Milho atrasa e encarece ovo

Seca atrapalha milho, ameaça lucro de produtores e deixa carne, ovos e leite mais caros

Viviane Taguchi Colaboração para o UOL, de São Paulo Divulgação/CNA (Confederação Nacional da Agricultura)

O clima seco está interferindo no desenvolvimento das lavouras, principalmente na safra de inverno, que é quando os agricultores plantam e colhem a maior parte do milho produzido no ano. O resultado poderá ser sentido, já nas próximas semanas, na conta do supermercado. Isso porque, com menos milho disponível no mercado, os preços sobem e, consequentemente, também sobem os custos para produzir frangos, ovos, carne e leite (e tudo o que deriva desses ingredientes).

A agricultura segue um calendário que precisa ser cumprido à risca: no final do ano, inicia-se a safra de verão, com o plantio de soja e milho. Com as chuvas do período, as lavouras crescem rápido para serem colhidas entre meados de fevereiro e abril para, então, plantar a safra de inverno. Só que, no ano passado, a chuva não veio, os plantios de verão atrasaram, assim como a colheita, empurrando a safra de inverno (também chamada de safrinha ou segunda safra) para frente.

Resultado: houve queda na produtividade das lavouras de milho do verão, a janela de cultivo para o milho do inverno encurtou, o clima continuou seco, as pragas atacaram as lavouras e os preços estão em alta.

Por um lado, pode ser bom para o agricultor - se ele não perder todo o milho plantado e amargar um baita prejuízo, vai vender a commodity por preços mais valorizados no mercado internacional. Por outro, é ruim para o consumidor, que vai sentir no bolso mais uma alta no preço dos alimentos.

Divulgação/CNA (Confederação Nacional da Agricultura)

Sobe e desce do milho

As expectativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a produção de milho em 2021 começaram em alta. Em março, a empresa projetou que o país produziria 105 milhões de toneladas do cereal, 2,9% a mais do que no ano passado. Deste volume, 25 milhões de toneladas de milho seriam produzidos na safra verão, e 80 milhões de toneladas, na segunda safra (cultivados em 14,68 milhões de hectares, área 6,7% maior que a de 2020). Aí, veio a estiagem...

Os problemas no campo começaram no início da safra de verão, em setembro de 2020, com o fenômeno La Niña. Com os atrasos (o agricultor esperou muito por chuvas), agora é a safrinha, que começou a ser semeada mais tarde, que sofre. A seca persiste e já se estimam corte de 10 milhões de toneladas na produção.

Em nota, a Conab afirmou "que, enquanto a safrinha de milho não começar a ser colhida, vai faltar milho no Brasil no primeiro semestre". A empresa apontou que, só no mercado doméstico, o consumo do cereal é de 36 milhões de toneladas.

Com as 23,91 milhões de toneladas da safra de verão disponíveis, a diferença entre a demanda e a oferta agora é de 12 milhões de toneladas. Para resolver a situação, o governo vai usar 10 milhões de toneladas dos estoques e importar mais 1 milhão de toneladas de milho do Paraguai, Argentina, Estados Unidos ou Ucrânia.

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Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), e produtor rural, Cesário Ramalho

50 dias sem chuvas

Felippe Reis, da Geosys Brasil, empresa que monitora o clima nas principais regiões agrícolas do país, alerta para uma situação dramática em regiões como o Paraná e Mato Grosso do Sul, onde não chove há mais de 50 dias. "O acúmulo de chuvas no solo é o mais baixo dos últimos 30 anos", afirmou. A expectativa é que chova nos próximos dias. As previsões, porém, só indicam chuvas regulares a partir do dia 10 de maio.

O consultor Paulo Molinari, da Agência Safras, explica que, agora na safrinha, os números da produção de milho foram todos revisados para baixo devido à seca nas regiões produtoras. "Foram registradas perdas significativas nas lavouras do Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso", disse ele. A produtividade média da safrinha nessas regiões deve ficar em 4.915 quilos por hectare, abaixo dos 5.537 quilos por hectare colhidos na safrinha passada.

Em regiões como Norte e Nordeste, a situação está menos complicada. Por lá, o volume de milho estimado, em torno de 10,4 milhões de toneladas, deve se manter, e a produtividade deve ser até maior este ano.

Em Mato Grosso, importante área produtiva que deve colher 30,4 milhões de toneladas de milho na safrinha, choveu mais que nas outras regiões, mas de forma irregular. O Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (Imea) informou que aguarda mais chuvas nas próximas duas semanas para salvar as lavouras que foram plantadas com atraso.

Se as secas continuarem, o prejuízo para os agricultores será muito impactante, talvez o maior dos últimos anos. "Tem produtores que vão perder mais de metade da lavoura de milho", lamenta o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), e produtor rural, Cesário Ramalho. "Pelo menos nos próximos dois ou três anos, enfrentaremos dificuldades para equilibrar a oferta e a demanda do mercado".

Segundo o Imea, os agricultores que plantaram o milho no período ideal estão em uma situação mais favorável, já que vão conseguir comercializar o cereal com vantagem. Na Bolsa de Chicago, o milho atingiu US$ 7/bushel (medida do grão), maior preço desde 2013.

Existe menos milho no mundo

O presidente da Abramilho, explicou que, por mais que existam tecnologias agregadas no milho, como as variedades mais resistentes à seca, o clima ainda é um fator predominante na cultura e tem sido um problema recorrente em todos os países produtores como Estados Unidos, China e Argentina, os maiores produtores, respectivamente.

No Hemisfério Norte, o problema é o excesso de chuvas e a neve, enquanto no Sul, a seca. "Temos menos milho no mundo, e o Brasil é o único grande produtor que tem a possibilidade de plantar duas safras", lembrou. "É uma riqueza brasileira, mas infelizmente, para o consumidor final, não há nenhuma vantagem. Os preços dos alimentos vão subir".

Ramalho lembra também que o problema não é só dos brasileiros. "Não é uma situação boa para nenhum consumidor porque, ao mesmo tempo em que a oferta cai, o consumo aumenta em todo o planeta, não há como formar estoques."

A oferta de milho diminuiu em todos os países produtores enquanto a demanda só aumentou no planeta todo, principalmente no período de isolamento social imposto pela pandemia, diz Ramalho. "Na pandemia, o consumo de carnes aumentou em todo o mundo, sobretudo na China, e, para produzir proteínas, nós precisamos de milho", afirmou.

A relação é clara: o milho é o principal ingrediente das rações formuladas para as criações na pecuária. Frangos de corte e de ovos, suínos, peixes, bois e vacas leiteiras dependem do milho para engordar e produzir. A ração é responsável por cerca de 70% do custo de criação na pecuária. "O [preço do] milho sobe, o custo de produção de carnes sobe e todos os produtos que vão para o consumidor final também."

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Socorro do governo

Para minimizar o prejuízo e estimular o plantio de milho na próxima safra, na semana passada o governo aprovou, pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), ofertas de mais crédito e mecanismos de apoio à comercialização de milho.

"As medidas são uma resposta à forte demanda mundial por alimentos e à desvalorização do real, que impulsionaram as exportações de grãos e reduziram a disponibilidade local de insumos para ração animal", declarou o diretor de Crédito e Informação da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Wilson Vaz de Araújo.

O CMN aumentou o limite de financiamento para a produção de milho, a partir do dia 1º de julho, de R$ 3 milhões para R$ 4 milhões por produtor. A partir da mesma data, os médios agricultores terão acesso ao custeio para o plantio, no limite de R$ 1,75 milhão. Antes, o teto era de R$ 1,5 milhão.

Outra medida permite, excepcionalmente, usar o Financiamento para Garantia de Preços ao Produtor (FGPP) para a aquisição de milho, limitado a R$ 65 milhões por beneficiário, admitindo o preço de mercado como referência ao invés do preço mínimo. "Todas essas medidas, porém, serão vistas a partir da próxima safra", lembra Ramalho.

Para efeitos imediatos, a Câmara de Comércio Exterior (Camex), órgão ligado ao Ministério da Economia, anunciou mais uma a suspensão da alíquota do imposto de importação do milho até o fim do ano, como ocorreu com o arroz em 2020. A medida vale também para soja, óleo e farelo de soja, ingredientes que compõem as rações.

"Vale lembrar que está faltando milho no mercado e a suspensão do imposto vem para tentar esfriar os preços", destacou Ariovaldo Zani, vice-presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações). A estratégia, segundo ele, pode até prejudicar o setor. "Quem tem milho acaba segurando o produto para esperar novas altas de preços e isso atrapalha a capacidade de compra do produtor, que está pagando para produzir."

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Ariovaldo Zani, vice-presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações)

Ovos mais caros

A escassez no mercado é grande, e nem países do Mercosul como Paraguai e Argentina estão conseguindo suprir a demanda por milho. A indústria de rações anunciou que está tendo dificuldades para comprar o cereal e negociam com os Estados Unidos e a Ucrânia.

No carrinho do supermercado do brasileiro, o ovo veio ganhando espaço nos últimos anos. "Há 20 anos, cada brasileiro comia 94 unidades de ovo por ano. Dez anos atrás, o número saltou para 148 ovos por ano e hoje, são 251 unidades por ano", disse o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin.

A expectativa, é que neste ano, o consumo alcance 265 unidades por brasileiro. "Houve uma quebra dos tabus que envolviam o consumo de ovo e a ciência mostrou que é um alimento saudável."

O setor aponta que aumentaram os custos custos de produção. Em maio de 2020, a saca de milho era comprada pelos produtores de ovos por R$ 46, e hoje em dia, gira em torno de R$ 98 (uma alta de 113%).

Além disso, os insumos, como embalagens descartáveis, tiveram alta de 20% nos últimos meses e, portanto, não vai ter jeito: o ovo também vai ficar mais caro

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