantes em 2016, uma redução de 11% na comparação ao indicador do ano anterior (-11%). Logo atrás no ranking, aparecem Santa Catarina (14,2 por 100 mil) e o Piauí (21,8 por 100 mil).

Nos últimos dez anos, a taxa de homicídios no Estado de São Paulo recuou 46,7%.

Segundo os pesquisadores, a redução ocorre de forma consistente desde 2000, mas suas razões não seriam ainda inteiramente compreendidas pela academia e envolveriam diversos fatores, desde políticas sobre o controle responsável das armas de fogo a mudanças no sistema de informações criminais.

O estudo cita ainda: o fator demográfico, com a diminuição acentuada na proporção de jovens na população; melhorias no mercado de trabalho; e mesmo uma hipótese de "pax monopolista" do Primeiro Comando da Capital (PCC). "O tribunal da facção criminosa passou a controlar o uso da violência letal, o que teria gerado efeitos locais sobre a diminuição de homicídios em algumas comunidades."

Nordeste

Dos dez Estados com piores taxas de homicídios do país, seis estão na região Nordeste, mostra o Atlas.

Ao analisar os dados mais recentes do Ministério da Saúde, referentes a 2016, o estudo traz nos três primeiros lugares Estados nordestinos: Sergipe (64,7 homicídios por 100 mil habitantes), seguido por Alagoas (taxa de 54,2) e Rio Grande do Norte (53,4 homicídios por 100 mil).

Homicídios por 100 mil habitantes (10 Estados mais violentos) em 2016:

Sergipe: 64,7

Alagoas: 54,2

Rio Grande do Norte: 53,4

Pará: 50,8

Amapá: 48,7

Pernambuco: 47,3

Bahia: 46,9

Goiás: 45,3

Acre: 44,4

Ceará: 40,6

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Newsletter UOL

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos