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Descaminhos e sutilezas da comunicação

Reinaldo Polito
A maneira como você fala ou escreve classifica as pessoas. Por isso, cuidado, pois sem que se dê conta, talvez esteja construindo armadilhas para o sucesso da sua comunicação.

Mesmo sem nenhuma intenção de ofender, pela maneira como se expressa, falando ou escrevendo, você poderá criar resistências e comprometer os objetivos de suas apresentações.

A forma como se dirige às pessoas deixa transparecer o valor que você atribui a elas -valor social, profissional ou afetivo. E elas reagirão à sua mensagem de acordo com a interpretação que derem a esse tratamento.

E aí garotão, tudo bem? Aparentemente, essa frase seria identificada como elogio a uma pessoa mais velha, pois, normalmente, gostamos de ser vistos como mais jovens. Por causa do poder classificatório das palavras, entretanto, esse tratamento poderia ter outra interpretação.

A expressão "garotão" pode soar também como referência pejorativa, indicando não a idade, mas a inexperiência ou posição social inferior, especialmente se for utilizada por alguém que tenha mais ou menos a mesma idade, ou que seja um pouco mais jovem.

O sentido da mensagem não é transmitido apenas pelo sentido das palavras, mas principalmente pelo tom, pela forma como elas são pronunciadas. A maneira como falamos classifica as pessoas às quais nos dirigimos.

Quando você fala com uma pessoa de baixa formação intelectual observe como a tendência é explicar com cuidado todas as informações para facilitar o entendimento dela. Essa forma quase didática de falar, semelhante à que usamos quando conversamos com as crianças, classifica o ouvinte como alguém despreparado.

Ao contrário, quando o ouvinte possui bom preparo, a comunicação perde essa característica didática e você se expressa sem a preocupação de explicar detalhadamente o que pretende dizer.

Nessa circunstância, você utiliza de maneira mais acentuada os recursos da ironia e se vale com freqüência da presença de espírito, pois sabe que esse tipo de comunicação é compreendido com facilidade por pessoas com boa formação.

A importância de você se conscientizar de que a entonação é classificatória está justificada no risco permanente de que um pequeno deslize na avaliação feita sobre a formação e as características dos ouvintes pode trazer conseqüências negativas irreversíveis.

Por exemplo, talvez você angariasse a antipatia e a resistência de um grupo se usasse tom condescendente afirmando que os ouvintes não precisariam se preocupar com o entendimento da mensagem porque houve um trabalho intenso no sentido de tornar as informações mais fáceis de serem compreendidas.

Ora, qualquer ouvinte com razoável formação intelectual se sentiria ofendido com esse tom que o classifica como pessoa despreparada. O problema se agrava pelo fato de essa avaliação ser feita no instante em que as palavras são proferidas.

Mesmo que você tenha estudado com pormenores e com bastante antecedência quais as características dos ouvintes, no momento de falar, ao vê-los, provavelmente usará a entonação de acordo com a avaliação que faz das pessoas naquele momento e não apenas a que havia planejado nos instantes de preparação. Se errar, poderá prejudicar o resultado da sua comunicação.

Segundo Mikhail Bakhtin, um dos mais importantes estudiosos da linguagem, o fenômeno da entonação é lugar de memória acústica social. O que esse grande teórico lingüista russo pretende dizer com essa afirmação? Simplesmente que todos nós nos impregnamos de entonações desde os primeiros instantes de nossa existência.

De acordo com o pensador, são "vozes" que estarão presentes em nossa vida. "Vozes" formadas pelas características das pessoas com as quais convivemos, que por sua vez foram influenciadas por outras pessoas com as quais conviveram. Pelas músicas que ouvimos. Pelos cursos que freqüentamos. Pelas imagens que observamos.

Enfim, toda nossa formação influenciada durante a vida participa dessa entonação classificando o grupo social a que pertencemos e nos levando a usar uma forma de comunicar, de receber a mensagem e de interagir para determinar seu sentido.

Observe o comportamento de uma criança de aproximadamente quatro anos. Já nessa idade, nos primeiros aninhos de vida, ela aprende a classificar as pessoas e reage de acordo com as características de cada uma.

Com a tia que brinca e conta historinhas, ela se mostra afável, sorridente e alegre com sua chegada. Com a prima ranheta, que disputa seus brinquedos, ela se mostra resistente e procura se manter distante.

Com o avô carinhoso e paciente, ela tanto pode correr para o seu colo, como fazer manha e pleitear presentes impossíveis. Esse aprendizado social ficará para sempre em sua memória, e quando estiver na idade adulta suas atitudes ao falar ou ao ouvir serão resultado dessa sua formação.

Por isso, ao falar, ouvir, escrever e ler a memória social interfere não apenas na determinação do conteúdo como também na forma como a mensagem é transmitida. Por exemplo, ao ler, ou ouvir, você interpretará se a pessoa que escreve ou fala está sendo irônica, contundente, séria, brincalhona, pois ao transmitir a mensagem ela dará pistas do sentido que pretende comunicar.

Você já percebeu que ao falar deverá ter em mente que esse fenômeno da entonação estará sempre por perto. O resultado será desastroso, por exemplo, se você, que teve uma excelente formação cultural e conviveu com pessoas bem preparadas e, portanto, se impregnou dessa marca social, falar com pessoas que não tiveram a mesma formação como se pudessem perceber com facilidade suas brincadeiras e as sutilezas de sua linguagem.

Nessas circunstâncias, você deverá produzir e comunicar sua mensagem considerando essa característica diversa dos seus interlocutores. E entender também que a sua atuação alcançará êxito se souber se comunicar levando em conta as expectativas que essas pessoas têm com relação ao seu desempenho, ao assunto abordado e à maneira como ele está sendo tratado.

SUPERDICAS DA SEMANA
- Observe se o tom voz que você usa corresponde ao que deseja falar
- Adapte a mensagem ao nível intelectual dos ouvintes
- Analise se sua forma de falar está de acordo com a realidade cultural dos ouvintes
- Não avalie o público apenas pela aparência dos ouvintes
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Livros de minha autoria que tratam desse tema: "Assim é que se fala", "Oratória para advogados e estudantes de direito" e "Superdicas para falar bem", publicados pela Editora Saraiva
Reinaldo Polito

Reinaldo Polito é mestre em ciências da comunicação, palestrante e professor de expressão verbal. Escreveu 19 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares

Site: www.reinaldopolito.com.br
e-mail: polito@uol.com.br

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