Contra a corrente

Ir na direção contrária da maioria dos investidores é estratégia que pode render dinheiro

Colaboração para o UOL, em São Paulo phototechno/Getty Images/iStockphoto

Assim como o melhor momento para investir pode ser quando o pessimismo predomina, o melhor momento para sair de um investimento não raro se dá quando o otimismo toma conta do mercado.

Comprar na baixa e vender na alta parece ser uma lógica bastante elementar quando se pensa em investimento bem-sucedido, mas o que não falta são investidores que entram em ativos quando eles já se tornaram uma febre e saem quando eles viraram mico.

Os períodos de alta tensão no mercado, aqueles em que a queda da Bolsa parece não ter fim, são justamente os que abrem ótimas oportunidades para a compra de boas ações com desconto. Isso serve, inclusive, aos mais conservadores, dado que, no longo prazo, quanto mais barata for uma ação, menor será a probabilidade de o investidor ter errado no investimento.

Já os dias em que a Bolsa crava recorde atrás de recorde podem oferecer o momento certo para começar a colocar no bolso o lucro do investimento.

Diversos instrumentos financeiros estão à disposição do investidor de qualquer perfil - do conservador ao arrojado - que deseja se posicionar contra o fluxo do mercado em busca de lucro ou proteção. Os movimentos precisam ser feitos, no entanto, com parcimônia para que boas oportunidades não sejam perdidas e o patrimônio não seja colocado em risco.

Divulgação
Ivens Gasparotto, head de consultoria da Suno

O mercado está em pânico? Pode ser o momento de ir às compras

Grandes oportunidades surgem quando os mercados são movidos por pânico - após um grande choque na economia, por exemplo -, ou por euforia. São momentos em que os preços se descolam para cima ou para baixo dos fundamentos das ações, como o potencial de crescimento da empresa. Em outras palavras, saem da lógica.

No pânico, até mesmo bons ativos se tornam baratos, favorecendo a entrada, principalmente, do investidor que está disposto a esperar a tempestade passar para ganhar na correção dos excessos cometidos pelo mercado nos pregões de pessimismo exagerado. Na euforia, as ações ficam caras demais, formam-se as bolhas e a chance de vender ativos por muito mais do que eles deveriam custar.

Quando isso acontece, e o investidor entende que existe uma evidente assimetria de preço, cabe uma movimentação na direção oposta ao mercado.

Embora pareçam ser características de períodos nos quais a bolsa cai em queda livre ou sobe igual foguete, situações em que ativos ficam muito baratos, porque o mercado está vendedor, ou muito caros, porque o mercado está comprador, são uma constante na bolsa, oferecendo boas oportunidades ao investidor disposto a não acompanhar o que a maioria está fazendo.

Quando a maioria dos investidores está se desfazendo de suas posições, os investidores que buscam valor vão às compras, na contramão da manada.

Ivens Gasparotto, Head de consultoria da Suno

A famosa frase atribuída ao financista Nathan Rothschild, ?compre ao som de canhões, venda ao som de trombetas?, sugere justamente assumir uma posição contrária ao consenso do mercado.

João Lux, Analista de investimentos da CM Capital

Divulgação
Rafael Panonko, analista chefe da Toro Investimentos

Dá para lucrar mesmo sem ser dono de ações, mas risco é alto

Se um investidor entende que uma determinada ação continua sendo promissora mesmo ao "apanhar" muito do mercado, ele não vai perder a chance de comprar essa ação por menos do que, em sua avaliação, seria o seu valor justo.

Da mesma forma, caso o entendimento seja de que uma ação está subindo muito mais do que deveria - ou seja, muito mais do que o seus fundamentos justificariam e a qualquer momento a tendência pode ser revertida -, é o momento de começar a vender.

Tal venda pode ser de ações que já estão em carteira, o que na prática significa embolsar o lucro do investimento, ou não - isto é, vender ações de outro investidor . A segunda alternativa envolve uma boa dose de risco e é possível apenas quando existem ações disponíveis para aluguel.

Resumindo a operação, o investidor faz caixa vendendo ações alugadas na expectativa de recomprá-las mais barato à frente para, assim, devolvê-las a seu proprietário. Se a ação realmente sofrer desvalorização, como desejado, a diferença entre o valor levantado na venda e o menor valor pago na recompra, descontando também a taxa de aluguel, será embolsada.

Por outro lado, se o preço da ação for para a direção contrária da estratégia - ou seja, subir ao invés de cair -, o investidor terá que cobrir a diferença do valor mais alto pago na recompra.

Chamada de venda a descoberto - ou simplesmente short, no vocabulário do mercado financeiro -, a operação é feita por especuladores, que visam retorno de curto prazo com aposta em mudanças de tendência, mas também por investidores que buscam proteção de seu portfólio contra reversão de tendência, compensando com ganhos no short eventuais perdas da desvalorização de ações do portfólio.

Posições contrárias podem amenizar perdas na carteira e reduzir a volatilidade. Se o mercado seguir em alta, o investidor abre mão de ganhos, mas no momento da reversão sua carteira estará parcialmente protegida.

Luiz Henrique Wicker, Analista sênior da sim;paul

Quem usa estratégias para ganhar na desvalorização de um ativo precisa ter conhecimento do que está fazendo e mensurar os riscos envolvidos. Investidores têm boas chances de sucesso se tiverem uma estratégia bem definida. Por outro lado, o investidor sem experiência e que faz uso dessas estratégias como forma de alavancar resultados, uma hora ou outra pode amargar perdas maiores do que o seu perfil tolera. Aí que mora o perigo.

Rafael Panonko, Analista chefe da Toro Investimentos

Divulgação
Luiz Henrique Wickert, analista sênior da sim;paul

No mercado de opções, risco de perda é conhecido

Enquanto o ganho de uma operação short bem-sucedida é limitado, em tese, ao valor levantado na venda das ações alugadas, o seu potencial de perdas é totalmente desconhecido, já que não se sabe até onde uma ação pode subir, gerando prejuízos à estratégia.

Quanto a riscos, o mercado de opções oferece maior previsibilidade a quem quer especular sobre preços de ativos.

Ao comprar uma opção de venda, conhecida como put, o investidor assegura o direito de vender determinado ativo a um preço pré-estabelecido numa data futura. Ganha, portanto, se o preço do ativo - digamos, uma ação - cair para abaixo do valor previsto na opção. Logo, quanto maior a queda, maior o lucro.

No entanto, se o preço subir, ao invés de cair, o prejuízo máximo estará limitado ao valor pago por uma opção que não foi exercida. O investidor pode vender a put antes do vencimento, sendo que o preço da opção, obviamente, vai variar na direção contrária do ativo. Se o ativo perder valor, a put vai se valorizar. Se o ativo se valorizar, reduzindo a chance de exercício da put, a opção vai valer menos.

Na comparação com a venda a descoberto, as puts envolvem, porém, um investimento - o valor pago na compra da opção, o chamado prêmio -, enquanto o short é feito mediante apenas a apresentação de garantias à bolsa.

Acreditando que um determinado ativo se valorizou demais e existe grande probabilidade de o preço recuar, mesmo que para corrigir a forte alta, muitos investidores compram opções de venda, pois elas se valorizam com a desvalorização do ativo. Normalmente, são posições de curto prazo que visam melhorar a rentabilidade do portfólio de forma geral.

Rafael Panonko, Analista chefe da Toro Investimentos

Uma operação mais interessante do que o short para apostar na queda do mercado ou de uma ação seria comprar puts, já que o risco está limitado ao prêmio pago pela opção. Operar vendido (short) é muito arriscado. Via opções, o risco também existe, mas é controlado.

Luiz Henrique Wickert, Analista sênior da sim;paul

É um processo até acertar a mão com opções, e é possível que o investidor erre algumas vezes, perdendo até 100% do que aplicou na operação. Então, é preciso inteligência e estratégia no manejo do risco.

Tiago Feitosa, Matemático e especialista em mercado financeiro da T2 Educação

Eoneren/iStock
A dica de especialistas é realizar movimentos graduais tanto na compra quanto na venda

Compre e venda aos poucos para não perder oportunidades

Dificilmente alguém tem total certeza de que uma ação está sofrendo um movimento exagerado, tanto de baixa quanto de alta, para tomar uma decisão de investimento. Será que todo o mercado está mesmo comprando ou vendendo errado? Mesmo que o mercado esteja errado, não se sabe por quanto tempo um ativo seguirá se descolando do valor justo.

Por isso, além de estudar e consultar analistas para entender se há motivos consistentes que expliquem uma ação estar subindo ou caindo, recomenda-se ao investidor ter cautela ao tomar uma posição na direção contrária ao mercado.

A dica de especialistas é realizar movimentos graduais tanto na compra quanto na venda. Nunca se sabe qual será o fundo do poço e investir tudo de uma só vez numa ação por acreditar que ela está muito barata pode fazer o investidor desperdiçar a chance de comprar papéis por preços ainda mais baixos caso eles sigam em tendência de queda por mais tempo.

Lógica parecida vale para quando as ações estão subindo: o investidor precipitado pode perder a chance de vender ativos por preços ainda melhores quando a tendência de alta é persistente.

Em operações de alto risco, exposição deve ser baixa

Maior ainda deve ser a atenção quando o investidor entra numa venda a descoberto ou opera opções, por envolverem o risco de queima de patrimônio ou de todo o investimento.

Cabe submeter a estratégia a um teste de estresse. Trata-se de projetar o impacto financeiro se uma opção não for exercida, ou, no caso do short, o que acontecerá se uma ação, por exemplo, dobrar de preço durante o período de exposição.

A decisão depende muito da tolerância a risco do investidor. De qualquer forma, é recomendado pensar mil vezes antes de entrar nessa se as perdas potenciais da operação colocar em risco entre 2% e 5% do patrimônio.

Até mesmo quando o objetivo for proteger a carteira via operações short, o investidor precisa calibrar bem a estratégia. Cabe observar que, ao mesmo tempo em que neutraliza perdas, a proteção completa significa neutralizar os ganhos em períodos de alta das ações.

Sempre pensaria na exposição em uma operação short sob a luz de qual seria o pior cenário.

Luiz Henrique Wickert, Analista sênior da sim;paul

Como são operações em que se espera frequência maior de perdas do que de ganhos, a exposição deve ser pequena para não dilapidar os ganhos com outras estratégias.

Ivens Gasparotto, Head de consultoria da Suno

O nível de exposição a essas estratégias é muito relativo, mas para os iniciantes eu sugiro não colocar mais do que se está disposto a perder.

João Lux, Analista de investimentos da CM Capital

Topo