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Mercado de juros futuros tem pior dia desde delação da JBS, há um ano

O mercado de juros enfrentou, nesta terça-feira (5), seu pior dia desde a delação dos executivos da JBS. As taxas futuras dispararam a níveis que não eram vistos nos últimos 12 meses, colocando em dúvida a efetividade da intervenção do Tesouro Nacional na renda fixa.

A instituição concluiu, hoje, o cronograma de recompra de títulos públicos prefixados, as chamadas NTN-Fs, num processo que durou seis sessões consecutivas. No entanto, o alívio não veio para as taxas futuras.

Nesse período, do dia 28 de maio até hoje, o Tesouro recomprou 2,5 milhões de papéis, menos de um terço de um total de 7,25 milhões de títulos que se dispôs a negociar. Para alguns profissionais, a compra parcial dos papéis demonstra que os players ou não querem sair nesse nível ou não conseguem sair de posições via títulos.

A leitura é de que o risco está mesmo nos contratos de DI, não em papel. "Por isso, o Tesouro atua, mas não consegue neutralizar a volatilidade", diz um gestor. Num claro contraste com a intervenção, o DI janeiro de 2027 saiu de 11,210%, no fechamento do último dia 25 para os 12,410%, nesta terça-feira. Já o DI janeiro de 2025, que tem mais liquidez, saltou de 10,870% para 11,980%.

Só hoje, o salto dessas taxas superou os 50 pontos-base, que só comparável aos dias que seguiram o estouro da crise política há cerca de um ano, coma delação dos executivos da JBS.

Ainda assim, seria mais recomendável, na visão de alguns profissionais, que o programa de recompra seja mantido por mais tempo, servindo de um sinal para oferta de liquidez. "Quem quer saída ou busca uma chance de reduzir posição via papel teve e talvez tenha mais chance se o Tesouro se mantiver no mercado", aponta o gestor já citado.

Para um operador de renda fixa, que também preferiu não se identificar, as operações não têm muito efeito "prático". O ambiente de incertezas política e ventos contrários aos emergentes afasta os investidores de juros longos. "A recompra deve continuar, mas é mais para sinalizar a precaução do Tesouro do que segurar o prejuízo do mercado", acrescenta.

Receio com prazos mais longos

O contraste entre a intervenção e a escalada das taxas escancara uma dura realidade para o mercado. Os investidores ainda hesitam muito em fazer apostas de longo prazo, mesmo com taxas em níveis considerados atrativos. Tem prevalecido entre os profissionais de mercado uma desconfiança com a eleição de um candidato reformista, o que foi agravado pela crise dos combustíveis. A preocupação é que discursos mais populistas tenham ganhado força nas últimas semanas, dificultando o avanço da pauta de ajuste das contas públicas.

Para David Cohen, sócio e gestor da Paineiras Investimentos, a dinâmica do mercado ainda parece bastante complicada apesar do nível das taxas aparentar atrativo.

"O horizonte segue muito nebuloso para se apostar em um 'teto' nessas taxas", diz o especialista. A falta de apoio a candidatos reformistas nas pesquisas de opinião, além das dificuldades em torno de alianças de centro, aumenta o risco em torno da agenda de reformas. E esse quadro só se agrava com um ambiente menos benéfico para emergentes.

O atual patamar dos juros chega a ser até mais condizente com a realidade brasileira de instabilidade política e expectativa de atividade econômica mais baixa, diz Hugo Monteiro, analista de investimento do Bullmark Financial Group. Ele explica que, nas últimas semanas, o mercado tem feito ajuste nos prêmios e posição técnica, já que se precificava um "certo otimismo" para o cenário local, tanto PIB quanto inflação.

"Ainda é muito difícil dizer se esse movimento pode continuar pois tudo depende do desenrolar de algumas questões políticas que interferem diferentemente na situação fiscal e percepção de risco-país, fora o cenário internacional que pode continuar adverso para emergentes", diz o Monteiro.

Selic

A turbulência no mercado eleva, inclusive, a preocupação de que o Banco Central não consiga manter os juros baixos por muito tempo. As apostas de uma alta de 25 pontos-base na reunião do Copom em junho já angariam 53% de chances, ante 47% de estabilidade na taxa. "Até pelo forte movimento dos DIs mais curtos, hoje, o BC pode ser forçado a elevar juro ainda neste ano, contendo esse movimento de piora do mercado", alerta um operador.

Analistas apontam, no entanto, que o Banco Central só deve reagir a choques secundários e efeitos mais amplos na inflação, o que ainda não se verifica.

Para a economista-chefe da Rosenberg, Thais Marzola Zara, há revisões importantes no crescimento, com efeito desinflacionário na economia, apesar da instabilidade no câmbio. Esses dois vetores - de atividade e inflação - se contrabalançam para que o BC não mexa nos juros, diz a especialista. Não é de se estranhar, contudo, que os DIs se movimentem, dado o tamanho do ajuste do câmbio que está sendo visto hoje. "Ainda assim, creio que a atividade deve contrabalançar, especialmente porque o BC tem enfatizado que só vai reagir aos efeitos secundários de choques", conclui.

Na avaliação do estrategista-chefe do banco Mizuho do Brasil, Luciano Rostagno, somente com as eleições será possível ter um quadro mais claro sobre o comportamento do mercado e o balanço de riscos. "Mas se o cenário se deteriorar mais, o BC pode ter de agir, principalmente, se perdemos a folga (de inflação) para o ano que vem", diz.

Por volta das 17h45, o DI janeiro/2019 marcava 6,910% (6,710% no ajuste anterior); o DI janeiro/2020 registrava 7,970% (7,620% no ajuste anterior); o DI janeiro/2021 marcava 9,160% (8,760% no ajuste anterior); o DI janeiro/2023 subia a 11,110% (10,570% no ajuste anterior) e oDI janeiro/2025 avançava a 11,970% (11,350% no ajuste anterior).

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